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11/11/2019

Cuba e Brasil: “capitalismo, ó nóis aqui”


O “socialismo real” acabou faz tempo. Há penduricalhos aqui e acolá, mas que não podem nem de longe serem tomados como socialismo. Cuba é talvez o único lugar em que a luz do socialismo, que um dia brilhou como caminho da redenção, não tenha se apagado no trágico. Mas isso não quer dizer que Cuba seja socialista ou vá ser no futuro próximo o que é nesse momento. A transição de Cuba para o capitalismo está andando. Agora, está mesmo!

Os irmãos Castro tiveram sorte. A dinastia deles, diferente das de outros lugares em que se fez a tal “revolução para a criação do homem novo”, se perpetuou devido a um nacionalismo ferrenho e graças à estupidez da política externa americana, comprometida até hoje com cubanos de Miami. Então, os irmãos puderam segurar a transição cubana para o capitalismo de modo que ela não fosse feita como em outros lugares.

Eis o que os irmãos Castro mais temiam, quando começaram a pensar na inexorável transição para o capitalismo: primeiro, uma transição que os jogasse fora do poder; segundo, uma transição que fosse abrupta a ponto de destruir da noite para o dia as chamadas “conquistas sociais da revolução”. Afinal, todos nós sabemos, e eles também, a liberdade individual que vem junto com a liberdade de mercado tem um preço, que é a diminuição da igualdade e o aparecimento de uma sociedade em que o crime se diversifica. Nunca é demais lembrar: Miami ainda é o lugar de parte da família de Castro que não aderiu à revolução. Miami é pertinho.

Talvez Cuba, na ideia dos irmãos Castro, queira fazer aquilo que Gorbatchev imaginou que ele faria na ex-URSS. Ele era visivelmente um social democrata. Pensou trazer ao menos a Rússia, uma vez que sabia que haveria o desmembramento territorial, para uma situação de mercado capitalista com influência significativa do estado, mas por uma via inédita: não a passagem do capitalismo liberal tradicional para o liberalismo social americano ou para a social democracia de estilo europeu, mas a passagem de uma ditadura que se dizia comunista para uma situação capitalista afeita às regras da social democracia. Não deu certo. Setenta anos de comunismo o impediram à medida que haviam deixado a população com uma terrível ojeriza de qualquer controle estatal. A população queria experimentar o capitalismo em todas as suas melhores e piores facetas. A liberdade, fosse qual fosse, era mais importante. Os irmãos Castro, tudo indica, estão crentes que vão fazer o que Gorba não conseguiu. Eles não estão de todo errados não. Eles têm chance.

Mas a chance deles passa pelo Brasil. Não pela Venezuela. Essa via venezuelana, tentada por Fidel, não é a tentada por Raul. O irmão mais novo sabe muito bem que as economias da Venezuela e da Bolívia são uma grande piada. E contou com a sorte que matou Chávez, um chato de galocha que queria imitar Castro de Sierra Maestra. Castro o aturava como quem atura todo puxa saco. Raul está livre para falar o que Fidel tinha lá medo de dizer: só o Brasil é um bom parceiro.

O Brasil é um bom parceiro por três razões: primeiro, porque tem uma economia que já passou por todo tipo de crise capitalista e sobreviveu, segundo porque o Brasil é governado por um grupo político que tem simpatias (de todo tipo) por Cuba, terceiro porque as empresas brasileiras precisam gerar empregos aqui e Cuba tem serviço a ser feito lá que, uma vez financiados pelo BNDES, podem munir Cuba de uma boa infraestrutura para entrar no capitalismo (gerando para o empresariado brasileiro um lucro extraordinário).

A essa altura do campeonato os empresários brasileiros já aprenderam a lidar muito bem com o PT e não querem nunca mais ver o PSDB na frente (eles deixam apenas suas esposas assinarem a Veja e lerem jornalistas da direita extremada! “Mulher é mulher”, dizem). Estão adorando o BNDES como parceiro. Podemos achar um absurdo que o BNDES financie infraestrutura em Cuba, mas é mais fácil lá que aqui. Lá, um porto só, grande, é como que fazer o país maior por inteiro. Aqui, estamos precisando de muito mais que um porto! (notícia sobre o Porto de Mariel) O governo Dilma quer engordar empresários. Quer apoio político. Quer ao mesmo tempo contar com Cuba na parceria futura para ampliar negócios. O Mercosul não deu tão certo – ao menos não como se pensava. Mas o acordo com Cuba tem cheiro de Usina de Itaipu, e vai dar certo mesmo que dê muito errado (aliás, como Itaipu). Afinal, o Brasil não é um país que se desenvolve pelo caminho reto. Nunca foi. Somos a terra de Mr. Magoo. O próprio Lula sempre foi um tipo de Mr. Magoo.

O Brasil poderia fazer tudo isso, e até a Copa, sem deixar de fazer hospitais, escolas, ampliação do salário do professor, melhoria da nossa própria infra-estrutura? Há quem diga que sim. Mas isso dependeria de uma outra visão de política, coisa que implicaria na existência de pessoas que não são as que estão no PT e muito menos no PSDB. Quem? Pessoas de Plutão, claro. No Brasil não há. Alguém capaz de integrar os projetos petistas com os projetos que coloquei neste parágrafo é impossível achar. Pode até existir isoladamente, fora da política. Mas, com peso político, só em Plutão mesmo.

Ah, e você também quer o fim da corrupção? Bem, aí meu amigo, nem com plutonianos. Nesse Sistema Solar não há! Afinal, temos que entender: o Brasil está longe (sim, pasmem!) de ser um país muito corrupto. Está na média.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

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4 Responses “Cuba e Brasil: “capitalismo, ó nóis aqui””

  1. 29/01/2014 at 22:09

    Eu estou querendo ler algumas dessas pessoas de Plutão, tem alguma para recomendar?

    • 29/01/2014 at 22:51

      Olha, tem de ficar atento, plutonianos aparecem aqui e ali.

  2. Silvana
    28/01/2014 at 23:05

    Mulher é mulher? Senti algum machismo nessa expressão.

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