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20/11/2017

Fascismo é de esquerda? Esclarecendo de uma vez por todas!


A posição política de direita tem um problema grave: não consegue se desvencilhar da transformação da meritocracia em hierarquia posta por raça, e rapidamente se torna adepta de um xenofobismo radical e, então, do imperialismo guerreiro. Fala-se então da direita que se torna extrema-direita, ou seja, fascismo. É interessante notar essa situação de deslize, pois a operação que nela ocorre nem sempre é percebida. Mas foi essa operação que ocorreu no início do movimento fascista, e que se repete no neofascismo de hoje.

As posições direita e esquerda nasceram, historicamente, das posições espaciais na Assembléia Francesa, na época da Revolução (1789). Os conservadores ficavam à direita e os revolucionários à esquerda no salão do parlamento. Os conservadores defendiam hierarquias postas pelo sangue, consagradas no Antigo Regime, e eram representantes da nobreza e do clero. Os revolucionários defendiam o fim da hierarquia de sangue e pediam uma igualdade, que significava ao menos “igualdade perante a lei” (mais tarde criticada por Marx e outros como sendo ideologia e insuficiente). Esses deputados revolucionários defendiam os burgueses e os trabalhadores. Assim, no que se refere à direita, a questão central a ser defendida era e é a da hierarquia.

Ora, mas quando olhamos o nacional-socialismo ou o nazismo, já nos anos trinta do século XX, não vemos Hitler, em hipótese alguma fazer qualquer defesa de nobres ou de burgueses enobrecidos. Hitler atacava os ricos, e via nestes as figuras dos banqueiros e industriais judeus. Dizia que eles eram imorais na vida privada, e exploradores na vida pública. Hitler falava em uma “nação altiva”, uma “nação para todos os alemães”, um lugar livre dos não-alemães – os judeus. Sim, mas também, logo em seguida, todos os “não puros” eram indesejáveis, ou seja, todos os estrangeiros e os “estranhos”  – gays, prostitutas, negros, aleijados, anões , ciganos etc. Ao fim e ao cabo, a questão nem era mais esta, mas sim a de quem podia ou não ser considerado como integrante do partido nazista, ou seja, quem podia se submeter à disciplina partidária. Assim, de um inicial discurso aparentemente não hierárquico, Hitler já tinha desde o início, nas suas “teorizações”, um conteúdo hierárquico, muito mais perverso que o tradicional, o do Antigo Regime (as monarquias absolutistas dos séculos XVII e XVIII). Nada de mérito por conta de títulos ou dinheiro, mas sim o mérito aparentemente intelectual. Por que “aparentemente”? Por uma razão simples: o mérito intelectual considerado por Hitler vinha não pelo diploma escolar ou pelo sucesso na universidade ou nos “negócios burgueses”. Hitler odiava a escola. Odiava os sucessos nos “negócios burgueses”. Ele próprio era um fracassado. Um pintor medíocre. O mérito que ele enaltecia vinha pela disciplina a serviço do partido nazista, o que significava a disciplina na obediência a ele, Hitler, “o Führer”.

Hitler não era um “ditador”, ou ao menos não se apresentava assim, mas se punha como um primeiro serviçal da Alemanha. Hitler nunca se casou exatamente por isso: não havia vida privada para ele, somente sua dedicação dia e noite no sentido de proteger a Alemanha, salvá-la do “imperialismo inglês e americano”, os “arautos do sionismo”, os exportadores do “vírus de um regime de vagabundos”, “a democracia” – a porta aberta para o “comunismo”. Na verdade, Hitler tinha mais ódio de empresários americanos filantropos do que de Stalin! E comungava cotidianamente com a paranoia de que havia uma conspiração mundial, “uma nova ordem” que queria sufocar a Alemanha. Judeus estavam em todos os lugares, infiltrados para garantir essa “nova ordem”. Apareciam, para ele, dominando o parlamento americano, ou estranhamente também no “comunismo”. A própria palavra “comunismo”, para ele, virou apenas um mantra. Era um sinônimo de sionismo, de força de fantasmagórica dos “judeus”, seres que passaram a ter rabo e chifres.

Com isso, Hitler não conquistou para seu lado “os melhores”, mas, ao contrário, os mais obtusos intelectualmente e os mais ressentidos. Os desescolarizados, os jogados para o lado de fora da sociedade pela modernização e urbanização recente, os mais autoritários e dispostos à vingança por terem fracassado no campo da sociedade liberal. Em poucos anos, Hitler tirou das fileiras de todos os partidos justamente os elementos mais ressentidos, os que queriam pertencer a um grupo que tivesse um chefe forte, que lhes desse um uniforme, um distintivo, uma qualificação e um reconhecimento que não haviam ainda tido numa sociedade modernizada, de livre mercado e altamente competitiva. Aliás, o nome “nacional socialismo” não foi escolhido à toa. A ideia de “socialismo” podia ser usada para falar em “expropriação dos ricos”. Estava na moda após 1917, e era um jargão para atrair aqueles que Marx, um dia, havia chamado de adeptos do “comunismo de inveja”. Mas não se tratava, Hitler sabia bem e assim planejou, de expropriar todos os ricos, e não em benefício dos trabalhadores, e sim como uma forma de atacar judeus e implantar um capitalismo de estado. Hitler estudou os movimentos de esquerda e o leninismo. Viu bem o que eram os invejosos, os tipo Stalin da vida, e conseguiu retirar dos partidos populares os que estavam, por essa via, aderindo a células comunistas formadas antes por desesperados do que por revolucionários.

Em todos os países do mundo onde o fascismo andou, com Franco na Espanha, com Salazar em Portugal, com Mussolini na Itália, com Hiroíto no Japão etc., a ideia sempre foi parecida. Jogar a semente de que se iria expropriar os ricos, mas identificando os ricos com os setores “estrangeiros”, e com a elite artística e intelectual, tomada sempre como coadjuvante dos ricos. Não à toa o fascismo sempre foi, também, uma tentativa de renovação conservadora da cultura. Veio a época do realismo artístico voltado ao puxa-saquismo estatal contra as tendências ditas “não naturais” e contra a “arte degenerada”. Queimas de livros, escolas e teatros foram uma constante por onde o fascismo andou. Mas a construção de novas casas de cultura também se deram. Pois se tratava de substituir os intelectuais de vanguarda e os intelectuais consagrados pela academia e pelo antigo establishment, colocando no lugar as cabeças que iriam implantar a nova ordem hitlerista, ou seja lá como viesse a se chamar essa ordem, de acordo com o nome do ditador fascista de plantão.

Nos anos trinta, no Brasil, a confusão mental de pessoas anti-liberais foi intensa. O anti-liberalismo delas as jogou para o campo cinza do autoritarismo da esquerda e da direita. Também aqui a ideia de que a direita fascista defendia ideias socialistas vingou. Pessoas que, depois, foram vistas como socialistas, como D. Hélder Câmara e D. Paulo Evaristo Arns, tiveram os inícios de carreiras em franco namoro com o integralismo de Plínio Salgado. Anarquistas que migraram para o socialismo, nos anos trinta, depois aderiram ao integralismo ou ao varguismo de direita, que vingou no Estado Novo. A história do movimento operário no Brasil mostra esse tipo de oscilação confusa como algo muito mais amplo do que podemos imaginar. A vida da mental das pessoas não é como a vida das doutrinas postas nos livros didáticos.

Até hoje o fascismo se caracteriza por essa sua faceta anti-intelectual fortíssima, associada à sua doutrina central e nuclear: a xenofobia. Na Europa a xenofobia é o carro chefe, aqui no Brasil é o anti-intelectualismo. Lá o ataque neofascista visa os imigrantes. Aqui o ataque são as universidades, a Rede Globo, os artistas, os intelectuais acadêmicos, os admiradores do Papa Francisco etc. Tudo que pode se mostrar com sucesso no mundo do capitalismo regido pelo invólucro da sociedade democrático-liberal é o que incomoda o neofascismo.  O neofascismo sai do bueiro para gritar seu brado: “medíocres do mundo, uni-vos”. É o movimento de união dos losers, e não raro carrega gente da esquerda, gente que se pensa de esquerda.

Entender esses processos é entender que vários grupos que se acham de esquerda podem fazer valer a mentalidade fascista. Aliás, já vi um livro que quer ensinar pessoas a rebater fascistas, e quando abri o tal livro descobri que todas as falas ali eram fascistas! Grupos que querem uma universidade para pobres podem virar fascistas e quererem uma universidade pobre, uma universidade fácil, e não uma universidade para todos. Negros e homossexuais podem pertencer a grupos que começam por expulsar quem não é “tão negro” e quem não é “homossexual”. Feministas podem se tornar altamente moralistóides e invocar toda uma visão agressiva e não libertária de cultura. Por isso, não raro, em determinados momentos há pessoas que podem migrar de lado. Não à toa, segundo pesquisa recente, muita gente que diz que vota em Lula gostaria que na chapa do “homem mais honesto do Brasil” estivesse o “mito” Bolsonaro. Aliás, um fenômeno que já havia ocorrido no passado, quando muitos diziam que a melhor chapa para a presidência era Lula e Maluf. A ideia de um líder rompante, que faz as coisas “por cima”, como um vingador caído do céu (ou vindo do Inferno), sempre atrai muito os desescolarizados ou de inteligência fraca, insatisfeitos com a vida competitiva.

O fascismo ganhou pessoas importantes, que inicialmente não se pensavam fascistas. Hoje, o neofascismo às vezes pega militantes que se acham anti-fascistas. O pensamento como pensamento é anti-fascista, mas ele exige paciência, exige o remoer, e reflexão em direções várias. O fascismo é louco por palestras onde o o palestrante, debaixo do “eu acho que”, apresenta certezas. O fascismo gosta de rapidez.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

PS: fiz questão de não agir como outros, que dizem que os desescolarizados que falam que o nazismo é de esquerda são tontos. Sim, pode ser!. Isso é verdade para os que não querem aprender. Mas há pessoas que querem aprender e não tiveram oportunidade. Para estas, de boa vontade, expliquei acima, segundo o que estudei e vivi, as aproximações, e daí a confusão que fala, erradamente, que nazismo é de esquerda. Para os que querem refletir, acho que o texto ajuda em alguma coisa.

Desenho acima: Monalisa negra.

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7 Responses “Fascismo é de esquerda? Esclarecendo de uma vez por todas!”

  1. Saibert
    31/10/2017 at 11:32

    A segunda guerra começou em 1939,graças ao acordo entre Hitler e Stalin,sobre a Polônia.Pelo visto,Hitler analisou e aprendeu muito com Lênin,e seus bolcheviques;não há como negar as semelhanças entre o partido nazista e o partido liderado por Lênin (uma ala do partido).Em ambos temos uma visão maniqueísta (e muito simples) do mundo.E é aí que acho que está o problema:a dificuldade de entender a complexidade,de sair de um mundo “simples”,binário,no sentido certo/errado,preto/branco.

  2. Eduardo Rocha
    27/10/2017 at 21:44

    Paulo, quais bons e maus argumentos alguém poderia suscitar no caso da independência da Catalunha? Tirando as questões legais da legitimidade ou constitucionalidade desse movimento, quais questões éticas, morais, filosóficas, sociais, etc, alguém poderia levantar para ser a favor ou contra o separatismo? E por que querem essa separação?

  3. Ricardo Ramos
    27/10/2017 at 12:58

    Sou grato pelo documento, é assim que percebo Seu texto. Agora conseguirei debater com propriedade o tema Fascismo.
    Peço licença para comentar sobre a parte do “Mito”
    Collor foi feito mito, Lula também, e agora, Bolsonaro.
    Temo pelo futuro. Esta redundância pode nos apresentar um atraso pelo qual não nos é permitido experimentar. Estamos sob sério risco.

  4. Orquidéia
    27/10/2017 at 08:01

    KKkkk…

    Eu fiz isso nos anos oitenta. Em eleições próximas umas das outras,eu votava no Lula para presidente e no Maluf para outros cargos. Não sabia onde me situar,nesse tempo.

    Estou postando seus textos no meu perfil agora como cópias,para atrair os que falaram que não gostam de vir no seu blog.
    Hã…não deu para omitir o último detalhe,mas tem mais gente que concorda com o sr.nas idéias principais,do que gente que discorda.

    https://web.facebook.com/orquideia.goncalves/posts/2238450509714943

    • 27/10/2017 at 08:06

      Obrigado pela repostatem

    • LMC
      07/11/2017 at 14:56

      Que nada.Enquanto o Lulla pedia
      a saída de Temer,Maluf votou pela
      permanência do ex-vice de Dilma.
      kkkkk

  5. Tony Bocão
    26/10/2017 at 09:47

    Isso me lembra de um camarada que eu conheci que defendia a privatização das universidades até a morte, para irrita-lo e me divertir dizia eu que este discurso é geralmente de gente que nunca conseguiu passar em uma, o vestibular não é para qualquer um, o cara ficava louco, sinal que era verdade. Agora o filho dele começou a cursar uma e ele estranhamente mudou de ideia. Típico cidadão de Lilliput

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