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23/07/2017

A esquerda que não tivemos


Todos sabemos que ser liberal nos Estados Unidos é não ser conservador. Portanto, ao menos lá, para a sorte deles, ser liberal não é incompatível com ser de esquerda. Obama representa a mais autêntica posição liberal americana, na tradição de um Kennedy. Para o Tea Party, interno ao Partido Republicano, ele é visto com um tipo de comunista disfarçado. Mas, claro, gente que pensa assim está mais próxima da KKK do que de qualquer outra coisa. E no Brasil?

O Brasil tem uma história diferente. Nossa esquerda foi relativamente anarquista na República Velha, mas depois montou no barco de parte do Tenentismo e, então, em termos filosóficos aderiu ao positivismo. Tornou-se anti-liberal, estatista e, por isso mesmo, não ficou longe de se confundir com certas posições de direita nos anos trinta. Depois, em 1945, acabou caindo nos braços de Vargas e nunca mais saiu do campo populista-estatista. Diga-se de passagem, nunca mais se recuperou. A esquerda brasileira jamais aceitou em suas fileiras Monteiro Lobato e Anísio Teixeira (veja aqui).

Monteiro Lobato era americanista e de esquerda. Adorava a ideia de ser um homem de ideias e de ação. Era um empreendedor nato completamente distante da tolice atual da ideologia do empreendedorismo. Era um iniciativista, digamos assim. Por isso foi fazendeiro, explorador de petróleo, ativista, editor, escritor famoso, etc. Tudo ele tentava. Tinha tantos êxitos quanto falências. Lutou pelo petróleo brasileiro e foi preso por Vargas que, depois, roubando sua ideia e bandeira, se tornou o pai da Petrobrás. Por isso, quando a Academia Brasileira de Letras chamou Monteiro Lobato, ele se recusou. Afinal, a Academia também tinha Vargas. Monteiro Lobato se sabia escritor. Não queria se misturar com não-escritores. Escrever decretos ditatoriais não era e nunca foi uma atividade de escritor.

Monteiro Lobato era amigo de Anísio Teixeira, que conheceu em um navio voltando da América. Recomendou Anísio para Fernando de Azevedo, que então ocupava cargo importante no campo educacional. Monteiro Lobato escreveu: Fernando, acolhe o Anísio, “lapidado pela América”, ele é daqueles da irmandade intelectual a qual também pertencemos. De fato, a carreira de Anísio daí em diante foi meteórica. Mas claro, esbarrou um dia em Vargas. Não foi preso por Vargas, mas teve de se afastar de tudo e ir vender banana na sua terra Natal, na Bahia. Vargas e seu estatismo não suportavam o liberalismo radical – que chamava de comunista – de Anísio, o grande empreendedor e filósofo da educação.

Até hoje, nossa esquerda não conseguiu absorver a ideia de que o estado não deve atrapalhar, não deve transformar a população em um bando de pedintes, um país de ingênuos e não participativos. Nossa esquerda funciona como o Rotary Club: pessoas que gastam tempo, energia e dinheiro em um jantar para arrecadar dinheiro para uma obra de caridade que custa menos que tudo aquilo que gastaram em tempo, energia e dinheiro. Caso tivessem arregaçado as mangas, num final de semana teriam feito a obra! Nosso estado, nas mãos de nossos socialistas ou social-democratas, funciona desse modo: arrecada para devolver, e devolve menos; não deixa fazer pois diz que o estado é que deve fazer, e aí o estado faz pior ou nem faz. Em outras palavras: nossa esquerda interrompe a iniciativa das pessoas, mata o voluntarismo, extirpa as boas ideias, combate o empreendedor. Mutatis mutandis é comportamento do Rotary: a nossa esquerda prefere gastar vários meses indo às ruas protestar e pedir coisas, e não pensa em usar parte desse tempo e energia para fazer o que está pedindo. Pois, não raro, dá para fazer o que se pede. É estranho tudo isso. Por isso, até como um escapismo, nosso país, lateralmente, inventa conceitos bobos como “pro-ativo” e ideologias baratas de tipo de auto-adjuda, como o tal do empreendedorismo.

No Brasil, se a população põe a mão na massa para fazer alguma coisa, logo aparece o estado para regrar, cobrar e, ao final, impedir. Libera? Sim, com propina! Junto do estado aparecem os socialistas e social-democratas dizendo: não façam, isso é competência e obrigação do poder público, se vocês fizerem, o poder público irá se desincumbir, e então você terá participado dos que querem o “desmonte do estado”. Nada mais longe de Marx do que esse tipo de esquerda idólatra do estado.

Anísio Teixeira e Monteiro Lobato são sempre esquecidos em nossas escolas. Monteiro Lobato é nosso grande escritor, junto com Machado, mas sua atividade extra não é mencionada. Anísio Teixeira e´nosso grande filósofo da educação, mas sua atividade com tal coisa nunca é mencionada, sempre aparece como um burocrata da educação, exatamente o contrário do que foi. A nossa esquerda odeia heróis que podem fazer as coisas sem consultar o estado. Nesse sentido, fica igualzinha a nossa direita. Pois nossa direita tem no estado o seu maior ajudante e colaborador. Todo mundo sabe disso. É uma direita que fala em livre iniciativa e mercado só da boca para fora. Adora aporte estatal e monopólio.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 14/10/2016

Foto: Rosana Garcia como Narizinho, no Sítio do Pica Pau Amarelo, primeira versão da Globo. Obra de Monteiro Lobato.

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14 Responses “A esquerda que não tivemos”

  1. Ismael Assis
    04/12/2016 at 15:15

    Prof. Paulo, falando em Anísio, você poderia me tirar uma dúvida? Existe alguma em relação entre o conceito de trabalho em Marx (ontocriativo), o construtivismo interacionista em Piaget, e experiência em Dewey? É correto encontrar uma correlação entre estes conceito? Grato, Professsor.

    • 04/12/2016 at 18:34

      Hegel é pai do pragmatismo (pragma) e do marxismo (práxis), entende?

  2. 26/10/2016 at 12:56

    Não me ofendo com isso, professor. Michel Foucault também o foi e convicto e assumido. O senhor bem sabe da história. Mas, para a Filosofia, que importância tem isso? Nem para o senhor, não é mesmo? Não é à toa que repete: “E eu com isso”? Menos mal. Sei que o senhor não é preconceituoso.

    • 26/10/2016 at 13:13

      Ravanelli eu ainda não entendi nada! Desculpe-me qualquer ofensa. Você me disse que é viado, mas o que quer me informar com isso quanto ao que escrevo?

  3. 25/10/2016 at 01:48

    O senhor quer que me indentifique? Pois aí está. Um abraço, porque homem que manda beijos para outro homem, só pode ser “veado”. Pelo menos na sua ótica.

    • 25/10/2016 at 01:57

      Luiz você está me chamando agora à noite para dizer que é veado? Mas e eu com isso?

  4. 24/10/2016 at 16:02

    “E eu com isso”? Como se diz aqui no sul de Minas quando alguém indaga: “E eu com isso”?Resposta: “Chouriço”! Tudo bem, não precisa responder mais, não, professor. Vou pegar minha violinha, pô-la no saco e ir cantar meu bolero em outra freguesia, pois, pelo visto o dono do blog é de “fino trato”… Vou lá para o blog do meu amigo, Bertone Sousa, que é um dos melhores historiadores do país e, além do mais, é de fino tratos( sem as aspas irônicas). Passe bem. Dspenso seu vasto saber.

    • 24/10/2016 at 16:41

      Não tenho a mínima ideia de quem é Bertone ou você que não quis colocar o nome. Mas rezo pela sua alma. Beijos.

  5. 16/10/2016 at 22:31

    Mas, o positivismo antiliberal, em certa medida, não se aproxima do fascismo dos anos 30 do século XX? Comte defendia o intervencionismo estatal na economia, considerava a democracia burguesa um “anátema”, o sufrágio universal uma “doença social” e a soberania do povo, uma “metafísica nebulosa”!

    • 17/10/2016 at 00:19

      Mente inquieta, e daí? Que que eu tenho a ver com isso?

  6. Orquidéia
    16/10/2016 at 14:25

    A partir do ponto em que li sobre a morte misteriosa do educador [no texto do blog], perdi o foco.
    Que chocante!…

  7. Renato
    16/10/2016 at 06:34

    Gostei do texto. Ao ler, lembrei que Lobato também “descobriu” e publicou um jovem escritor à época chamado Lima Barreto. Barreto em seu Triste Fim de Policarpo Quaresma satiriza a sociedade brasileira, e faz muitas críticas aos positivistas. No fim, Policarpo acaba sendo morto. Seu crime foi ter tido uma ideia e, ingenuamente, expressado-a. Achava que poderia dar alguma contribuição ao Brasil, morreu como traidor.

  8. Rafael Costa Sanches
    14/10/2016 at 14:35

    Infelizmente não vou poder te indicar com precisão o local, mas lembro de um caso nos EUA que ficou marcado na minha cabeça.
    Havia em uma cidade um cinema antigo, com valor histórico inestimável. Por conta do avanço natural das grandes redes de cinema em shoppings, este velho cinema ficou obsoleto. Ninguém ia mais lá assistir filme e por conta disso pararam de passar filme lá.
    Uma grande rede de supermercados demonstrou interesse em comprar o prédio pra ser transformado em mais um mercado.
    Alguns artistas do local souberam disso é fizeram uma grande campanha de arrecadação de grana pra cobrir a oferta do supermercado. Conseguiram.
    Compraram o velho cinema, reformaram e o transformaram em um lugar atrativo para os clientes, sem deixar de preservar seu valor histórico.
    Agora imagina uma situação dessas no Brasil. Muito provável que iriam fazer um abraço gigante em torno do prédio do cinema, ou protestos afirmando que a rede de supermercados é fascista e com gritos de Fora Temer iriam ver acomodados o supermercado comprando o cinema.
    Após isso, iriam reclamar que o nosso “governo golpista” não cuida do Patrimônio Histórico.

    • 14/10/2016 at 14:38

      Excelente, mas comigo ocorreu algo mais estranho: eu ia lá num cinema antigo, e ele enchia de gente, parecia o Brasil dos anos 50, inclusive porque quebrava a máquina de passar filme e o dono vinha lá embaixo pra devolver o dinheiro. Stillwater, Oklahoma.

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