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17/08/2017

FHC e Lula, os dois mentirosos


O que FHC e Lula têm em comum é que ambos usam do mesmo artifício para se defenderem: “o governante não tem como saber de tudo”. A frase por si só não tem validade. Todos nós podemos dizer isso em qualquer lugar e em qualquer época. Dizer isso é o mesmo que dizer “nós mortais não temos onipresença ou onisciência”. “Não somos Deus”. O que é informado numa frase assim? Nada.  Mas Lula e FHC não cansam de dizer isso a respeito de si mesmos, embora não tenham concedido a Collor e Sarney o direito de usarem o mesmo pseudo-argumento.

FHC voltou a usar essa desculpa, de uma maneira que ele já fizera antes, em 2010, falando sobre Maquiavel. Essa reiteração se deu agora, por esses dias, no seu depoimento como testemunha de Paulo Okamoto, diante do Juiz Sérgio Moro por meio de vídeo conferência. A desculpa é esfarrapada, e a continuidade dela é pior ainda. FHC disse que um presidente não tem responsabilidade direta sobre o seus comandados, mas somente responsabilidade indireta. Ora, mas dizer que há responsabilidade indireta, para um cargo como o de presidente, é o mesmo que dizer que há responsabilidade direta. Primeiro, porque quando se acusa um presidente, é porque o assunto é grave e a cadeia causal, o nexo causal de que se está falando, tem sim a ver com o presidente. Ninguém acusa um presidente por ele não saber o que ocorre no almoxarifado da garagem do Palácio, com as caixas de clips que sumiram.  Isso é bem diferente de se falar em financiamento do BNDs para amigos ou dinheiro público da Petrobrás para partidos e empresas etc. Segundo, porque no Brasil o número de cargos de confiança não é pequeno, e o presidente nomeia pessoas próximas a ele que apresentam outras pessoas que são próximas desses que foram nomeados. Um presidente pode ser enganado, claro, mas até determinado nível da cadeia causal de nomeações, ele é responsável pela ação de terceiros. Negligência não diminui responsabilidade, ao contrário, aumenta. E negligência quando a boataria sobre a corrupção direta do governo já se instaurou, não poder ser varrida para o lado.

“Não tenho responsabilidade direta” e “eu não sabia de nada” são alegações que escapam ao que se chama mentira por obra da Razão de Estado, que a filosofia política aponta na história com um fato, e sobre o qual fala quando aborda Maquiavel. As práticas da qual FHC e Lula falam, ficam aquém da questão da mentira em Maquiavel. Não têm absolutamente nada de nobre. Pode-se invocar o direito de mentir quando se está em temas que são da ordem daqueles assuntos que, de antemão, possuem garantias constitucionais para omissões e até segredos. Um governante não pode falar a verdade e colocar em cheque um operação que visa a defesa nacional, nem pode falar a verdade e desregular o sistema econômico ao dar chance para jogatina financeira etc. Mas isso é completamente diferente de dizer que um assessor direto, e às vezes amigo pessoal, pode transitar no governo, fazendo um verdadeiro governo paralelo, sem que ninguém se responsabilize. O presidente é sim responsável.

Os americanos contam sempre com a ideia, na campanha eleitoral, de que o candidato melhor preparado é o que mais capacidade tem de ter informações para agir. No Brasil, apresenta-se a ideia contrária: nossos governantes tentam nos convencer de que podem governar sem informações. Isso quando não aparece um Renato Janine Ribeiro da vida, escrevendo por aí que nós somos corruptos no dia a dia, em pequenas coisas, e então não podemos cobrar do governo que nós mesmos elegemos, maior honestidade. Juntando essas duas ideias erradas, formamos a prática de governo brasileira. Não dá!

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6 Responses “FHC e Lula, os dois mentirosos”

  1. Hilquias Honório
    10/02/2017 at 18:30

    O militante tem a necessidade de ser enganado pelo chefe. Impressionante! Todos no Brasil estão em busca de dias melhores. Mas parece não haver explicações para fugir desse tipo de mentira. 2018 vai ser um show nesse aspecto. Mas também, nesse caso, me parece que o episódio dos e-mails pode ter atrapalhado mais a Hillary do que eu imaginava, nesse caso de os americanos preferirem quem mostra ter mais informações.

  2. 10/02/2017 at 17:12

    Do ponto de vista estritamente filosófico, penso que o Professor quis se referir a famigerada “teoria do domínio do Fato”. Um debate aberto, com defensores e críticos. Eu, pessoalmente, concordo com a tese do professor porque, quando se trata de quantias volumosas ou de impactos sociais e econômicos graves, o presidente obrigatoriamente deve saber o que está ocorrendo. Se não sabia, deveria saber. E esse é o ponto. Os fatos e eventos mais impactantes que dizem respeito ao seu governo, o Presidente tem que saber de tudo.

  3. Wiliam
    10/02/2017 at 12:48

    Visivelmente seu posicionamento deixa claro que o senhor nuca teve um número de pessoas sobre seu comando direto maior que 2 dígitos… Não tente inferir eventos orders de grandeza acima da sua escala restrita e particular de vida. Críticas ocas de um adolescente sem chão de mundo, isso foi seu texto

    • 10/02/2017 at 14:23

      William eu não comando pessoas, eu sou filósofo. Quem comanda pessoas é milico. Agora, administrar algo grande, uma universidade toda, eu já fiz. Se você gosta da mentira, é problema seu. E se quer justificar a corrupção, faça-o em outro lugar, aqui não. Aqui não é lugar de bandido William. E você gosta de bandido.

  4. Ícaro
    10/02/2017 at 08:13

    Lembro-me que quando Janine foi nomeado ministro da educação o sr. elogiou a escolha devido aos atributos do mesmo. A sua aprovação da nomeação de Janine mudou depois dos posicionamentos adotados pelo ex ministro???

    • 10/02/2017 at 11:50

      Ícaro, eu já conhecia Janine de velho. É um traidor. Havia pedido minha cabeça para os donos do Estadão, quando eu trabalhei lá e ele já estava no governo, pela CAPES. Quando se tornou ministro, claro, joguei meu voto de esperança. Mas a decepção veio de novo.

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