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24/10/2017

Finalmente a democracia admite o rico?


A passagem do século XIX para o XX marcou o aparecimento da democracia liberal de massas. Este tipo de democracia, chamada de democracia moderna, paulatinamente obrigou a todo tipo de candidato, conservador ou não, progressista ou reacionário, a adotar um só discurso a ser proferido: “estamos aqui para sermos votados, e queremos ajudar os trabalhadores e os pobres”. Esse discurso mudou logo para algo parecido: “sou trabalhador, sou humilde, por isso vou governar para os trabalhadores e humildes”.

Foi assim que o milagre operado por Jesus, de ter transformado já no Império Romano o pobre em virtuoso mesmo sem ter qualquer virtude, finalmente chegou à política. Os candidatos até poderiam ser ricos, mas de preferência tinham ou de vir de meio pobre ou então mentir, mostrando um passado humilde, de sofrimento, e melhor ainda se tivessem junto disso a prova de tal história, ou seja, uma militância sindical. Quanto mais o poder econômico foi dominando as democracias liberais por meios não tão visíveis, mas escamoteados, mais também os candidatos tiveram de se tornar pobres, fossem ou não pobres.

A campanha atual para a cidade mais importante e maior da América Latina, São Paulo, que sempre se põe como indicador de tendência, mostrou pela primeira vez que talvez possamos sair dessa obrigação de ser pobre. É certo que João Dória se elegeu na conta da derrocada do PT criada pelo próprio PT por meio de “mensalão” e “petrolão”, mas não podemos notar apenas isso. Na verdade, a novidade da eleição de São Paulo e, de certo modo, em toda a América Latina, é que pela primeira vez um candidato rico ganhou as eleições dizendo ser rico. João Dória rejeitou a ideia de que era “candidato dos ricos”, mas de modo algum tentou esconder sua riqueza. Insistiu na ideia de que, sendo rico, não precisaria tirar proveito próprio do governo. Esse discurso nunca foi tentado antes com tal clareza. E isso pouco importa se verdadeiro ou falso. O que importa é que ainda que se possa aqui e ali, como ele fez na sua primeira fala como prefeito, dizer que deve governar para os que menos possuem, ele continua afirmando que é rico, que pode ser rico, que ser rico não é pecado – até que se prove o contrário.

Caso ele governe para todos mesmo, será algo excelente. Caso ele possa fazer isso sendo rico, melhor ainda. João Dória está na mesma situação de Lula quando começou. Este, então, não podia errar. Um erro de Lula, e todo tipo de pobre ou trabalhador ou sindicalista pagaria o que agora vai pagar ou já vem pagando, exatamente pelo fato de que Lula errou mesmo, e muito. Mutatis mutandis João Dória está sob a mesma prova histórica de Lula. Se ele mostrar que um rico pode não ser o candidato dos ricos, e que não precisa ser o candidato dos pobres e, sim, ser o governante de todos (e de ninguém em especial), fará nossa política dar um salto para além da luta classista medíocre. Poderá integrar o país numa luta classista de alcance menos tradicional, menos tola, menos mesquinha e bem menos hipócrita. Mas se João Dória repetir Lula, ajudará ainda mais a continuarmos na lenga lenga do essencialismo humano: o pobre é bom, e pronto. Algo vindo do rousseaunismo mitigado: o homem natural, selvagem, é bom.

A ideia de olharmos para a nossa sociedade como sociedade de classes, com conflitos de classe, é algo recebido do século XIX, pode continuar a existir e tem lá sua verdade. A sociologia classista não é uma tolice. Mas precisa ser enriquecida com a ideia de que, junto com conflitos de classe, há uma série de instituições e entidades, serviços e clubes que só podem existir se houver a convivência integrada de ricos e pobres. Dou um exemplo: escola pública e universidade pública. Se estas se transformarem em lugares só de pobres, irão receber menos atenção de diversos olhares importantes da sociedade (inclusive do parlamento, mesmo que todo o parlamento não tenha maioria de ricos!), e irão decair em arrecadação, cuidado e nível de ensino. Não se tira o rico de um lugar impunemente. Ou a sociedade e os governos aprendem isso, ou sempre estaremos antes destruindo que construindo boas coisas no Brasil. Muitos outros lugares, além da universidade, dependem, para a sobrevivência, de trazer para o seu interior o pobre, mas sem que a classe média alta venha a sair deles. Assim, se pudermos viver numa sociedade onde possamos amenizar a demonização do rico por ser rico e a santificação do pobre por ser pobre, certamente viveremos numa sociedade melhor.

Espero que eu possa ser entendido no que falei até por militantes de esquerda mais duros e pelos conservadores mais tacanhos. Se restar um pingo de pensamento racional na cabeça dessa gente, e eles quiserem ler meu texto de modo não preconceituoso, saberão que estou falando de algo plausível.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 03/10/2016

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14 Responses “Finalmente a democracia admite o rico?”

  1. Matheus Tudor
    08/11/2016 at 14:44

    Acabei de ver a entrevista dele no Roda Viva. Apesar de negar ser um político, ele assim parece ser se a gente toma a palavra política em sua acepção mais grega, professor. Ele quebra com a nossa modernidade em política, e buscar a gestão comunitária eficaz e eficiente.

  2. pablo
    02/11/2016 at 10:09

    Boa reflexão, eu como marxista Leninista vejo com clareza a luta de classes na eleição do Daria em São Paulo.

  3. Wanderley Faria
    06/10/2016 at 20:58

    Muito bom seu texto! Não aguento mais os discurso dos ressentidos !

  4. Gilberto
    05/10/2016 at 14:51

    Votei no Dória pois ele é muito rico, portanto não precisa roubar. Agora São Paulo vai para frente.

  5. Rodolpho
    05/10/2016 at 10:33

    A questão do convívio entre ricos e pobres é marginal ante à desigualdade. Você deveria estar falando de igualdade social, e não se a democracia aceita ou não rico governando pra todos, e não só pra ricos. Escolheu errado o tema. E quando a gente faz a pergunta errada a resposta pouco importa.

    • 05/10/2016 at 10:38

      Rodolpho eu faço o meu artigo, que você não entendeu. Não entendeu por razões óbvias. Mas se o assunto não o agrada, faça seu blog e faça a “pergunta certa” e pronto. Faça hoje. (Putz!)

    • Rodolpho
      05/10/2016 at 10:49

      Você pode fazer as perguntas erradas a vida toda, achando que está fazendo as certas. Pode achar que eu não entendi seu artigo, rsrs. Isso não tem nada a ver com eu fazer um blog. Haha. Se você se mete a publicar suas idéias publicamente, deve estar aberto a aceitar críticas também publicamente. Ou não?

    • 05/10/2016 at 11:00

      Você não fez crítica, apenas pediu outra abordagem. Não entendeu. O artigo é sobre a novidade do discurso “sou rico” na democracia de massas. Leia mais vezes.

  6. Raimundo Marinho
    04/10/2016 at 10:20

    Mestre Ghi, obrigado pelo texto.

    Poderemos ter, finalmente, um “governo generoso” ou um “indivíduo generoso” ?!
    Ou o texto não se refere a isso ?!

  7. Diego
    04/10/2016 at 09:33

    Compartilho da mesma ideia Paulo, temos que unir e não separar por classes seja ou rico ou pobre. No meu facebook bastante gente revoltada com a eleição do Dória, alegando que ele representa os ricos e etc…mas eu vejo isso como um avanço na democracia até o momento, e espero que ele governe para todos também.

    • 04/10/2016 at 10:33

      Diego, eu não falei em união de classes, veja bem que eu mantive a validade da noção de conflito. O que eu digo é que o conflito não significa exclusão.

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