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20/11/2017

Entender Janaína Paschoal e Luiz Eduardo Soares é fundamental nos dias de hoje


Luiz Eduardo Soares e Janaína Paschoal são meus amigos. Eu gosto deles. Admiro ambos. Todavia, penso que faço parte de um clube restrito. Em geral, os amigos de Janaína não se conformam com o que diz o Luiz Eduardo e os amigos do Luiz Eduardo não se conformam com o que diz a Janaína. Por quê? Creio que é por uma razão simples: esses amigos do meus dois amigos não gostam de ler tudo nos detalhes, e talvez queiram sempre ouvir o que já ouviram e concordaram. Não se dispõem, de fato, a ouvir as coisas no contexto completo delas.

O espaço entre o liberalismo de Janaína e a social-democracia de Luiz Eduardo é povoado de muitas virtudes que merecem ser melhor pensadas. O Brasil só ganharia se pudesse ler esses dois meus amigos com mais carinho.

O que quero dizer é que no Brasil de hoje ou entendemos a divergência entre Janaína e Luiz Eduardo de maneira séria e serena ou não iremos a lugar algum. Cito uma divergência pontual, importantíssima: a posição de ambos em relação ao Impeachment de Dilma.

Janaína foi a advogada que entrou com o pedido de Impeachment de Dilma. Entrou com o pedido por conta própria e não recebeu nenhum dinheiro por isso. Fez o que fez por patriotismo. Hoje, defende a saída de Temer. Para ela, tirar Dilma era o único modo de quebrar um governo corrupto que vinha infelicitando a nação. De modo algum Janaína queria tirar Dilma para manter Temer! Ela fez o que fez pois estava convicta que era o tiro necessário e possível, e não o tiro fatal. Ela não tinha bala de prata. Atirou com o que tinha. Por sua vez, Luiz Eduardo Soares, talvez até mais que Janaína, também sabia que o governo de Dilma era corrupto. Aliás, por suas posições políticas, foi amaldiçoado pelo PT tanto quanto Janaína. Todavia, foi contra o Impeachment por conta de um entendimento possível de ser considerado: uma vez sem Dilma, o “Day After” seria de Temer, e este talvez viesse a dar sequência a um governo tão corrupto quanto o do PT e, ainda por cima, virado para uma pauta conservadora, de retrocesso social, que de fato temos visto agora.

Janaína mirou na corrupção. Luiz Eduardo mirou na falta de política social. No meu entender, ambos estiveram certos. Dilma tinha que deixar o governo, esse era o modo pelo qual o PT – inimigo público número 1 – iria se desmantelar. Mas Temer não poderia ter conseguido fazer o que vem fazendo, ou seja, desmantelar o que há de saudável no Brasil. Não pode reintroduzir o trabalho escravo, tirar direitos trabalhistas, afundar universidades e, ainda por cima, continuar o roubo antes patrocinado pelo Lula.

Uma pessoa liberal como Janaína, teria mesmo que priorizar a luta contra a corrupção. Uma pessoal mais à esquerda, como Luiz Eduardo, teria mesmo que priorizar a luta por práticas tradicionais da social democracia, favoráveis à justiça social. Seria uma loucura acreditar que o Brasil estaria melhor com Janaína sem o Luiz Eduardo ou vice-versa. O Brasil é bom à medida que essas duas pessoas possam ser quem são. Se é verdade que a equidistância entre a direita e a esquerda tem virtude, esta é representada exatamente por uma síntese desses dois meus amigos. Falo deles, e não de outros, porque eles são pessoas que sei que  são honestas, competentes, sinceras no que acreditam. São pessoas de entrega total, sem interesse pessoal algum, às causas que defendem. Não estão no que estão por dinheiro ou carreira. Nunca estiveram. São professores universitários, um pelo Direito e outro pela Antropologia, um em São Paulo outro no Rio, que me fazem acreditar que este país é um bom país.

Sou daqueles que, com Janaína, defendi o Impeachment como uma maneira de tirar ao menos metade da quadrilha do governo. Sou daqueles que, como Luiz Eduardo, não vou concordar nunca com a ideia de que justiça social é uma questão só de dar empregos e salários. Milhares de ideias e posturas, que circulam no espectro que vai do liberalismo de Janaína e da esquerda própria de Luiz Eduardo, cabem em situações concretas, que devem ser notadas caso a caso. Citei um caso, o do Impeachment, exatamente para que se possa ver que a complexidade de figuras humanas como Janaína e Luiz Eduardo é a complexidade que temos e que nos é saudável. Se não pudermos ser amigos dessas duas pessoas ao mesmo tempo, não vamos construir um Brasil melhor não!

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 23/10/2017

Paulo Ghiraldelli é Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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8 Responses “Entender Janaína Paschoal e Luiz Eduardo Soares é fundamental nos dias de hoje”

  1. Daniel
    26/10/2017 at 02:28

    Nostalgia por Lula e pelo PT agora e vindo do Luiz Eduardo Soares. Melhor ser de direita.

  2. Francisco
    23/10/2017 at 17:42

    Amizade à parte – aquela benevolência recíproca a que Aristóteles se refere e que o Sr. parece cultivar em relação à Professora Janaína Paschoal -, é difícil levá-la a sério acompanhando-a no Twitter, como o tenho feito há algumas semanas. Gosto de seguir algumas figuras pop da direita, como Gentili, Pondé, Rodrigo Constantino, para sentir o clima político da cena conservadora brasileira. Faço o mesmo em relação à esquerda. O Pondé ao menos consegue falar sério e parecer culto de vez em quando, e é louvável essa tentativa. Quanto à Janaína, e pode ter sido falta de oportunidade para vê-la brilhar, parece estar no mesmo nível das “sumidades” semiescolarizadas a que o Sr. se refere vez ou outra, pessoas incapazes de experimentar a fusão de horizontes de Gadamer. São apenas engolfados, passivamente, pelo horizonte posto, são decoradores de conceitos – e muitas vezes maus decoradores, por sinal. São os que na vida pública se apresentam como não mais do que expressão pura do falatório de Heidegger. Nesse sentido, talvez, concordemos: precisamos entender Janaína, em sua tipificação ideal do ser impróprio, para que a angústia nos conduza a um compreender a si próprio.

    • 23/10/2017 at 21:06

      Francisco, meus artigos nem sempre tratam daquilo que o leitor quer ele próprio escrever.

  3. Hilquias Honório
    23/10/2017 at 14:18

    Não é fácil mesmo no Brasil. Talvez pela desescolarização da sociedade, mais a roubalheira do PT, aliadas ao egoísmo da direita estilo Dória, os ânimos se polarizem de forma burra. Mas tenho a impressão de que ainda seremos surpreendidos, talvez positivamente, em 2018, mesmo sem bons candidatos.
    O problema é justamente esse do texto, a nossa elite intelectual não supera essa mentalidade de favela ideológica. No passado, eu não pensava tanto assim, porém hoje fico feliz de termos Janaína e Luiz Eduardo. Inteligente texto. Compartilhando já!

    • Ricardo
      24/10/2017 at 11:24

      Meu caro Hilquias, se você frenquentar algum fórum em ENG ou até mesmo um site internacionalmente popular, como o 9gag, você vai perceber que está sendo assim. No mundo. Inteiro.

    • LMC
      24/10/2017 at 13:50

      Hilquias,a Janaína tá mais carola
      e reaça que o Nelson Rodrigues.
      Essa conversa de roubalheira do
      PT é muito Jânio pro meu gosto.

    • 24/10/2017 at 14:14

      LMC é o homem da frase sem texto.

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