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18/11/2017

Hilary perdeu por defender “gorda lésbica”


Hilary ganhou no voto popular, mas perdeu as eleições. A melhor análise das eleições americanas que li foi a do cientista político Francis Fukuyama (Folha de S. Paulo). Ele anuncia algo como que uma defasagem entre os eleitores americanos e seus grandes partidos.

Para ele, o Partido Republicano se tornou um conglomerado de donos de empresas que se distanciaram dos interesses dos Estados Unidos, tanto do povo quanto do estado. O Partido Democrata, por sua vez, deixou de representar os trabalhadores em geral e ficou refém da “política de identidade”. Resultado, qualquer outsider poderia  surgir e levar a taça. Foi o que ocorreu.

Para quem vem da tradição de leituras de Richard Rorty e Peter Sloterdijk, penso que teríamos de lembrar que Bernie Sanders poderia ser vitorioso, e estaria desacomodando o Stablishment, agora, tanto quanto Trump já está fazendo – ainda que não saibamos o quanto ele vai manter as promessas de campanha menos ordodoxas. A maior parte dos americanos funciona ainda nos cânones da política liberal tradicional. O que se deseja? Oportunidades para todos, liberdade de expressão, alguma ajuda para pobres contanto que não se aumente impostos, “Great America”, etc. Ora, Hilary se esqueceu dos trabalhadores americanos brancos descontentes que, mesmo com a recuperação econômica feita por Obama, permaneceram em seus estados, claro, onde a industrialização sofreu duro golpe. Ela largou de lado, impotente, o “vale da ferrugem”, e acreditou que, como diria um eleitor bem à direita diria, defender “gorda lésbica” iria lhe dar alguma coisa. Ora “gordas lésbicas” possuem bandeiras específicas demais, talvez nem mesmo sejam bandeiras políticas, mas exclusivamente sociais. É nisso que o Partido Democrata não tem reparado.

A “política de identidade” deveria ser um coadjuvante na política de esquerda. Mas, faz tempo que uma boa parte de gays, lésbicas, negros, hispanos, gordos, aleijados etc. se colocam todos como minorias identitárias, e se impõe para além do que podem e devem no interior de grandes movimentos políticos que deveriam ser capazes de ir além dessas suas demandas específicas. Muitos desses grupos não entendem o chamamento de John Dewey dos anos dez, dizendo que o verdadeiro americano é o americano hifenado. O americano típico é afro-americano, sino-americano, ítalo-americano etc. Pode-se por quantos hifens se deseje, mas o que não se pode fazer é esquecer que a unidade que chefia o trem se dá a partir do segundo vagão, não do primeiro. É “americano” que unifica e dá de fato a identidade. E os americanos de um modo geral precisam,  ainda, serem levados por ideias da grande política que o liberalismo sempre soube conduzir. “Gorda lésbica” e nem mesmo “latinos” elegem um presidente se o “trabalhador em geral” for esquecido. E o trabalhador em geral, mesmo em um tempo em que a “sociedade do trabalho” não é a principal referência da política, ainda é uma peça chave em um mundo em crise biosférica, um mundo em que a luta pelo mimo tem muito a ver com a luta por ter antes bom trabalho que qualquer trabalho.

Os trabalhadores do vale da ferrugem são um aviso de que a América ainda não pode ser dar ao luxo de deixar uma parcela grande, que conheceu bons empregos, viver de empregos não prestigiados. Não podemos confundir análises filosóficas amplas com as necessidades de direções políticas específicas, não, ao menos, em época de eleição. Hilary fracassou aí. Bill Cliton não podia mais ajudá-la.

Essa lição vale para muitos outros lugares, inclusive para o Brasil.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 16/11/2016

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10 Responses “Hilary perdeu por defender “gorda lésbica””

  1. 23/11/2016 at 14:05

    Esse texto recoloca a questão do fator “trabalhador em geral” como definidor das eleições atuais, não só nos EUA. Eu pessoalmente achava que a eleição de Obama havia dado um fim a isso, da mesma forma que Habermas e Clauss Off haviam dado fim ao trabalho como “categoria sociológica chave”. Pelo que se vê, o “vale da ferrugem” venceu a “gorda lésbica”. Mas, não é o que se vê em filosofia e sociologia.

    • 23/11/2016 at 14:10

      Sérgio estou longe de dizer isso, o paradigma do trabalho se foi. O “trabalhador” aí deve ser entendido sem messianismo.

  2. Fernando
    17/11/2016 at 00:35

    O problema não está nas minorias pleitearem suas questões mas no erro de estratégia dos democratas. Lembro que até John Kerry X Bush, minorias eram importantes para os democratas, mas a classe média era bem mais central. O Obama que mudou isso – ou foi levado pela onda. Apesar de ser da ala pró livre comércio, durante as primárias e a campanha presidencial, o discurso dele era “sou um líder moderno e antenado e pró minorias” – representando o urbano, secular, educado e jovem. E o partido democrata se voltou quase que exclusivamente para essas causas da pequena burguesia. É prefeito pro eleitorado liberal urbano, mas isso abandonou completamente a gente esquecida pelo capitalismo.

    • LMC
      17/11/2016 at 10:36

      Melhor a Hillary defender
      gorda lésbica que apertar
      a mão de racistas da KKK,
      Fernando.

    • 17/11/2016 at 10:38

      Fernando “pequena burguesia” não existe no meu texto. Saia disso, ande por caminhos novos. Minha análise não tem a ver com isso cara. Quando a Obama você está completamente errado.

  3. wagner santos
    17/11/2016 at 00:07

    Vou aprendendo, aos poucos.

  4. Rafa
    16/11/2016 at 19:15

    Ela perdeu por causa do sistema de colégios eleitorais, ponto. Todo esse bla bla bla restante é resultado da tentativa de eleger pautas importantes e menos importantes, como se alguém tivesse um saber e uma autoridade universal para fazer isso, é fácil deslegitimar pautas de minorias quando não se é minoria, minorias somadas são maioria e nós não vamos deixar de existir politicamente porque alguém decidiu que não é tão importante. aliados a esquerda ou não, minorias não são um puxadinho da esquerda, aliás, historicamente a esquerda feriu diversos direitos humanos e individuais, hoje a esquerda parece ter feito uma auto critica e se aliado aos direitos humanos, mas não somos refém de sistema politico e econômico nenhum.

    • 16/11/2016 at 20:43

      Fukuyama e eu estamos devendo esta para você, vamos ler seus livros.

    • wagner santos
      16/11/2016 at 21:37

      Tudo o que a esquerda não tem feito é uma autocrítica. Os vários movimentos (minorias) dentro da esquerda não conseguem digerir Foucault, por exemplo. Continuam enxergando a si mesmo como produtos de uma teleologia que determina as suas ações. Tem tomado uma sova de uma direita que nem precisa ser sofisticada, basta conhecer os clichês que esta esquerda apaixonada por si mesma repete sem nenhum constrangimento, num ciclo que já beira o ridículo, acusando a tudo e a todos de reacionários, quando estes ousam destoar do amém.

    • 16/11/2016 at 22:17

      Wagner “autocrítica” é uma expressão que você deveria conhecer a história. Ela se tornou o ridículo, não sabia?

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