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22/09/2017

Domenico de Masi chama brasileiros de “infantis” em entrevista altamente ideológica


Domenico de Masi diz na Folha de São Paulo:

“O Brasil é um pouco infantil. Porque no fim de 2014 Lula era um grande personagem e Dilma também. Passado 2014, Lula é um delinquente e Dilma também. Essa transição foi rápida, uma transição infantil. Não foi madura. Por quê [isso ocorreu]? Não sei. Olhando da Europa, lembro que durante o período de Lula o Brasil era feliz. Ele era um mito, as pessoas choravam diante dele. Dilma era um mito também no primeiro mandato. Porém em dois meses Dilma passa a ser odiada. Quem olha de fora não entende. Só um povo infantil faria uma coisa dessa.” (27//1/2016).

Será que Domenico não sabe mesmo a razões da mudança? Ou finge não saber? Será que ele nunca viu em nenhum outro país algum tipo de decepção política, causada por informações que não vieram de agora, mas de um acúmulo de mais de dez anos?

Bem, mas se Domenico quer aprender sobre o que ocorreu, é fácil ensinar.

Uma geração inteira se informou sobre os desmandos do PT quando do “mensalão” e, no entanto, resolveu perdoar o PT. Essa foi uma decisão madura, nada infantil. Menos infantil ainda foi a decisão de eleger Dilma, embora já sabendo que o PT estava de novo sob suspeição. Mas, quando a população, na sua maioria, viu que junto da política desastrosa de Dilma, havia na base a má administração anterior de Lula, a gastança não com os pobres, como ele dizia, mas com os ricos corruptos, todos ficaram mais que decepcionados. Ficaram vingativos. Quando então Lula, mostrado como corrupto (passivo, tudo bem, mas corrupto), passou a desafiar a justiça, posando como aquele que queria fazer exatamente o que os ricos e poderosos fazem, aí sim ele deixou mesmo de representar “os de baixo”. Os mais pobres sentiram isso. Também veio aí a decepção da classe média escolarizada e tendente à esquerda. Ressurgiu o ódio da classe média mais conservadora. Veio à tonai a raiva dos empresários que ficaram de fora do clube da corrupção. O choque não foi menor entre trabalhadores organizados e grupos de identidade ou minorias, que não atacaram Lula de início, mas começaram a se ver desarmados diante das denúncias, nunca desmentidas consistentemente. Só ficou com Lula um grupo do professorado universitário de esquerda, movidos só por ideologia, sem qualquer prazer em cultivar ética ou moral.

Avaliar que um povo assim é infantil, que usa, como ele disse, mais o estômago que a cabeça, não é uma atitude de quem usa o que tem dentro da cabeça. Parece mais a atitude de uma pessoa que usa apenas sua flora intestinal.

Mas, cá entre nós, não será que Domenico de Masi fala isso por ser não um pensador e, sim, alguém mais próximo justamente do grupo social – único – que ficou como Lula, no Brasil? Não será Domenico de Masi exatamente o tipo que lembra o nosso professor de ciências sociais esquerdete (ou coisa parecida) em nossas universidades? Não será sua vinculação antes com a ideologia que com a filosofia o que o leva a dizer, ainda nessa entrevista, aquilo que entre nós só os mais tolos dizem?  Para ele, os movimentos de rua contra Lula e Dilma “foram consequência do trabalho da mídia [os protestos contra Dilma]. Era organizadíssimo! Esse foi o grande triunfo midiático do mundo!” Bem, então o “Diretas Já” e “Fora Collor” também? Há quem tenha dito isso, naquelas épocas, que sim, que tudo só vingou quando a Rede Globo começou a ficar favor! Mas quem disse isso estava só meio certo. Será que se Lula não tivesse aprontado o que aprontou, haveria força da mídia do modo que De Masi diz que houve Por que Lula e os diversos tesoureiros do PT, que foram presos, nunca conseguiram desmentir as acusações? O Brasil inteiro está enganado, menos Domenico de Masi e alguns professores de esquerda que acreditam que até Trump se elegeu por causa da mídia! Essa gente leu de maneira tosca a conversa sobre “indústria cultural” da Escola de Frankfurt. Realmente, leu errado, leu de modo ideológico. Não sabe ver como funciona a mídia. É gente que repete os meninos de facebook mais bobinhos, que aprendem por aí que a “mídia manipula”, e então se tornam doutores de um dia para o outro em sociologia. Afinal, há outra coisa para se aprender em ciências sociais hoje, na universidade brasileira? Não é a Fernanda Minazi um personagem que realmente existe, e em boa quantidade?

Mas a entrevista termina de modo que tudo se esclarece. Pois, ao contrário de professores ditos de esquerda na universidade brasileira, Domenico de Masi escorrega bem mais e diz realmente o que pensa. Dar entrevistas em outra língua ajuda a nós todos, os filósofos que se obrigam a desideologizar falas. Vejamos: “Desmitificar Lula é um crime. Mesmo que ele fosse um criminoso. Mandar policiais levarem Lula para depor [a condução coercitiva dele, em março] é tolher um mito. É um crime.” Sim, está mesmo escrito isso: “mesmo que ele fosse criminoso”. Ele, De Masi, realmente falou isso. Eis então que tudo aquilo que uma esquerda moralmente consciente já denunciou dentro da própria esquerda vem à tona: para certos tipos, ainda leninistas, a “lei burguesa” (a lei vigente) não é lei, só a lei revolucionária é lei. Assim, a definição de crime vale a partir de uma legislação não vigente, só existente segundo a Razão Política de Esquerda. É crime prender Lula – eis aí a grande declaração! Crime perante a legislação revolucionária, a verdadeira legislação, que diz, entre outras coisas, o seguinte: se alguém mata, rouba, mente e engana, mas representa a esquerda e é um mito dos trabalhadores (ou foi), tudo a uma tal pessoa sempre será permitido. O cinismo aí é tão chocante que é preciso ler mais vezes a entrevista para nos certificarmos que ele realmente falou o que falou. Mas falou! Nunca desde 1917 alguém havia sido tão sincero.

A filosofia nasceu como luta contra os mitos, que ela própria identificou como sendo a verdade dada pela autoridade do rapsodo, não a verdade pela razão. É por um rastro iluminista, filosófico, que funciona ainda a informação. Mas a política de De Masi é anti-filosófica. Ela é puramente ideológica, daí ele dizer: não se pode desmistificar. É preciso continuar mistificando. O mito precisa continuar ali, mitificando. Ninguém deve usar da própria razão. Usar da própria razão é sair da menoridade, é não ser infantil, escreveu Kant. Fazer isso, para De Masi, é que é ser infantil. Essa torção anti-iluminista na fala de De Masi é o mecanismo ideológico que ele usa para justificar o injustificável.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 27/11/2016

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9 Responses “Domenico de Masi chama brasileiros de “infantis” em entrevista altamente ideológica”

  1. 02/12/2016 at 20:56

    Alguém leva a sério Domenico de Masi? Só nas Federais e nas PUCs…

  2. Ecce Homo
    29/11/2016 at 19:44

    Quando, durante o movimento estudantil de maio de 1968, em Paris, sugeriram prender Sartre, o presidente Charles de Gaulle teria respondido: “Não se pode prender Voltaire”. Talvez para Domênico o Lula seja uma espécie de Voltaire da politica.

  3. Thiago
    28/11/2016 at 22:16

    O engraçado que a conclusão dele é justamente no que a esquerda acredita mas que só ele teve coragem de confessar: a esquerda realmente acredita que só devem obediência à lei revolucionária que eles acreditam, e que por este pensamento é que há retardados que fazem vaquinha para pagar fiança do José Dirceu ou a possibilidade de um Ciro Gomes dizer que se lula correr o risco de ser preso que vão sequestrá-lo numa embaixada estrangeira. Realmente parecem viver uma realidade paralela.

  4. denis
    28/11/2016 at 14:35

    UÉ Mas é mesmo!!! Rs

  5. Gustavo
    28/11/2016 at 13:28

    Por falar em corrupção, a máscara dos seus bandidos prediletos está caindo aos poucos Ghiraldelli. Enquanto você não tira o PT da cabeça seu presidente ficha-suja inelegível está nas cordas.

    • 28/11/2016 at 13:43

      PT? Eu? Temer? Eu? Gustavo você nunca leu nada que eu escrevi, nadinha. Cara, não tenho partido político e, como cidadão, avalio caso a caso segundo o que toca meu bolso e meus valores. Filósofo com filiação partidária é ruim meu caro. Olha, instrua-se.

  6. Orquidéia
    28/11/2016 at 08:10

    O problema dele foi o “ócio criativo”. [rs…

  7. Thiago Ricardo
    27/11/2016 at 23:59

    Por ele, a máfia-PT se eternizaria.

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