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22/09/2017

Escondendo a estrela vermelha


A estrela não pode aparecer. Essa é a ordem da sobrevivência política atual, até entre petistas quase roxos. Querem continuar vivendo da política, mas já não possuem nenhuma bandeira, nenhuma proposta e nem mais a estrela. Aliás, ela se tornou um estorvo, um símbolo da corrupção para uns, traição para outros e incompetência para muitos. Mas, enfim, dá certo esconder a estrela?

Se não é garantido o êxito ao se tirar a estrela, ao menos sabe-se que com ela o insucesso eleitoral é mais provável. E isso não por razões dos problemas de deterioração do PT somente, mas muito mais pelo momento em que vivemos. Qual momento? Nossa forma de comunicação na etapa da modernidade em que vivemos (ou pós-modernidade, diriam alguns) é extremamente peculiar. Vivemos no espaço da comunicação rápida, onde o imagético é mais poderoso que o texto de uma maneira jamais sentida antes, e por isso mesmo estamos num mundo em que os símbolos visuais são elementos perigosos. Podem salvar ou destruir empresas e empreitadas de um modo muito mais rápido que antes. Um tropeço ao escolher um símbolo visual e eis que todo um projeto que daria certo pode ganhar um destino ruim.

Não estou falando de propaganda. Não estou falando de candidaturas construídas pela mídia. Não estou falando do trabalho do marketing político. Estou falando da filosofia como quem pode perceber o “espírito de uma época”, quase em sentido hegeliano. Estou falando que, se olharmos nossa vida pela ótica da filosofia, como quem faz a atividade de crítica cultural, temos de notar que nossa vida está, mais do que em qualquer época, sustentada pela simbologia visual. Há uma série de sinais que comandam o que os psicólogos chamam de predisposição, e se isso é conseguido, todo o resto pode seguir seu caminho. A ideia de que “a primeira impressão é a que fica” ganhou um tom de verdade de um modo especial. Não é qualquer primeira impressão que vale notar, é a primeira impressão do símbolo, da imagem, do fugaz – é essa primeira impressão que abre ou fecha portas para o resto. Aliás, em alguns casos atuais, nem resto há. Fica-se com a primeira impressão visual do símbolo. Ela é o todo, o tudo, o fim e o começo.

Nos anos oitenta a estrela vermelha queria lembrar o socialismo não comunista. O PT a escolheu por isso mesmo. Depois, a partir do final dos anos oitenta e durante os anos noventa, com as vitórias petistas e, claro, com o malogro da gestão do PSDB no plano federal, a estrela petista deixou de remeter ao socialismo, e se tornou uma imagem de esperança, honestidade, projeto de políticas sociais generosas que deveriam vir para substituir o voluntarismo bem vindo de um Betinho. Depois, infelizmente, por conta dos próprios petistas – Lula e Zé Dirceu à frente – passou a simbolizar o banditismo, a volta do autoritarismo, a vitória da teoria da conspiração pela boca da Chauí e outras coisas piores. A estrela ficou indigesta. Fecha portas. É preciso bani-la. Mas, se vivêssemos outros tempos, toda a mancha petista não carregaria a mancha para a estrela como hoje carrega. Pois hoje os fatos e as suas diversas narrativas letradas importam menos que a imagem. O símbolo simboliza mais que ontem. A síntese visual sintetiza mais que ontem. Os pecados só são pecados se visualizados pela mídia visual. A ontologia cede para a percepção. A percepção só é percepção pela imagem midiática. O simbolo é, então, mais simbólico.

Tirar a estrela hoje pode não dar lucro, assim podem pensar alguns, mas ninguém mais vai arriscar ficar com ela para ver se é assim mesmo. Só os tontos.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 25/08/2016

Foto: Palácio do Alvorada, estrela petista, 2004.

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26 Responses “Escondendo a estrela vermelha”

  1. Diego
    02/09/2016 at 20:11

    Estudei na UFRRJ entre 2009 e 2013, sou formado em História (fiz o curso de História no turno vespertino). Vários colegas de classe fizeram alguma aula com você, mas eu só conhecia pelo o que falavam.

    Nessa época eu me sentia um peixe fora d’agua, não concordava com uma vírgula que pregavam lá dentro mas não falava nada, e quando ameaçava dizer algo sobre meu posicionamento político (na verdade nem era posicionamento político, pois só acordei esse meu lado tem uns 2 anos, era mais a minha opinião mesmo), eu era quase escorraçado. Lembro quando critiquei o bolsa família numa aula de História do Brasil IV com a professora Vania, inocente, eu, falando aquelas coisas no meio de vários alunos com blusa de mst e roupas e acessórios vermelhos, alguns quiseram me bater e a professora teve que intervir, mesmo contrariada, me dando razão em alguns aspectos da minha opinião.

    Lembro do inferno que foi meu terceiro período entre agosto e novembro de 2010, pois fiz a aula de Filosofia da Educação com uma professora do IE na época (não lembro o nome, Lucia alguma coisa, talvez), e a “aula” na verdade, era propaganda política da Dilma. Estava estourando os julgamentos do mensalão, eu levando notícias e revistas sobre, e ela sempre dizendo que era mentira da “mídia comprada pelo PSDB”. Ô memórias.

    Fiquei surpreso (positivamente) ao descobrir neste blog que você tem o pensamento contrário à 90% dos professores universitários que conheço, e que estragaram 99% dos alunos de humanas com quem me envolvi. Gostaria de ter tido aulas com o senhor.

    Abç.

    • 02/09/2016 at 22:46

      Diego a esquerda burralda dos departamentos de Humanas e a direita burralda e carcomida de outros lugares são o cancro da universidade. Felizmente, não estou mais nisso. Aposentei. Hoje trabalho numa faculdade de filosofia, católica, onde todos estão interessados no assunto. Livrei-me da burrice. Mas há o CEFA. Informe-se sobre, é um centro de pesquisa aberto e gratuito.

  2. Jean Rodrigues
    26/08/2016 at 15:44

    Todas as estrelas são um recorte de um passado que ja acabou.

    • 26/08/2016 at 19:01

      Verdade Jean, se as estamos vendo no Céu, ela já parou de emitir luz, o que vemos é a luz que chega, ou seja, vemos o passado chegar. Quando você enxergar uma estrela, saiba que é o passado, o passado realmente chegando no presente. Então, ponha a mão no bolso, vão tirar o que você tem. Vão fazer como o pássaro, só que de modo mais perverso.

  3. Jean
    26/08/2016 at 15:43

    Todas as estrelas são um recorte de um passado que ja acabou.

  4. osmar oliveira silva
    26/08/2016 at 15:42

    O que importa o fim da estrela, da facção criminosa pt? o pais vai ser diferente? acredito que não. ficou e entrou mais facções perigosas tanto quanto o pt no poder. só para quem está na “disputa e na torcida imbecilizada” assim como o Paulo pode pensar que algo vai mudar, olha só o time que ele TORCE E não assume: RENAN, JANAÍNA, AÉCIO, TEMER, JUCÁ, SARNEY, GILMAR MENDES, MORO, CUNHA, ETC. SÃO ELES QUE ESTÃO NO PODER, PENSE NUM TIME AMORAL, ANTIÉTICO, os seus doces bárbaros. sai dessa matrix, desse espetáculo Paulo.

    • 26/08/2016 at 19:02

      Osmar sua informação sobre as coisas é mais tosca que seu texto com letras capitais. Não sabe quem é Janaína. Não sabe nada sobre o PT. AGora, se sabe, é burrão ou ladrão.

  5. Letone
    26/08/2016 at 12:53

    O PT está sangrando, mas o PT é a força da estrela vermelha, a estrela do povo que lutou contra a ditadura, lutou pela democracia, lutou contra a fome e erradicou a miséria. Volta Dilma!

    • 26/08/2016 at 13:05

      Letone por favor, acorda!

    • LMC
      26/08/2016 at 15:49

      Letone é o Galvão Bueno do PT,Ghiraldelli.

  6. Gustavo
    26/08/2016 at 11:12

    Há um ditado que diz que “quando o sábio aponta o dedo para as estrelas (nesse caso, para a estrela de-cadente, ou que já caiu mas podemos ainda ver o seu rastro) o tolo olha para a ponta do dedo”.

    Inté.

  7. Giuliano
    26/08/2016 at 08:22

    A filosofia, seja ela qual for, será sempre analítica e ainda que sofra influências do simbólico é só através dele ou contra ele que se impõe. O seu próprio discurso sobre o simbólico é analítico.

    • 26/08/2016 at 09:30

      Giuliano, é uma tentativa, mas a filosofia também é simbólica, ainda que alguns filósofos achem isso um pecado.

  8. Osmar G. `Pereira
    26/08/2016 at 08:09

    Quando o dito fica pelo não-dito – uma vez que maldito -, desdigo?
    Perdemos a revolução simbólica, Professor? Penso que não.

    • 26/08/2016 at 09:31

      Osmar a única coisa que o PT perdeu além da estrela foi tudo. O PT é um lixo. A estrela o representa.

  9. Luciano
    25/08/2016 at 18:38

    PT já era. Mesmo escondendo a estrela o povo vai se lembrar bem do número. Agora os que retomaram o monopólio da corrupção também merecem se dar mal. Os vazamentos não rolam mais, a Lava Jato ta sumida do noticiário… Espero que com a confirmação do afastamento da Dilma, a operação volte com toda a força pra pegar Jucá, Calheiros, Sarney, Cunha, Temer, Serra, Aécio etc. Todos citados e alguns até flagrados querendo usar o impeachment para acabar com a Operação.

    • 26/08/2016 at 01:02

      Luciano, meu texto não é sobre o PT.

    • LMC
      26/08/2016 at 11:00

      Luciano,que mania sua de botar
      todos no mesmo barco.Mas,o
      pessoal do PT é assim,mesmo.
      Ah,aconteceu com a gente,
      então,aconteceu com os
      outros também.Rarará!!!!!

    • Luciano
      26/08/2016 at 12:52

      LMC, o monopólio da corrupção foi reivindicado e retomado pelas raposas velhas da direita. Pelo histórico dos envolvidos não é uma narrativa equivocada, embora tenha muito mais coisa envolvida.

    • 26/08/2016 at 13:05

      Luciano ninguém mais tira a fama do PT de corrupto porque ela foi construída pelo PT.

    • LMC
      26/08/2016 at 15:46

      É,Lulu?O Maluf apoiou o Haddad na frente
      do Lula,sem falar nos comunistas Sarney,
      Renan,Kassab,Crivella e Jucá.kkkkkkkkkk
      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  10. Luciano
    25/08/2016 at 18:28

    Paulo, o Aécio pediu que o governo não só tenha a cara, mas a alma do PSDB. Mas se eu me lembro bem ele e o partido dele perderam as eleições… Que coisa.

    • 26/08/2016 at 01:03

      Luciano não sei o que dizer, não escrevi sobre isso.

    • LMC
      26/08/2016 at 11:37

      Perderam eleições no Nordeste
      e na Amazônia,e venceram no
      restante do Brasil.O PT está pro
      Nordeste,assim como a direita
      americana está pro Sul racista.

  11. Lindomar de Araújo Lira
    25/08/2016 at 15:09

    Eu não vejo essa tempestade, voto em Goiânia e votarei na candidatura petista, jamais enquanto memória estiver votarei em quem votou ou apoia esse impeachment disfarçado de um golpe, onde não se prova nada, mas os senhores deputados e senadores só votam para quem pagar mais.
    Tudo isso não passo de golpe de direita patrocinada pelo os poderosos que nunca aceitaram não mandar na grande senzala. Embora reconheço que o PT errou muito, mas com todos os erros fizeram muito mais do que os governos anteriores e esse governinho usurpador.

    • 26/08/2016 at 01:04

      Lindomar, eu ia avisar você que não havia escrito sobre o PT, mas depois que li sobre o que falou de “golpe”, aí desisti, não vale a pena.

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