Go to ...

on YouTubeRSS Feed

16/12/2017

Há algo de fresco no nhé nhé nhé sobre “polarização” na Internet


Texto indicado para o público em geral

“Frescura” é um termo de gíria velha. Serve para qualificar os que mostram entojo por qualquer coisa. “Nhé nhé nhé” era o que Fernando Henrique Cardoso usava antes de aparecer o “mimimi”.

Bem, feita essas explicações preambulares, vamos à situação: há analista que não vê mais o mundo a não ser o grupo de “amigos” de redes sociais. Não percebe que o que chega até ele já está filtrado e direcionado pelos seus interesses e reproduzido e direcionado para ele mesmo pelo modus operandi da Internet. Há muito jornalista caindo nessa. Há até intelectual bem formado dando de bobo diante da máquina reiterativa dele próprio. Não são capazes de notar que os brasileiros não estão polarizados entre “coxinhas” e “petralhas”, que quem vê o mundo assim está num meio comum a jornalistas e intelectuais. Não percebe, também, que “formadores de opinião” servem para muita coisa, mas não tanto para a política. Eis que essas pessoas redutoras de mundo resolvem achar que tudo ficou mais burro por conta da “polarização” política, e despejam então por aí mais frescura e nhé nhé nhé do que já existe.

A frescura e o nhé nhé nhé de alguns intelectuais, especialmente na esquerda, é dizer que o Brasil está impregnado pela disseminação de ódio. A frescura e o nhé nhé nhé da direita é dizer que a Internet faz linchamentos – a direita agora inventou o seu próprio vitimismo, chora para tudo. Em ambos os casos, essas pessoas que dizem isso ou são jovens ou, então, não se lembram do Brasil do passado ou, ainda, são velhos que fugiram do estudo da história. Alguns até dão palestras e escrevem livros de fresco!

Eu pergunto: quando foi que as polarizações do passado foram menos acirradas? Será que o suicídio de um presidente se fez em clima ameno? Varguistas e lacerdistas empolgavam menos e eram mais inteligentes? Que piada! Será que 1964 se fez em clima doce e suave? Será que o embate Lula versus Collor foi só rosas? As denúncias de Collor contra Lula sobre aborto etc., eram mais sofisticadas? As respostas de Lula a FHC quando do Real eram um primor de sabedoria? E os tempos internacionais de Guerra Fria, eram um símbolo de inteligência e diversidade?

Desconfio que o problema dos intelectuais de esquerda e direita é a vocação autoritária que buscam esconder – às vezes nem tanto. Tudo vai bem se há uma voz uníssona. Aliás, os partidos de direita e esquerda falam abertamente isso em suas propagandas, sempre pedindo “união nacional”, “união do povo” etc. “União” é uma palavra fascistóide. Na moda atual de elogiar a diversidade, falam de boca cheia por ela, mas jamais fazem o elogio da singularidade. Diverso é condição normal, o extraordinário e interessante numa sociedade é a existência de um Sócrates, ou seja, uma singularidade. Isso a esquerda e a direita brasileiras não suportam.

Se o racismo aparece, eu lhe dou pau. Mas não só, tento analisar as várias possibilidades sociais que o fazem ter cara, ter rosto. Se a homofobia aparece, eu lhe dou pau. Mas não só, faço vários pequenos ensaios sobre o assunto, buscando entender sua constância. Se os maus tratos com animais é prática e ainda por cima tenho de ver gente comemorando isso em nome da ciência, dou pau. Mas novamente uso do que tenho, a formação filosófica, para saber das razões ou da irracionalidade da conduta que condeno. Agora, frescura e nhé nhé nhé por conta de ter de participar desse embate, jamais! A paz é a do cemitério – e nem lá, às vezes. Quem quer debate “racional”, que para essa gente é o sinônimo de não-polarização, deveria olhar para si mesmo e ver se não está querendo, de fato, apenas ser o dono da palavra, justamente por estar na imprensa. Quer falar de cima, e ouvir, quando muito, só eco.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 22/11/2017

Tags: , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *