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21/10/2018

“Eu não faria sexo com Marina Silva”


[Artigo para o público em geral]

“Você faria sexo com Marina Silva?” Eu não, respondi ao perguntador. Mas fiz questão de afirmar, lembrando recentemente de uma lição de uma feminista, logo em seguida: “Mas quem lhe disse que ela faria sexo comigo?”

Respondi de modo politicamente correto. Mas, tenho de confessar, a pergunta dele é importante e séria. Marina não tem sexualidade e, cá entre nós, mesmo tendo boas ideias e rejeitando o dualismo fácil entre esquerda e direita, não raro sua fala se torna chata, sua voz se torna insuportável. Mesmo num mundo assexuado, que é o do eleitor jovem atual, ainda estamos sob o vagalhão da preponderância da imagem sexy (em graus variadíssimos, claro) como imagem de emponderamento. Nesse aspecto, ainda estamos sob a ordem que Ney Latorraca sacou, em 1989, quando disse que Collor ganharia as eleições, pois ele era o “candidato do corpo”. Collor: 1.90m., firme, andar decidido, rosto bem barbeado, cintura fina. Você poderia não gostar, mas a imagem de Collor como candidato à presidência era a imagem que a época pedia. Em parte, até hoje essa imagem impacta, especialmente pela silhueta. Nós ainda vivemos sob essa época, percebida por Nietzsche e cantada por ele, às vezes até absorvida por ele acriticamente. Trata-se da época da imagem do corpo como sujeito, e não do “eu penso” como sujeito.

O agente, o indivíduo, até mesmo a consciência (!) ou, enfim, o sujeito – tudo isso é corpo ou, melhor, imagem do corpo. A corporalização do sujeito é proprietária e inquilina de uma “época das imagens de mundo”, usando aqui um título de Heidegger, em um sentido mais ampliado, que não excluiria o sentido de imagem dado por Debord.

Manuela D’Avila atrai Ciro Gomes, e ele já disse isso: “exuberante”. E não pensem que Bolsonaro, com sua postura de militar, não atrai certos tipos de jovens, pois atrai. Se ele não usasse dentadura e soubesse falar, se não fosse um completo tonto, ele se tornaria realmente um candidato viável. Uma parte não pequena de homossexuais gostam dele, e às vezes gostam ainda mais quando ele se manifesta homofóbico. Ciro e Alckmin não são candidatos do corpo. Marina é o anti-candidato do corpo. Candidatos sem corpos podem ter ideias brilhantes, mas eles possuem uma dificuldade imensa de penetração num mundo em que corpo e imagem se pedem e se confundem. Todos sabem que Lula foi transformado corporalmente para ser aceito. Basta ver as fotos. Aliás, no Brasil, mais do que em muitos outros lugares, a imagem do corpo, para tudo que é do âmbito da mercadoria num mundo onde a mercadoria comanda por conta de seu fetiche, tem um poder fatal. O sucesso que Obama faz entre nós, pelo seu corpo e sorriso, é maior do que ele faz nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, Kennedy inaugurou tudo isso bem cedo.

Não estou dizendo que há uma imagem, um corpo determinado. Estou dizendo que, sem corpo, não há compra. Compramos hoje as coisas pela marca, não pelo produto. É o capitalismo da marca. Ela dá identidade para nós, sujeitos esvaziados da pós modernidade. E a imagem do corpo do candidato funciona como o logotipo da mercadoria, e também nos dá identidade. A identidade de fantasma, de incorpóreo, de freira abstêmia de Marina, nos coloca imóveis. Ter tara por Marina é quase que ter tara pelo estupro. Esse é um sinal claro de sua incorporeidade. Portanto, de sua inaptidão para ser marca e para ser emponderada – mercadoria/marca/emponderamento feminino são irmãos siameses hoje.

Estou para dizer que até a senadora Ana Amélia, que não é jovem, pode despertar tesão maior que Marina, que é o anti-tesão universal. Em um mundo de embate cultural mais profundo, Marina poderia usar isso como trunfo. Mas não estamos nisso, estamos num mundo de embate cultural forte, mas não profundo. Tudo apetece somente se é em debate televisivo em um sentido amplo, jamais visto, pois não há mais pessoas que andam nas ruas sem receber a “realidade” senão por imagens. A tela da TV transportada para o celular se tornou um padrão tão forte que há pessoas que, para ficarem excitadas, precisam olhar na tela de um celular para ver a própria mulher que está ali na sua frente, nua, pronta para o sexo. Só a imagem digital dá ereção. E isso vem atingindo também as mulheres, que uma vez tendo saído da caverna, da casa, aprenderam a ver paisagens, e agora se voltam também para o gosto pela imagem. Há muitas mulheres com amor pela estética masculina que antes só era apreciada por gays homens.

Essa fusão entre época do fetiche da mercadoria, época da imagem e época da imagem do corpo como mercadoria fetichizada, põe as regras para tudo, especialmente para a politica. A caminhada de Marina será a mais difícil de todas. Se vencer, será uma vitória dupla.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Professor da ECA-USP e do CEFA.

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25 Responses ““Eu não faria sexo com Marina Silva””

  1. 15/10/2018 at 15:50

    Ótimo texto professor. Tenho feito um artigo sobre o tema (Para tentar mestrado na USP em Educação). No caso sobre: Corpo, padrão de beleza e Escola. A idéia com o trabalho é tentar mostrar/tirar este conceito mental de que só o belo é o melhor, é o ideal, o capaz – fazendo inclusive, pessoas terem q se adequarem a este corpo. Alguma dica de livro ou texto sobre a temática?

    • 15/10/2018 at 20:17

      Enrico, eu não acho que exista padrão de beleza. Nem mesmo acho que exista ditadura da beleza ou ditadura da mídia etc.

  2. Anderson Silva
    08/08/2018 at 16:21

    kkkk… Sobre a Marcela…. acho que li e entendi o texto! Foi apenas uma tentativa de provocação, já que muitos foram, inicialmente, simpáticos ao político Temer por causa da figura da Marcela.

  3. LMC
    08/08/2018 at 11:12

    A primeira-ministra britânica
    Theresa May tem 61 anos e
    é linda.Sem botox e cirurgia plástica.

  4. Guilherme Hajduk
    08/08/2018 at 08:02

    Eu acho que esse negócio de darmos muito valor à aparência de alguém para julgar seu valor, independe de época… Talvez seja algo muito mais biológico ou fisiológico do que filosófico ou sociológico.

    • 08/08/2018 at 10:36

      Talvez seja apenas uma antropotécnica, como Sloterdijk faz para sua leitura do evolucionismo. Veja isso nosmeus livros sobre ele, sobre a escolha do mais belo etc.

  5. Anderson Silva
    07/08/2018 at 14:41

    Então, muitos fariam sexo com a Marcela Temer, mas……

    • 08/08/2018 at 10:40

      O problema não é a beleza, mas o “corpo”, a figura. Veja novamente o texto.

  6. Matheus
    07/08/2018 at 12:32

    LMC

    Fale verdades pra mim sobre a Marina pq tô precisando, viu! É muito feiqui nius no feisse e etc, sabe?

  7. Anderson Silva
    07/08/2018 at 12:25

    Sim… o corpo é que vem oferecendo identidade para os políticos, e para todos, inclusive identidade moral – obesos, fumantes, esqueléticos, manchados, velhos, enfim, qualquer um que não se encaixe no ideal somático é considerado fraco e mau. E o povo compara a Marina, fisionomicamente, com uma personagem de um programa de televisão “família dinossauro”. Vai ser difícil! Vencer as eleições, certamente, representaria uma vitória do corpo que está a margem, mas, particularmente, os eleitores estão debandando em busca de um corpo aparentemente disciplinado e autoritário.

    • 08/08/2018 at 10:44

      Não sabemos que corpo é, mas saberemos. Nunca sabemos nada antes da manifestação momentânea – várias. No caso do Collor, sabíamos mais.

  8. LMC
    06/08/2018 at 15:58

    Quanto será que o Bolsonazi
    pagou pro Matheus falar mal
    da Marina aqui,hein???

  9. LMC
    06/08/2018 at 11:26

    Que pena que o botão de Responder
    não está mais funcionando pra dizer
    umas verdades pro Matheus bolsonarista
    aí embaixo.

    • 07/08/2018 at 11:17

      LMC procura ele no face e responda. Como você só pensa em política, não sei se vai dar conversa.

  10. THIAGO
    05/08/2018 at 11:36

    Mas e no caso do Aécio que perdeu para Dilma (outra anti-candidato do corpo) nas eleições de 2014? Muitos votaram nele pela mesma opinião que o sr falou sobre o Collor, e mesmo assim não foi o suficiente.

  11. Matheus
    04/08/2018 at 14:20

    Mas a Marina tem cara de Marinárvore tbm kkk

    Outras comparações renderam a velhinha vovó da família dinossauro e o ET

    Enfim pode até ser uma forma de vida, mas ou não é desse planeta ou não é dessa era kkk

  12. Orquídea
    04/08/2018 at 00:15

    Eu, por ex.,acho a cara de padre do Alckmin perfeita para ele e combina com a ideia que eu faço de uma pessoa ajuizada. Ele transmite segurança. Para mim, um candidato viavel.

    • 04/08/2018 at 09:07

      É isso que eu falo. Veja como é. Alckmin é tido como uma planta, ou seja, um corpo que tem uma vida vegetal, e você se apelida de Orquídea. Entendeu? É exatamente isso que escrevi. E nisso não há nenhuma crítica maldosa não.

  13. LMC
    03/08/2018 at 13:39

    Tirando a Marina e o Ciro,os
    outros presidenciáveis são
    de uma nulidade completa.

  14. Luis Henrique
    03/08/2018 at 12:04

    No primeiro turno de 2010, ela foi a canditada mais votada no DF. Inclusive teve o meu voto. Esse ano ela era minha primeira opção, mas aos poucos fui mudando de ideia achando que falta um pouco de “brio” num momento em que quase todo assunto em torno de política/eleições ganha ares esquizofrênicos. Com Eduardo Jorge confirmado de vice, já penso em mudar de novo de opinião. E não acho que ele seja uma pessoa enérgica. Talvez seja um problema apenas de carisma no final das contas. Seu texto veio em boa hora.

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