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16/08/2018

De onde surgem os Brucutus? A direita pede o direito de perder direitos.


[Artigo indicado para o público geral]

Lembra do Brucutu? Um ano depois do Golpe de 64, Roberto Carlos apareceu com música “Olha o Brucutu”. Referia-se claramente ao personagem dos quadrinhos, o Alley Oop de V. T. Hamlin, publicado no Brasil como “Brucutu”, que era um homem das cavernas. Logo a população identificou os blindados do Exército, que faziam a repressão de rua, como “Brucutus”, e também se chamava “brucutu” aquele aparelhinho do Fusca que distribui água para o parabrisa. Um dia Roberto e Erasmo apareceram com anéis feitos daquele aparelho, e então todo dono de fusca amanheceu com o capô do carro com um buraco. A tal juventude da época, da noite para o dia, começou a andar com aquele troço no dedo. Enquanto isso, os próprios militares, que continuavam nas ruas aprontando atrocidades e servindo de galhofa, passaram também eles mesmos a serem chamados de “Brucutus”. Pessoa feia, desajeitada, sem modos: eram os “Brucutus”.

De onde surgem hoje os Brucutus? Ou seja, de que buraco emergem essa gente de baixa inteligência e capaz de mastigar com a boca aberta que pede por aí “Intervenção Millitar”? Vamos ver se alguém no Jornal Folha de S. Paulo (01/06/2018) diz alguma coisa sobre isso?

O jornalista Marcelo Coelho, na Folha de S. Paulo, diz que nenhuma força organiza essa gente abrutalhada que pede “Intervenção Militar”, que se trata de manifestação espontânea. Ele quer realmente saber de onde vem isso. No contexto da greve dos caminhoneiros apareceu muito Brutucu. Já o eterno menino estudante, o Safatle, quer que a população apoie esses Brucutus, façam uma greve geral, e que algum Lênin (ele próprio, Safatle?), venha dirigir a parte “popular” desse levante para que o “golpe” e o domínio dos militares, que ele vê ocorrendo hoje, seja invertido em favor do que seria uma via não institucional para uma democracia redentora, de esquerda. Acho que ele está pensando na tomada do Palácio de Inverno ou algo parecido. Algo mais ou menos com o mesmo status psicológico que a frase da Marilena Chauí dizendo que o Moro é da Cia.

Safatle acha que o povo, chefiado pelo fantasma do Lênin (ou o Boulos?!), vai parar os Brucutus. Coelho acha que é preciso dar um basta aos Brucutus. Nenhum deles consegue dizer, inclusive porque não sabem de onde surgem os Brucutus, é como é que se vai pará-los realmente.

Na verdade, muitos de nós não perceberam que os Brucutus nunca desapareceram, apenas ficaram hibernados por uma imprensa feita de cima para baixo. Com a Internet, que é um meio mais democrático do que a imprensa tradicional, começamos a perceber a existência dos Brucutus e sua alimentação mútua. Um eleitor do Bolsonaro falando barbaridade sem mais ter vergonha, um caminhoneiro disposto a seguir o patrão no lockout sem se achar pelego e, enfim, uma senhora Dona Regina caçando pedofilia no programa de Fátima Bernardes, sem medo de ser ridicularizada. Os Brucutus de hoje são iguais aos do passado nesse aspecto. Basta eles se sentirem capazes de atingir um meio que os deixa falar desavisadamente, e eles realmente se pronunciam, e se o meio os propaga, eles logo começam a achar que a opinião deles é algo normal do ser humano.

Mas onde estavam esses Brucutus de verde e amarelo? Eles estavam soterrados pela força moral da esquerda, em especial aquela vinda do PT. Essa força moral não se punha como força, perante os brasileiros, por conta do socialismo ou do prato de comida, mas por conta da sua fama de incorruptível. Durante muitos anos o que fez os Brucutus não terem coragem de falar o que pensavam é que Lula tinha a fama de honesto. Havia uma aura moral na esquerda, e isso intimidava Brucutus. Quando a esquerda traiu a si mesma e chutou a cara dos brasileiros, os Brucutus puderam rugir de novo. Podem sair por aí, na infantilidade atroz e louca, e gritar pela liberdade de perder a liberdade.

Ninguém vai parar essa gente. E a greve dos caminhoneiros mostrou que a direita tem poder de parar o país e quebrar o país sem precisar se organizar e sem precisar estar no governo. O Brucutu é um Brucutu. Ele é estúpido. Ele é capaz de destruir a própria família, a própria sociedade, apenas por conta de ser estabanado, ou seja, de ser Brucutu.  Há Brucutus individuais no Brasil. É coisa de 20% da população, na ação, mas que pode carregar mais gente, por conta de que aquilo que o Brucutu fala é música nos ouvidos de uma população de baixa compreensão da dinâmica social, como é o caso da nossa população atual. Uma boa parte da população brasileira apena balbucia, nem falar sabe. Há um contingente enorme de pessoas que não tem qualquer noção de civilidade ou do que é preservar pilares mínimos da vida social. É uma força selvagem que não tem qualquer escrúpulo em se auto-destruir e levar consigo tudo o mais.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 01/06/2018

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3 Responses “De onde surgem os Brucutus? A direita pede o direito de perder direitos.”

  1. LMC
    02/06/2018 at 11:50

    O Moro não é da CIA,como
    Dona Marilena e seu Ciro
    pensam.É do PSDB.Já
    apareceu ao lado de João
    Ração Doria e Aécio Don Juan.

    • 02/06/2018 at 13:00

      LMC eu acho que você é que pensa que o Ciro é da CIA.

  2. Ivan Lázaro
    01/06/2018 at 23:23

    Talvez por isso nem os militares nem a polícia tenham caído de porrada neles, seria o confronto de brucutus do século: militares vs caminhoneiros.

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