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24/03/2017

Erundina e Ivan Valente na prefeitura de São Paulo?


Erundina prefeita, Ivan vice. Não há dúvida que Erundina foi uma prefeita excelente para a cidade de São Paulo. Cuidou da periferia e do centro, da educação e da cultura, destronou os grupelhos internos ao PT que queriam uma prefeitura pensando no partido e não na população. Deixou o cargo de modo limpo. Ivan Valente tem um perfil semelhante. Há décadas é o melhor deputado no plano ecológico, das reivindicações dos professores e de lutas detalhadas necessárias para uma atuação de oposição. Sem Erundina, Paulo Freire não teria sido secretário de Educação. Sem Ivan, Florestan Fernandes não teria tido um continuador na Câmara. Conheço ambos. Tenho orgulho deles.

No momento atual, no entanto, tanto Ivan quanto Erundina estão tentando segurar a Dilma e, talvez pior, perdoar o Lula, e com uma tese errada que está comendo pelas pernas as esquerdas ainda honestas. Trata-se de tola ideia de que Impeachment é golpe. Não é. Impeachment é um processo político de cabo a rabo, e Dilma está sendo julgada politicamente – não tem como não ser. Assim é a democracia e assim está diz nosa constituição. Dilma ultrapassou todos os limites de tolerância dos até mais pacienciosos com ela. As “pedaladas fiscais” ficaram coisa menor perto da avalanche de crimes do PT que, agora, começam a mostrar que de fato são responsáveis por torná-la presidente – influenciaram sim nas eleições. Se Impeachment fosse golpe, teríamos de devolver a faixa para o Collor, afastado por muito menos. Mas Collor nem precisa disso mais, hoje ele é um braço direito de Dilma tanto quanto Maluf.

Erundina e Ivan tinham que sair pela defesa de novas eleições. Mas o ranço de uma amizade entre as esquerdas pesa mais, infelizmente. Contra eles, na campanha pela prefeitura, vai pesar um outro detalhe, que talvez afaste gente como eu, sempre adepto de um campo liberal de tipo americano. É que o PSOL tem o nome de “socialismo e liberdade”, mas a organização do partido repete o esquema do PT e tem critérios leninistas de formação de agremiação que, enfim, são as principais causas pelas quais o PT se tornou corrupto. Partidos de esquerda de linhagem leninista tendem a se fechar, a eliminar prévias, a não abrir janelas para fora de modo a ler coisas diferentes, e buscam sempre repetir os mesmo jargões para tudo. A palavra liberdade não lhes cai bem.

Os problemas mudam, mas um partido de esquerda do tipo PT ou do PT 2.0, que é o PSOL, aparece para balbuciar três palavras: “neoliberalismo”, “capitalismo (malvadão)” e “imperialismo”. Até Lênin, se vivo aqui e agora, mudaria do discurso e faria questão de não ler Lacan por meio de Zizek. Até Lênin!

Assim, não adianta ter Erundina e Ivan, pois eles estão envolvidos numa canoa completamente furada. Eles não têm a mínima ideia do que se passa no mundo atual. Pararam no tempo. Acreditam que ainda existe uma “classe trabalhadora”. Ora, todos nós somos trabalhadores, mas ninguém mais se identifica com isso e, portanto, classe trabalhadora como base de partido de trabalhadores ou socialista é uma grande bobagem. Se ainda houvesse isso, haveriam líderes trabalhadores de direita, como ocorreu no passado recente. Mas hoje os conservadores não se preocupam em criar pelegos. Eles entenderam mais que os liberais e as esquerdas, presos à velha guarda, que as coisas foram por outro caminho. Os temáticas de identificação hoje são completamente outras. Valeria a pena essa gente ir ver Sloerdijk no Brasil, em outubro, ao menos eles, com os salários de deputados que possuem, podem pagar os 2.500 reais para tal, que eu, como professor, não posso.

Partidos de estilo leninista, ainda que distantes, levam sempre às covas de Celsos Daniel por aí. E levam também para algo como petrolão e mensalão e coisas do tipo. Fazem uma corrupção organizada, como quadrilha, e não a corrupção individual dos membros dos partidos conservadores. Aliás, no Brasil, já passou da hora de termos o direito de lançarmos candidatos livres, independentes de partido.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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5 Responses “Erundina e Ivan Valente na prefeitura de São Paulo?”

  1. Bom dia Filósofo Paulo:

    Seus textos são maravilhosos!
    Gosto de abri-los de madrugada, bem tranquila.
    Obrigada, beijos da Luiza

  2. Raimundo Marinho
    04/04/2016 at 15:56

    Mestre Ghi, obrigado pelos textos.

    Seu livro sobre Sloterdijk já está nas livrarias ?

    Nonato Marinho

  3. João Paulo
    04/04/2016 at 13:09

    Tenho acompanhado alguns discursos do Ivan Valente (em quem eu votei, pois penso que no legislativo o PSOL faz bom papel, mesmo tendo essa visão socialista um tanto presa aos velhos bordões, “neoliberalismo”, “imperialismo” etc.), e vi que ele tem feito muitas críticas ao governo da Dilma. Tinha esperanças de que ele, ao menos ele, não fizesse essa confusão impeachment x golpe. A Erundina, então, eu acreditava que ela iria por outro lado, reconhecendo que o impeachment é constitucional.
    Acredito que a esquerda perde credibilidade com essa confusão. É um tremendo exagero chamar de golpe o que está rolando atualmente com a Dilma.

    • 04/04/2016 at 13:26

      João Paulo, nossa vontade que exista um campo liberal e de esquerda inteligente nos derrota. Ele não aparece. E quando olhamos para os conservadores, então, meu Deus! Vemos gente do tipo Pondé, que é um bolsonaro que finge saber ler.

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