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18/11/2018

Janaína vota sem Deus


[Artigo para o público em geral]

Religião para um lado, política para o outro. Há muita gente que acredita nisso. Para essas pessoas a Bíblia não é Carta Constitucional e a Igreja Cristã, em suas várias vertentes, não ajuda ninguém na administração da Cidade, ou seja, do estado. Que a laicidade vinda do Iluminismo penetre em todos os poros dos eleitores. “Que Deus seja louvado” fique só escrito no dinheiro, que veio substituí-lo.

Pessoas que pensam assim se esquecem de que a moral ocidental é, antes de tudo, religiosa. Os Mandamentos bíblicos são base para a nossa moral. Nossos códigos ético-morais, mesmo laicos, são profundamente devedores dos deveres bíblicos. Não devemos desonrar nossos pais, não devemos ser assassinos, não temos que cobiçar pertences de outros, não nos é lícito servir à mentira, o amor ao próximo é uma virtude etc. Quando olhamos a Declaração dos Direitos do Homem, percebemos que, nesse documento laico, há até mais rigor que nos próprios Mandamentos. A ideia de não submeter qualquer pessoa a situações humilhantes e degradantes aprofunda o simples “não mataras”, nos coloca inimigos da tortura. A própria tortura é, em nossos tempos, “crime de guerra”. A guerra autoriza matar, mas a tortura é pior que a morte. Daí receber o nome esquisito, paradoxal, de “crime de guerra”. Uma pessoa que tortura outros ou, pior ainda, encarna o demônio e tortura pais na frente do filhos destes, ainda crianças, é exatamente aquele que passa a se definir como o abjeto. O torturador é o abjeto.

Se seguimos esse fio de raciocínio, que vai dos Mandamentos para a Carta dos Direitos Humanos, uma figura emblemática, que transita entre um campo e outro, ainda que vindo do primeiro, é Nossa Senhora Aparecida. A mãe de Jesus viu seu filho torturado e morto. Presenciou a quebra de um Mandamento – “não matarás”. Presenciou a quebra de outro, “honrar pai e mãe”. Viu o quesito principal da Carta dos Direitos Humanos, o da não tortura, arrebentado na sua frente. E novamente, na tortura que fizeram ao seu filho na sua frente, foi aviltada pelo rompimento do Mandamento de “honrar pai e mãe”, pelo do não-assassinato e, claro, pelo de não humilhação a cada homem. Maria é a síntese daquela que viu que toda maior maldade dos homens poder ocorrer – e ocorreu. Maria é transhistórica, nesse sentido.

Respeito muitos as pessoas devotas da Virgem Maria e, claro, de pessoas que tomam Jesus realmente como guia.

Acho Maria e seu filho, Jesus, símbolos que nos dá as lembranças mais necessárias. Por isso, quando abria o Facebook da Janaína Paschoal e a via com a foto de uma imagem de Jesus, sentia certa segurança. Via Janaína inspirada por boa companhia. Uma companhia própria para alguém do Direito, alguém que deve defender os humanos. Pensava comigo: Janaína é aquela pessoa que tem um limite, que ela nunca atravessará, não só como membro da OAB, mas como quem, sendo mãe, tem nas costas o trajeto de Jesus, que foi filho.

Mas eis que agora vejo que Janaína é capaz de enxergar corretamente que Lula rouba, que Maduro tortura, mas não pode mais olhar para a Virgem Maria ou para Jesus, pois eu tenho absoluta certeza que a mãe de Jesus e ele próprios têm os corações partidos com os atos de Brilhante Ulstra, o ídolo de Bolsonaro. E Janaína diz que apoia e vota em Bolsonaro.

Quando contei isso para algumas pessoas, os sabichões de sempre, os donos do mundo que glorificam Stalin e Fidel do mesmo modo que gente como Bolsonaro glorifica Pinochet e Médici, eles assim comentaram: “Bem feito para você Paulo, com sua decepção diante da Janaína, ela é louca, de direita, ridícula etc.” As pessoas não sabem que minha decepção com Janaína tem equivalentes. Tenho amigas que votam no Lula, que vão até apoiar o “cu laico” da Tiburi  no Rio, que é uma aberração, para dizer o mínimo. Então, de decepção à esquerda e à direita, eu entendo. E por que minha decepção? Porque sou da velha guarda, sou daquelas pessoas que vota com a Bíblia e com a Carta dos Direitos do Homem para além das ideologias. Acho que há limite para aceitação humana diante do Mal. Não posso me conformar com Che Guevara, que acreditou ser Deus e executou homens maus, mas não posso achar que uma criança tenha de ser posta por Brilhante Ulstra, e sob o sorriso do coronel tresloucado Bolsonaro, diante dos pais torturados. Só de imaginar uma mãe levando choque na vagina na frente da criança, seu filho, me causa profundo desespero – e olha que eu não passei em branco na Ditadura Militar! Eu deveria estar acostumado? Pensar que a Janaína, mãe e cristã, acha isso algo secundário, é horrível. Ver que ela pode cruzar a fronteira que eu acreditava que ela não cruzaria, me faz sofrer.

Janaína vota anti-PT. Seu ódio ao PT é de tal ordem, por conta de sua pouca idade, que ela imagina que a extrema direita é o anti-petismo e que, então, ser bolsonarista é continuar sua saga anti-Lula. Janaína não sabe que Bolsonaro vem de Maluf, e que Maluf e Lula estiveram sempre unidos. O PP é o partido mais corrupto após o PT. Delfim Neto é amigo pessoal de Lula – já anos. Fizeram os roubos juntos, PT e PP. Bolsonaro também pegou dinheiro. Ele mesmo confessou. E todos sabemos o quanto ele se envolve com bancadas ruralistas, com evangélicos que são falsos religiosos, com racismo, xenofobia, misoginia e homofobia. Se há alguém que realmente mancha todos os ideais cristãos, se há alguém que macula os ensinamentos vindos da Dor de Maria, esse alguém é Bolsonaro. Mas o ódio ao PT é de tal ordem que Janaína atropela sua devoção cristão para ajoelhar diante de outro púlpito, o da Glória do Mal. O ódio nunca é bom condutor do voto. Janaína foi atacada por petistas, e ficou cega. Não vê mais o que é. Virou uma bola de fogo sem rumo ou, pior, no rumo errado. Janaína se afastou do correto e não consegue mais ver a Dor de Maria, a humilhação de Jesus, apenas a sua pequena dor de ofendida por claques.

Desse modo, a imagem de Jesus no Facebook da Janaína começa, agora, a desbotar. Logo já não será mais o Santo que ali estará, mas apenas o estandarte no qual a imagem da Santa Nossa Senhora é colocada pela TFP, no seu “combate ao comunismo”. Janaína disse que Dilma queria ser bailarina e se perdeu. Eu deveria agora dizer algo parecido para a própria Janaína? Creio que não. Creio que a imagem da Mãe de Jesus vai ter sua força na consciência dela, e ela irá mudar o voto. Talvez deva ocorrer com Janaína aquilo que ocorreu com o soldado romano, hoje santificado, que ao jogar a lança no peito de Jesus, viu seu sangue voltar e espirrar em seu olho, e aí passou a enxergar o que tinha que enxergar.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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25 Responses “Janaína vota sem Deus”

  1. Marcus França
    23/07/2018 at 22:50

    Acompanho seus textos esporadicamente, mas confesso que essa semana fiquei numa curiosidade pra saber o que falaria sobre a aproximação da Janaína com o bozonaro, ainda mais pela data do texto ter sido enquanto ela apenas declarava voto e não necessariamente cogitava se envolver na chapa do mal como vice presidenciavel… Essa semana estive lendo um livro da Maria Lacerda de Moura intitulado como “fascismo – filho dileto da igreja e do capital”, lançado em 1934 mas que ainda mantém um certo frescor quando fala sobre a forma na qual os cristãos se ativeram às letras mortas ao interpretar os livros bíblicos ao pé da letra. Digo isso porquê o livro me causou um alvoroço tal qual o anticristo de Nietzsche, porém com uma organização mais historiográfica e alguns pitacos sobre a realidade brasileira e mundial da época, o que me leva a discordar de alguns pontos da sua reflexão a respeito da moral ocidental. Mas nessa altura acho que a Janaína se aventura no pior que o conservadorismo tem produzido politicamente ao redor do mundo, de acordo com a recente entrevista que o Castells ofereceu ao Estadão no último final de semana, se prestando a fazer serviços nefastos contra os princípios democráticos que, por mais contraditórios que se apresentem na configuração atual, ainda serve como norte para uma mundo mais complexo e que ainda atenda à universalidade sem abrir mão das reflexões a respeito do reconhecimento das diferenças.
    Um abraço!

    • 23/07/2018 at 23:31

      Sobre Janaína, fiz um vídeo também, dê uma olhada no facebook

  2. Orivaldo
    22/07/2018 at 13:56

    Não será estratégica a intenção de Janaína ao querer, de nariz tapado, essa vice presidência ?levando em conta o perfil, de candidato ao impeachment,
    do Bolsonaro. Disso ela entende.

    • 22/07/2018 at 14:11

      Ha ha ha ha! Eu acho que a Janaína, coitada, tá perdidinha na vida. Ela foi atingida por uma pedrada na cabeça. Até os coleguinhas nazistóides dela, o MBL, não apoiam o Bolsonaro.

  3. Roberto
    11/07/2018 at 22:10

    Muitas das suas ideias sobre direitos humanos, Bolsonaro, etc… vão ao encontro com as do Gregório Duvivier (greg news). Só comentando.

    • 12/07/2018 at 10:42

      Roberto, eu não sou um comediante. O fato de você achar o que achou é falta de entender que minhas ideias não vem de um pensamento raso da esquerda, mas de reflexão filosófica. É aí que eu convido você a vir para os livros e sair do jornal. Quando você não distingue um comediante de um filósofo, nem sempre é culpa do filósofo, pode ser culpa sua, falta de cultura para entender o filósofo. Só comentando, tá?

  4. TiagoIM
    09/07/2018 at 12:37

    … e o cordeiro revela-se lobo… não que seja surpresa pra mim.

    • 09/07/2018 at 12:45

      Todo mundo quer sempre se dizer não surpreendido. Menos eu.

  5. Anderson Luiz da Silva
    05/07/2018 at 17:16

    Tenho a impressão que a Janaína não cruzou nenhuma fronteira. Ela sempre demonstrou estar do outro lado da linha, a despeito de ter feito algo de importante para o pais. A questão é que, pouco a pouco, depois dos holofotes, ela começou a mostrar a sua face.

    • 05/07/2018 at 19:08

      Anderson! O discurso dela, antes, era pior. Mas há do lado da esquerda coisa igual, gente que não acha que ideologia é mais importante que os Mandamentos.

  6. Anderson Silva
    05/07/2018 at 16:10

    Hum…. Tenho a impressão que a janaína não está cruzando nenhuma fronteira. Afinal ela sempre esteve do outro lado, em meio ao ódio e a insanidade…. o que está acontecendo é apenas a revelação de uma face.

  7. LMC
    05/07/2018 at 11:22

    Não vou estranhar que Bolsonazi
    vá pro segundo turno e vença
    igual Collor com seu discursinho
    patriota sendo “o caçador de
    marajás”.Mas ele pode ser também
    um novo Russomano e morrer na praia.

    • 05/07/2018 at 11:31

      LMC o problema dele, Bozo, é pior que o do Lula: ele ultrapassou o patamar aceitável de rejeição.

  8. Thiago Leite Ribeiro
    04/07/2018 at 14:33

    Paulo e o perdão? Se Janaína está apoiando a direita política ela está perdoando Maluf, não é? O perdão faz parte do evangelho. É a cartilha dela.

  9. Thiago Leite Ribeiro
    04/07/2018 at 14:25

    Paulo, Lula e Maluf têm perdão? A lógica do perdão cristão chega até eles?

  10. Gui
    04/07/2018 at 04:40

    Infelizmente Bolsonaro ganha. Ele vai chamar Janaína pra ser membro do conselho da república ela aceitará… Depois sai e começa a falar meu dele. É sempre assim

    • 04/07/2018 at 09:06

      Gui não faça da bolha de internet sua realidade. Bolsonaro é o candidato com maior rejeição. Maior que a do Lula.

  11. Jediel Placeres
    03/07/2018 at 21:57

    Professor, humildemente lhe pergunto: este movimento político(por vezes extremista), rítmico e polarizado não foi a tônica histórica contemporânea desde sempre?

    Por outro lado…Entendo seu desapontamento, mas o que mais me preocupa hoje é que, ao visto, Zimbardo e Milgram quando fizeram seus famosos experimentos em psicologia social, nos deixaram pistas acadêmicas sólidas da evolução e do passo à passo de um quadro em que, por meio de hierarquias e ‘ordens’, culmina na apatia do ser e na perda do senso do bem e do mal quando o cenário está favorável, e, obviamente, isso nos remete aos métodos que o Hitler e cia bela usavam na política, muito provavelmente empiricamente. Uma pena que alguns desses estudos não foram devidamente finalizados, mas deixaram seu recado para nós.

    Agora fica outra pergunta: levando em conta historicamente os movimentos políticos mais exacerbados e violentos, e as possíveis dissociações causadas no sujeito alinhado à causa. Crenças religiosas judaico-cristãs(arquetípicas, e que possuem violência na interpretação religiosa) se contrapõem ou se unem à estes movimentos?

    • 04/07/2018 at 09:07

      O voto da Janaína é emblemático apenas quanto ao fato de que às vezes só instrução não adianta.

  12. Matheus
    03/07/2018 at 13:36

    Infelizmente era previsível que a Janaína iria escorregar… De fato, ngm está imune ao “erro”, ou nesse caso, o engano, pra ficar melhor colocado.

    Mas todo mundo pode refletir, repensar, se corrigir e até pedir desculpa pelo deslize.

    Vai que dá tempo, Jana, estamos na torcida!

  13. LMC
    03/07/2018 at 12:43

    Que artigo,PG!Imagine isso
    na página 3 da Folha.É do
    mesmo nível de um Vinicius
    Torres Freire.

    • 03/07/2018 at 18:10

      Ha ha ha eu sou melhor que os caras da Folha, quando faço artigo para a página 3, eu me diminuo

  14. Guilherme Hajduk
    03/07/2018 at 10:50

    Ainda desejo ver alguém ter a coragem necessária para se candidatar enquanto se pronuncia ser anti-cristianismo, anticristo. Claro que nunca ganharia cargo público nenhum, nem chegaria perto! A plebe nunca aceitaria algo desse tipo. Mas eis que seria alguém digno de respeito! Imagine: — “Meus companheiros, estamos sob o Cristianismo e seus valores há tanto tempo e olhem para nossa situação agora! O futuro já é o presente e o passado só nos presenteou com desgraças e misérias enquanto prometia um futuro promissor, que nunca chegaria. Faremos, então, do presente algo superior! Fora com o Cristianismo…”.

    • 03/07/2018 at 11:02

      Meio decadente esse “fora com o Cristianismo”

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