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29/03/2017

Há um espectro que ronda o céus, o espectro do comunismo


A frase do Manifesto Comunista de que há um fantasma nos rondando, e que se trata do comunismo, nunca foi tão atual. De fato, fantasma é algo que pode assombrar, mas está morto. E, na verdade, depois do surgimento de Gasparzinho, o fantasminha camarada (o termo camarada aí, sempre foi uma grande gozação política!), nem as criancinhas se assustam com espectros. Ectoplasmas que se virem. Mortos são mortos.

Não há possibilidade alguma de se pensar em economia planificada hoje tanto quanto não há possibilidade alguma, como nunca houve, de se confiar na mão ajustadora e invisível do mercado. Faz tempo que sabemos disso. Desse modo, tanto o liberalismo puro quanto o socialismo puro, para dizermos assim, pairam no ar senão como relíquias utópicas antes da filosofia política que como qualquer dado possível para a ciência política. Guardamos do liberalismo os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade”, sendo que este último lema, aliás, nem é maçom, mas católico e posto na jogada bem depois da Revolução Francesa. Guardamos do socialismo a ideia da transformação desses lemas em base para a solidariedade universal. Mas, em termos do funcionamento cotidiano da máquina estatal, o que temos mesmo é a tentativa de ajudar na produção e na garantia de distribuição de bens de consumo a partir de ajustes aqui e acolá, ao sabor de conjunturas. Um sistema tido como definitivo é impensável.

Nossa discussão sobre “mais estado” e “menos estado”, se ainda é vigente, não diz respeito a mais socialismo ou menos socialismo, ou mais fascismo e menos fascismo. Nossa discussão séria e pela qual o mundo se engaja com pensamento não infantil é a de mecanismos pelos quais as economias não entrem em colapso diante do fato do nosso capitalismo, não raro, tende não à produção e circulação, mas simplesmente à jogatina financeira. De tempos em tempos o mecanismo de jogatina bancária se sobrepõe aos mecanismos privados, estatais, comunitários ou de mecenato que regem a economia, e criam as chances de crises financeiras que amedrontam o mundo. É isso que importa. Ninguém mais acha que isso tem a ver com soluções que passam por socialismo ou fascismo. Ninguém acha que a sociedade de mercado pode ser substituída, como no socialismo, ou regrada em função de hierarquias governamentais sobre a sociedade, como no nazi-fascismo. A maior parte dos economistas do mundo trabalham com a ideia de que mais democracia talvez nos tire dos colapsos das crises provocadas pela jogatina, e, dentro disso, os mais conservadores apostam que um pouco menos de democracia popular seja melhor para isso. Mas, no Ocidente, ninguém aposta seriamente noutra coisa. Há menos ideologia política no mundo, ao menos no sentido tradicional, do que imaginamos.

Por isso mesmo, por conta da diminuição do embate ideológico, é que os adeptos de ideologia, quando não são orientais em função do Terrorismo, perdem completamente o sentido e se tornam vítimas de brigas de DCEs de Facebook ou de pequenos jornalistas ou professores fajutos metidos a midiagogos. Essa gente não tem do que falar, não sabe o que falar, vive sob o tal “fantasma do comunismo” e são tão emburrecidos quanto os caça-bruxas. Obama mostrou isso ao mundo: o que importou aos Estados Unidos foi ter como se recuperar de crise financeira. Pode-se aparecer um Trump ali e um Sanders acolá, que podem até vencer eleições, mas não é isso que irá valer se nova crise aparecer. Se nova crise aparecer, só o remédio Obama irá ser usado.

O mundo atual é um mundo mais desencantado. O único encantamento dele que restou, e já basta, é o dinheiro e seu fluxo, e a capacidade dos governos de apagarem fogos em momentos que são cada vez mais imprevisíveis. O “espectro do comunismo” serve apenas para que o retardado mental fale dele, a favor ou contra, e se mostre um retardado mental.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 09/08/2016.

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3 Responses “Há um espectro que ronda o céus, o espectro do comunismo”

  1. FRANKLN MARIANO
    09/08/2016 at 17:45

    Fernando, o seu comentário me chamou atenção. Não tive como não respondê-lo. Ainda que voçê queira raciocinar a partir de classes sociais, voçê não pode pegar classes a partir da renda e do salário. Essa é uma noção do século XIX ou do IBGE. Na verdade, pertencer a alguma classe social envolve muito mais do que salário ou renda. Envolve crenças, valores, e, Claro, títulos acadêmicos. Existem muitos operários ganhando 12.000 reais. Um mecânico ou técnico de aviação operário pode ganhar isso. No entanto, ele é um operário. Da mesma maneira, existem uma série de pessoas que ganham 3.000,00 ou 4.000 reais como o ghiraldelli e pertencem a uma outra classe social. Qual ? a elite intelectual oriunda da classe média.

    Classe social, caro Fernando Mattos, envolve Capital cultural. Veja bem, quando voçê diz que recebe 400.000 por mês, meu caro, voçê denota que seu capital cultural é de pobre. Não há problema nisso, apenas uma constatação.Daqueles pobres que admiram os ricos.Mas os ricos de verdade ( não o novo rico,parece o seu caso) jamais fala do salário dele.

  2. Fernando Mattos de Oliveira Albanesi
    09/08/2016 at 16:20

    Paulo Ghiraldelli, Excelente artigo! Agradeço pelas sábias palavras. Mas, você esqueceu que por mais títulos acadêmicos que ostente ainda não trocou de classe social e morrerá na classe baixa? A sua renda de docente, escritor e algo mais, é risível para nós da classe dominante. Troque de profissão enquanto é tempo e junte-se definitivamente a nós. O meu salário atual é de R$ 400.000 em uma multinacional.

    • 09/08/2016 at 16:27

      Fernando eu não vejo o mundo por classes sociais. E eu vivo bem com meu salário. Mas veja, eu tenho um centro de pesquisa que precisa de doação. Se você ganha tanto, faça um mecenato, doe um pouco para nós, pois muita gente que não tem dinheiro estuda conosco. Eu faço minha doação e meu trabalho espontâneo. Há outros que fazem também. Aposto que mil reais por mês, para você, que ganha 400 mil, não vai fazer falta. Que acha? Topa?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo