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29/05/2017

Conservadorismo brasileiro – do que estamos falando, afinal?


Creio que no Brasil atual já é possível utilizar a terminologia americana para a política. Antes que esquerda e direita, talvez seja bom falar em liberais e conservadores. Bem, se isso é válido, a pesquisa que o colunista José Roberto de Toledo apresenta no Estadão (“Conservador na medida” 22/12/2016) mostra que, em números, o brasileiro está mais conservador.

Eis os tópicos que dividem águas, escolhidos pela pesquisa. 1) legalização do aborto, 2) casamento entre pessoas do mesmo sexo, 3) pena de morte, 4) prisão perpétua, 5) redução da maioridade penal. E Toledo completa: “O conservador dos conservadores respondeu ser contra os itens 1 e 2, e a favor dos demais – na escala do Ibope, ele marcará 1 de conservadorismo. Já o liberal dos liberais é a favor dos dois primeiros itens, e contra o resto: seu índice é zero.” O resultado é que 54% da população brasileira alcançou um índice de 0.7 na pesquisa, indicando assim um alto grau de conservadorismo. Na média, o brasileiro ficou com 0.686. Pode-se lembrar ainda que a pesquisa foi aplicada pela primeira vez em 2010, e que o crescimento do conservadorismo, na média da população, cresceu bem. Em 2010 ele era de 0.657 na média.

Um lembrete, antes de continuarmos: a pesquisa lida com “liberais e conservadores”, mas sem entrar por uma questão normalmente agregada, que se trata da participação do estado na economia e a respeito de políticas sociais e étnicas e sobre impostos e retorno social. Penso que se isso fosse acrescentado, aí sim teríamos algo propriamente político, no sentido mais correto da palava. Mas, mesmo sem isso, vale a pena comentar.

Há duas coisinhas aí na pesquisa que clamam por distinção. A primeira diz respeito ao caráter moral, que não deve ser imediatamente ligado à pesquisa. Não se deve, impensadamente, acreditar que as pessoas ficaram mais conservadoras e, então, pioraram de caráter,  no seguinte sentido: haveria atualmente uma maior tendência à crueldade. Alto lá. Posso defender a não legalização do aborto acreditando, com sinceridade, que o elemento indefeso é antes o feto que a mãe, e nesse sentido pensar que estou sendo menos cruel ao proibir o aborto, uma vez que estou optando por salvar o mais fraco – um princípio cristão e, enfim, em geral invocado por liberais. Posso acreditar que ao reduzir a maioridade penal eu esteja protegendo os mais fracos, pois imagino o criminoso como alguém que é um brutamontes de 17 anos, solto por aí drogado e com um arma. Posso ser a favor da prisão perpétua ou a pena de morte, pois quando falo isso penso em crimes bárbaros, em que imagino que seus perpetradores jamais seriam recuperáveis, e assim agindo estaria tentando colocar as famílias dentro de uma maior redoma protetora. Exceto o casamento entre pessoas de mesmo sexo, em todos os outros casos, o voto conservador, aqui, tem justificativas que não necessariamente indicam que quem o defende é cruel. Os liberais poderiam dizer que são desinformados, mas não devem dizer que são de fato cruéis.

Outro detalhe que temos que lembrar é que, em épocas ditas menos conservadoras, já tivemos presidentes mais conservadores. O primeiro presidente pós-regime militar, Tancredo Neves, não era a favor de casamento de pessoas de mesmo sexo ou a favor da legalização do aborto ou contra a prisão perpétua. Não sei o que pensava sobre a maioridade penal e creio que a pena de morte não lhe agradaria. Aliás, em termos econômicos, Tancredo era mais conservador que qualquer um dos presidentes que tivemos depois dele. Que não se esqueça que seu ministro da Fazenda foi Francisco Dornelles (parente de Vargas e Tancredo Neves, e hoje governador do Rio), alguém capaz de uma política bem distante de qualquer termo social-democrata.

Por fim, mais um detalhe importante: com o tipo de defesa que a nossa esquerda faz da plataforma dita aqui liberal, não é difícil, por rejeição a argumentos pouco inteligentes, ver um boa parte das pessoas até tendendo ao voto conservador.

Terminando: a pior coisa que se pode fazer quanto a todos esses itens é o que, em parte, ainda fiz aqui, ou seja, dar vazão a conversas plebiscitárias. Isso não é inteligente. O que o filósofo precisa fazer é empurrar os itens citados para o âmbito de uma conversa maior, com mais informações. O plebiscitarismo é sempre autoritário e burro. Quando posto, convoca a burrice por si mesmo, pela sua estrutura própria. Para irmos além do plebiscitário, o que precisamos fazer é voltar aos itens apontados para notar quais as justificativas são dadas aos votos, e de que modo tais justificativas estão entrelaçadas na narrativa conservadora. Aqui, toda força de isenção moral é a força da validade da investigação, o que não é fácil de se obter.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo: 22/12/2016

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3 Responses “Conservadorismo brasileiro – do que estamos falando, afinal?”

  1. Orivaldo
    23/12/2016 at 12:57

    Assim como, geralmente, é a esquerda, que leva a direita ao poder ( e vice versa) podemos dizer, que, é quando o liberalismo se faz mais presente, que o conservadorismo sai de seu armário e tenta reconquistar o que sente estar perdendo. Paradoxalmente o conservadorismo cresce com o crescimento do liberalismo, principalmente quando esse liberalismo não vem acompanhado de uma escolarização que lhe de suporte.

    • 23/12/2016 at 13:13

      Se as coisas fossem fáceis assim, como pêndulo, o mundo não estaria com problemas. Um relojoeiro como cientista político resolveria.

  2. Orquidéia
    23/12/2016 at 08:18

    Fio de antena!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo