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27/03/2017

A estupidez é a coisa mais bem distribuída entre os militantes políticos


Antonio Gramsci foi um deputado marxista italiano que sabia achar graça na estupidez da militância política. Nos seus escritos deixou registrado um episódio interessante. Um militante tentava convencer um cidadão comum de quanto o materialismo histórico e dialético estava correto, mas de todo lado, o cidadão punha uma objeção. Cansado, o militante então jogou a última cartada: “olha, o mundo é sim como o materialismo diz, mas eu não sei explicar muito bem as razões, todavia eu lhe garanto que pode vir para o nosso lado, porque lá no partido existe um nosso secretário que sabe as razões necessárias”.

Isso me lembra um episódio aqui em São Paulo, em uma manifestação de rua hilariantemente a favor de ditadura militar, em que um rapaz, com um livro de um guru treslocuado nas mãos, gritava e batia com o catatau na cabeça de outros. Ele dizia: “vocês pensam que somos de direita e então somos burros, não? Nós também sabemos ler, temos livros. Aqui está tudo explicado”. E lá ia ele com o livro, dando pancada ali e aqui! Rimos mais dele do que do próprio astrólogo!

O militante político, tanto faz se na esquerda ou direita, se aproxima muito desse perfil quando se trata de participar da categoria imbecilidade. E raramente ele não participa! Eles, os militantes, andam com livros nas mãos, mas o conteúdo nada serve, pois não leem. Quando leem, é pouco. Ficam presos aos chavões e às partes piores. Não sabem muito bem avaliar o que leem – e nos caso do militante olavete isso era o mais evidente. Ao final, o vale mesmo, para esse tipo de gente, é que os que fizeram os livros ou os que recomendaram os livros, devem saber o que estão fazendo, são os guias, e o melhor é ter fé neles. É interessante que esse mesmo pensamento atinge o professor universitário, quando este adere a partidarismos.

Uma vez uma orientanda minha, professora da Unesp, me confessou: “estou ministrando aulas sobre a LDBN, e sei que o projeto correto é o do Florestan Fernandes, e o errado é o do Darcy Ribeiro, então dou este primeiro e depois uso o outro para fechar o curso”. Na cabeça dessa moça havia um certo e um errado, e ela iria, democraticamente, ensinar os dois – como manda a universidade adepta da ideia jornalística de “mostrar os dois lados” – e assim poderia finalizar com o correto. Ao escutar isso da moça eu senti que já tinha o bastante para ir para casa, mas como era minha orientanda, suporte-ia mais um pouco, e então lhe dei conversa. Perguntei a ela por qual razão o projeto do Florestan era o correto e do Darcy o errado. E sua resposta foi um convite à estupidez: “Florestan é o da esquerda, Darcy está apoiado pelo PFL, é o da direita”. Tentei arrancar mais, mas não saiu mais nada. Para ela, isso já era o suficiente, era tudo. Fé, muito fé ela tinha.

A estupidez política tem sempre essa característica: há alguém que sabe o que está fazendo; há alguém que poderá responder a qualquer dúvida do opositor, portanto, eu mesmo nem preciso me preocupar. Tenho fé nesse alguém, “lá do partido”, e posso continuar acreditando no que acredito, sem ficar preocupado em estar errado. Em outras palavras: não preciso sair da menoridade e pensar pela minha própria razão. O mais engraçado é que é até bom mesmo um indivíduo desse tipo não tentar pensar por si mesmo. Pois quando tenta, realmente a conclusão que chegamos é que ele não tem condições de assim fazer.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 25/01/2017

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3 Responses “A estupidez é a coisa mais bem distribuída entre os militantes políticos”

  1. Hilquias Honório
    25/01/2017 at 15:57

    Bem assim mesmo! Tem gente que repete os jargões apenas, falam de Marx e Engels apenas pelo que leram na Wikipédia. Não tem a mínima noção do que foram realmente. E, com a “liquidez do mundo”, fazem a festa.

  2. Eduardo Rocha
    25/01/2017 at 04:58

    Paulo sobre as obras de Florestan Fernandes o que você acha delas? Outra coisa. Perguntei outro dia para dois amigos meus que estão lecionando em universidades se eles conheciam Peter Sloterdijk? Um disse que já ouviu falar e outro respondeu que não, um deles disse em seguida que era comunista o que me fez pensar o seguinte: perguntei a idade dos dois, um com 29 e outro com 30 anos e logo pensei que algo de estranho havia ali.
    Pessoas relativamente jovens e de “família boa” reproduzindo discursos repetentes e ultrapassados da miséria do homem, sofrimento, exploração, pobreza, dominação etc. (sinto que no Brasil lugares são ocupados por pessoas erradas). E logo lembrei da Ana Julia e Boulos. Será que a nossa juventude já nasce velha? A nossa universidade parece um local de gente mofada, sério mesmo. Ela repete coisas que talvez só pessoas com seus 50 e 60 anos dizem (“no meu tempo…” “a época de ouro”, “lutei pela democracia…” mais uma espécie de saudosismo do que os jargões de esquerda). A juventude parece ser velha e a velhice é nova. Você olha para alguns estudantes e vê eles remoendo a mesma coisa o tempo todo. Parece que as pessoas ainda vivem lá no séc. XVIII na Revolução Industrial onde todo mundo carrega pedra pra sobreviver e que não existe classe média. Parece um resquício de uma modernidade tardia. Elas não conseguem passar para o Séc. XXI e nisso, digo atualizar também seu domínio bibliográfico…
    O que me faz pensar como essas pessoas ficaram assim? Parece que os militantes querem justamente isso, a claque e o grupinho para que eles mesmos se sintam “líderes” coisa de adolescente.

    • 25/01/2017 at 08:28

      Eduardo, Florestan tem uma senhora obra sociológica. Claro, a linguagem é marcadamente marxista num sentido datado. Eu não gosto de lê-lo. Nunca gostei.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo