Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

25/09/2017

Há algo mais na morte de Marisa Letícia?


No final dos anos oitenta, durante a primeira campanha de Lula à presidência, Chico Anísio fez uma piada no quadro que tinha no Fantástico, da Rede Globo, que lhe causou uma boa dor de cabeça. Ele imaginou Lula ganhando as eleições e então chegando nao Palácio do Planalto com Dona Marisa ao lado. Esta então exclamaria: “meu Deus, não vou vencer de limpar todas essas janelas!”. Roberto Marinho o repreendeu pessoalmente, e ele acabou tendo de pedir desculpas por meio da Folha de S. Paulo. Chico era eleitor do Collor.

Dona Marisa era vista como um tipo de dona de casa pobre, meio que empregada doméstica. Uma primeira dama assim, tinha de fazer os ricos mais despudorados, de fato rirem. Essa era a ordem. Mas o que não se percebeu é que a democracia, aquela na linha do igualitarismo que Tocqueville anunciou, já havia chegado entre nós antes como sentimento que como prática de governo. E o humor de Chico Anísio havia ficado para traz. Ele teve que abaixar a cabeça.

Uma década depois, o impossível para muita gente aconteceu: de fato Dona Marisa virou primeira dama. Até então, ela não havia feito outra coisa senão limpar chão de reuniões do PT e preparar sandubas para os “companheiros”. Foi sim batalhadora serviçal que ajudou muito na formação do PT. E também aguentou muito desaforo. Nos anos oitenta,  havia visto sua casa invadida por jornalistas, mostrando que a família Lula comia queijo no papel de embrulho da padaria, no café da manhã. Ninguém invadia assim a casa de Collor. Lula soube aproveitar disso tudo para seu populismo. Dona Marisa não, ela recolheu mágoas. Talvez com razão, não é verdade?

Todavia, Dona Marisa não estava realmente preparada para ser primeira dama. Nem poderia, pois nem Lula estava preparado para ser presidente. Lula pegou uma via de política econômica errada, e piorou as coisas quando achou que tal via podia se prolongar por meio de populismo e acordo espúrio com empresários tão bandidos quanto a cúpula do PT, como Dirceu e Palloci à frente. Dona Marisa passou a usar o cartão corporativo num ritmo pior do que aquele que Dilma fez depois. E logo Dona Marisa já estava enredada em todo tipo de falcatrua, inclusive a de ter de suportar na sua companhia aquela que, como dizem por aí, era a amante do Lula. No meio disso os filhos cresceram e, sem muita habilidade intelectual, eles ficaram ricos por meio de negociatas feitas pelo PT ou por influência do pai. Quando Dona Marisa atacou os que batiam panela contra o PT, apenas levantou o ódio de muitos que não ficaram com raiva dela por posições políticas somente, mas por mágoas várias. Dois tipos de mágoa: uma delas, já existente, a de não conseguir o que ela conseguiu, vindo de baixo; a outra, formada depois, de ver Marisa embarcar na traição do PT contra todos os seus eleitores.

Dona Marisa não tinha nenhuma leitura, e penso que nunca entendeu nada do que estava à sua volta. Apenas queria viver bem, e deveria achar que merecia isso, por conta de seu marido ter gasto uma vida “salvando os pobres”. Muita gente acredita demais na imagem de salvador que monta para si mesmo. Não é difícil fazer isso, uma vez que muito do que somos é criado pelo espelho que são os olhos dos outros. E se projetamos nos olhos dos outros uma imagem falsa, ela volta falsa e simplificada para nós. Moldamo-nos, então, nesse círculo vicioso via Narciso. Lula é um caso assim. Se notarmos as declarações dele, é fácil perceber suas mudanças de acordo com a opinião pública criada por ele mesmo. Aliás, quando Lula criou o jornalista marrom Luis Nassif, para ser o inventor de mentiras contra adversários e notícias favoráveis sobre ele, não demorou muito para ele próprio se basear em Nassif para julgar todo o resto. Virou então a mentira produzida por si mesmo. Na baixa, admitiu o “mensalão”, na alta, “negou”. E assim por diante. Marisa foi um tipo de espantalho desse  grande espantalho chamado Lula. Quem foi ele? Lula, o operário que deu certo como sindicalista e quase como político, mas não como homem.

Maria Letícia morreu. A direita vocifera com ódio descomunal. Não respeita a morte, a dor de alheios, age com gente sem berço. Não se pode esperar outra coisa dessa gente. E a esquerda poderia simplesmente fazer o enterro e pronto, mas ao dizer que o culpado da morte é Moro, não só mostra que não sabe o que é causalidade, mas que também não sabe o que é dignidade. No frigir dos ovos, os vidros do palácio do Planalto terminaram sujos, mas não por poeira. E continuam sujos, pelas mãos daqueles que Lula escolheu.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 02/02/2017

Tags: , ,

22 Responses “Há algo mais na morte de Marisa Letícia?”

  1. roberto
    12/02/2017 at 00:32

    Tudo pode acontecer, se eu fosse o Sergio Moro pedia exumação do caixão, pra ter certeza, esse vagabundo é capaz de tudo, agora que tava chegando a hora dele…sei não…

  2. Maria Isabel
    08/02/2017 at 19:32

    Ridículo! O legitimo canalha irresponsável, medíocre e desumano. O mau caratismo chegou ao seu auge. Nojo!!!

  3. Mauricio Spinosa
    07/02/2017 at 07:16

    Muito bom texto, desapaixonado e certeiro na análise. E fora do circo de horrores perpetrado pelos dois lados do fosso ideológico criado a reboque do Lulopetismo de resultados.

  4. Roberto
    05/02/2017 at 01:35

    Filosofia de boteco, cheia de ideologia partidária, pensamento muito raso para definir o perfil de uma mulher batalhadora que ajudou do jeito que podia o seu esposo a chegar num lugar onde antes só era permitido para a elite.
    Fala do esquema de corrupção como se fosse coisa nova, inventada pelo PT, mas se esquece que na privataria drealizada pelo governo do PMDB, de 125 grandes empresas subvalorizadas (ex. Vale), sendo uma quse doação do patrimônio dos brasileiros para os grandes capitalistas nacionais e internacionais.
    Nessas negociatas do patrimônio do povo brasileiro deve ter havido muitos esquemas muito mais escandalosos, a diferença é que na época se engavetada toda investigação de qualquer esquema, inclusive com intervenções direta do governo na Polícia Federal e forte influência no Judiciário.

    A grande verdade é que muitos ainda não havia engolida a ideia de uma ex- doméstica ocupar a posição de primeira Dama do Brasil.

    • 05/02/2017 at 12:25

      Roberto vou deixar seu pensamento registrado aí para as pessoas perceberem que ainda existe gente como você, não quer ver nada. É o chamado petista fanático. Igualzinho aos seguidores de Bolsonaro.

  5. Guilherme Picolo
    04/02/2017 at 18:31

    Dona Marisa parecia ser aquele tipo de pessoa com ojeriza de entrar num fórum ou prestar depoimento no distrito policial. De repente, justo ela, “uma simples dona de casa que nunca fez mal a ninguém ” (creio que ela pensava assim), via-se envolvida em tramas criminosas sofisticadas e em intrincados esquemas de investigação, com mobilização intensiva dos agentes públicos e repercussão internacional.

    A fascinação pela “casa no Guarujá”, por exemplo, é sintomática: revela o sonho do pobre paulistano dos anos 80, um padrão de pensamento estacionário dada à realidade dela… hoje, já não se precisa condicionar o lazer de bom nível à propriedade de imóvel no litoral (principalmente para quem tem o dinheiro e a influência da família Lula), e nem o Guarujá representa, mais, símbolo de status e riqueza (na verdade, é uma cidade bem decadente, repleta de favelas e tomada pelo crime, exceto poucos condomínios de alto padrão afastados).

    Analisando esses padrões de comportamento, somados à idade e nível de escolaridade da pessoa, fica claro que ela não tinha estrutura emocional, intelectual, nem psicológica para aguentar a pancadaria dos processos criminais, intimações, questionamentos na delegacia, notícias de inquéritos e reuniões com advogados… Essa ciranda toda, se não a empurrou diretamente para a cova, contribuiu bastante para fragilizar a sua saúde.

    • 05/02/2017 at 12:27

      Sim, a maldita casa no Guarujá, para que aquilo né? Lula começou a errar muito cedo. Ela também.

  6. Frederico Vilas Boas
    03/02/2017 at 22:46

    Meu bom Laerte: eu também quero que você nos forneça o seu Currículo Lattes. Por favor.

    • 04/02/2017 at 00:48

      Sim Frederico, precisamos disso, o Lattes dele.

  7. Paulo nunes
    03/02/2017 at 19:45

    Seja debater o que for,mas o que precisamos mesmo é ter mos todos vergonha na cara e fazer como fez um dia a Coréia do sul; dedicarmos uma boa parte do PIB à elevação incondicional das nossas crianças; educação, alimentação, lazer, cuidados. Assim teremos num futuro não muito próximo, adultos de verdade e não esse bando de frouxos, desonestos e oportunistas que somos; me incluo nessa porcaria de povo que somos atualmente.. Credo! Que canseira de tanto ver tudo errado…

  8. Eduardo Pupim Filho
    03/02/2017 at 17:24

    Olha Paulo, em se tratando de morte, claro, o mínimo que podemos desejar são as condolências e pesares. No entanto, em razão do próprio Imbróglio em que se acham inseridos o casal e tantos correligionários, é difícil as pessoas apenas receberem a notícia sem associarem os desmandos. Fica até difícil frear os maus pensamentos que, mesmo sem nossa vontade, invadem nossos pensamentes; ainda mais sabendo que qualquer fato de comoção pode ser o mais apropriado para suavizar uma tempestade. Desta forma, porque não usar em seu favor, uma situação que infelizmente é irreversível? Não é nem ético dizer, mas no fundo, passa-nos um lampejo de que, a própria iniciativa instantânea de doação dos órgãos não seja um altruísmo já pensado. Nos remete a estes dizeres de Nietzsche: “o amor do próximo, o viver pelos outros etc., podem ser as medidas preventivas para a conservação do mais absoluto amor de si mesmo. Este é o caso excepcional no qual eu, contra meus hábitos e as minhas convicções, defendo os impulsos ‘altruísticos’: que aqui eles agem a favor do egoísmo, da educação pessoal”.

  9. Vitor Guerra
    03/02/2017 at 14:25

    Parabéns About Paulo Ghiraldelli, expressou exatamente o que foi a senhora lula e o próprio lula e cia. Parabéns!

    • 03/02/2017 at 14:42

      Vitor! Obrigado, mas não mereço parabéns, como tantos outros, também caí durante um tempo no engodo desse cara, mesmo conhecendo a peça.

  10. Ricardo Kassius
    03/02/2017 at 11:27

    Professor,
    Apesar de não concordar com algumas das suas ideias, a impopularidade que o Senhor vem alcançando, nos últimos anos, tornou-me mais leitor dos seus textos. Como falava Milton Santos, o intelectual tem que gerar desconforto, indisposição… Obrigado por me tirar da minha zona de conforto.

    • 03/02/2017 at 11:45

      Já imaginou um filósofo popular? Um Sócrates sem cicuta, com todos o louvando, como um historiador fazedor de frases. Ricardo, o filósofo ou tem compromisso com a autenticidade ou não é filósofo.

    • cosmo silva lemos
      04/02/2017 at 10:18

      A Política da Mariza Letícia era a dos Utópicos de mudanças. Não só a sua esposa ficou decepcionada com a prática governamental do PT e da classe trabalhadora no Governo. Todos nós estamos amargando a maior corrupção, e o desemprego de 12 milhões de brasileiros, deste mesmo partido, que carrega o nome de TRABALHADOR. Que Deus a perdoe e a receba de mãos abertas.

  11. Analia Maria Braz Matos Peanho
    03/02/2017 at 09:35

    Isso não é filosofia, por si só já demonstra o caráter do autor.

    • 03/02/2017 at 10:57

      Analia, a filosofia é para todos mas não para qualquer um. Não é para você. Decididamente, você tem que ler somente a Revista Caras. Com bastante figura.

  12. Hilquias Honório
    02/02/2017 at 20:05

    Foi um final bem melancólico. Me ficou uma imagem de decadência.

  13. Laerte Vaz de melo
    02/02/2017 at 18:59

    Continua a tripudiar usando uma pseudofilosofia.
    Está livre para escrever qq coisa. Só acho quem nunca esteve preparado para a filosofia é o senhor.

    • 02/02/2017 at 20:40

      Laerte eu estou aprendendo. Vou comprar seus livros e ter aulas com você, aí sim vou ficar o fino! Aguarde.

  14. LMC
    02/02/2017 at 16:06

    Nos anos 80,Chico Anysio fazia
    um pastor daqueles que a gente
    conhece muito bem-talvez seja
    o melhor personagem dele-e
    hoje no século 21,temos um
    desses pastores como prefeito
    do Rio de Janeiro.Sem falar na
    bancada evangélica no Congresso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *