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22/06/2017

Dias de não-Dilma com Dilma: como viver no passado no presente?


O Brasil está mostrando para os brasileiros um traço que não pode ser entendido por nenhum outro povo do mundo, exceto, talvez, os que viveram os últimos dias da URSS.

Mas, ainda assim, na URSS os ânimos se exaltaram, o parlamento foi bombardeado e o Exército Vermelho, que tanto dizia que protegia o povo, atirou contra o povo. Ao final o povo venceu: foi uma revolução que pôs fim à Revolução de 1917. No Brasil nada disso vai acontecer. Como da vez do outro Impeachment, o parlamento cumpre seu papel, todas as instituições estão funcionando, uma mulher-professora derrubou uma mulher-presidente e ponto final. Uma batalha interna ao feminismo, mas consequências para todos. O que há de maravilhoso e semelhante ao caso soviético é que a imprensa e nossa conversação precisa fingir que nada disso aconteceu, pois ainda não aconteceu de fato. Os últimos meses da URSS eram assim. O número de piadas sobre o governo crescia, todos sabiam que havia acabado a URSS, e era uma calmaria geral na espera  do decreto oficial de Deus para dizer: “acabou!”

Dilma é a presidente, o Impeachment não saiu oficialmente, o novo governo não pode falar que é novo governo, e a imprensa não pode tratar nada do que acontece como estando acontecendo, tem de fingir que o tempo parou e então noticiar um cotidiano que não é um cotidiano, é uma parada mesmo do tempo, ainda que exista uma continuidade de atividade no espaço. É o momento incrível em que a geografia toma o lugar da história. Os homens e mulheres mudam os espaços e de espaços, mas sem qualquer tempo. A imprensa tenta provar para si mesma que há uma edição do jornal que pode ser diferente, ainda que nada de histórico aconteça, pois já aconteceu e concomitantemente não aconteceu. A geografia se transforma em história, toma o lugar da história, a incorpora, e continua geografia.

O mais interessante ainda é a sensação esquisita que virá, aquela que está para ocorrer, quando a história voltar a falar alguma coisa para a geografia, ou seja, quando o governo Temer começar a funcionar. Pois aí a Lava Jato será retomada (ela não parou) para pegar os novos governistas que, enfim, serão os velhos, apenas com a defecção (eu disse defecção, e não defecação, que está na moda pelo PT) da quadrilha de Lula, que teima em se dizer partido. Claro, a Lava Jato deve continuar também no sentido de pegar o Lula, a população brasileira espera esse momento catártico final. Aliás, em certo sentido, até os apoiadores de Lula começam a alimentar a ideia de que o êxtase dessa hora seria tão esplendoroso que funcionaria como redenção até mesmo para os petistas. Afinal, ninguém mais aguenta carga negativa, a “energia” negativa do petismo.

O PMDB não existe como partido faz tempo. É um aglomerado de gente que tem o único interesse de se dar bem, em sentido pouco nobre, e se organiza como agremiação do mesmo modo que um grupo de amigos, numa grande associação de ajuda-mútua de ricos calhordas. Queria roubar mais, mas o PT também queria. Faliram a Petrobrás e outras companhias (PMDB e PT ajudado por PP, Collor e outros) e deixaram o país, agora, com 10 milhões de desempregados. Dizem que, tendo feito isso junto com o PT, não farão mais sem o PT.  O PT dava mal exemplo, deve ser o que Temer diz, à noite, para a sua bela esposa, para que ela ainda finja que tem tesão. Fala como se o PMDB não tivesse começado isso, a prática da corrupção, sem a existência do PT. Ora, quando Lula era apenas trombadinha, desses que batem carteira de empresários não tão grandes quanto o Marcelo Odebrecht, o PMDB já assaltava as empresas de seus parceiros da Fiesp e Associação dos Bancos. Ora, mas, cá entre nós, essa gente não existe sozinha. São os políticos que temos, que elegemos, e nosso parlamento é um dos mais disciplinados e pacíficos do mundo e, no geral, ele tem comportamentos elogiáveis historicamente – sem parlamento, acreditem, é sempre pior.

O parlamento possui também os deputados do PSOL, bancada excelente de trabalho quanto a questões miúdas, mas completamente imbecil por conta de um modo de pensar o que é ser de esquerda; nisso, estão vivendo o antes de 1970, aparecem sempre como PT 2.0. Luciana Genro, sabemos bem, pode entrar para qualquer DCE que exista por aí. Tem a Rede, mas rede boa mesmo, que funciona, é a rede Globo, outras redes ficam catando peixe sem saber se devem alimentar o populismo – no caso, o de Marina – ou se devem alimentar alguma coisa que seja digna.

Vivemos esse mundo nosso, brasileiro, e enquanto só a geografia funciona, sem a sua parceira, talvez o melhor que tenhamos a fazer é aproveitar o momento para as aulas para o ensino de crianças: devemos aconselhar os professores a mostrarem o heroísmo brasileiro na figura da Janaína Paschoal, professora da USP (eu insisto nessa digna qualificação) e o quanto que a tortura que Bolsonaro defende, é um crime de guerra – ainda que 1964-1985 tenha sido uma guerra, os ídolos dele foram criminosos, não soldados.

É isso.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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9 Responses “Dias de não-Dilma com Dilma: como viver no passado no presente?”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    05/05/2016 at 11:45

    Prof. PAULO:
    Peter Drucker dizia que “o tempo é um bem inelástico de reposição impossível”. Os companheiros do PT que se arvoravam em proprietários exclusivos da Ética, muitos deles, dos altos escalões do “centralismo democrático”, ainda se encontram no contexto do Século XIX e, como a Carolina do Chico (e o próprio poeta) não viram “o tempo passar na janela.” Mais uma vez, em que pese o chavão marxista e o ódio de dona Marilena Chauí à classe média, confirma-se a maldição da História: a hybris venceu!.
    Com admiração
    Valmi Pessanha

    • Matheus
      06/05/2016 at 13:01

      Acho que híbris é demais, não fizemos uma guerra de Tróia ou qualquer tipo de guerra, não sei se houve tantos excessos por parte do PT, acho que só excessos em termos de corrupção, enfim

  2. Matheus
    03/05/2016 at 18:27

    Sobre a defecação geral do PT, eu tomei aquele ato como o símbolo do atestado de óbito do PT. Tudo bem que aquela mulher loira que aparenta classe-média não deve ser o elemento representativo do PT (que se diz tão negro, operário e etc) bem como ela não deve ser líder/chefe do PT em alguma instância… mas vejamos bem, o PT vive falando merda atrás de merda (faz apologia a uma concepção de esquerda que mal existe nesse mundo ao mesmo tempo que faz a política de “direita” + serviços governamentais sociais pífios + roubalheira + coerção institucional + deixar políticas de minorias de lado) aí que vai saindo plinio arruda, luciana genro, ivan valente, erundina, pessoal do pstu demais do psol, marina, rede, etc… é como se o corpo orgânico do PT estivesse sendo esquartejado, cada órgão estirpado, e agora nem intestino mais eles têm pra segurar a bosta. Foi o que restou do PT, o restolhinho, cagar na cara impressa em papel do outro grande bosta nacional, líder de pretendentes a bostinhas, os bostasonaros da vida… Triste e escatológico fim mesmo. Agora é esperar que essa merda do PT, como as outras, boie, pq se afundar pode não se descolar dos ideais de esquerda progressista e levar tudo abaixo…

  3. Armando
    02/05/2016 at 20:50

    A presidenta vai seguir resistindo. Ela provavelmente será afastada agora, em maio, mas voltará logo, até setembro ela estará de novo no cargo, acredito.

    • 02/05/2016 at 20:53

      Armando, ela vai voltar em forma de abóbora, só para você. Ela vai fazer isso só para inteligentes como você.

  4. Dario
    02/05/2016 at 15:58

    E o jornalista alemão ao ser interpelado pela sua colega brasileira sobre o que ele pensa de tudo isso: “Eu não entendo vocês, se fosse na Alemanha estariam todos nas ruas, quebra-quebra geral, a polícia prendendo todo mundo, fogo no Parlamento, a nação à beira do caos total, aqui vocês vestem a camisa da seleção brasileira e ficam em paz uns com os outros, dançam na rua, isso é muito estranho devido a imagem que o Brasil construiu lá fora.” Maldito Homer Simpson.

    • 02/05/2016 at 19:22

      É que somos um povo civilizado e não há razão de lutar com armas se a lei corre corretamente. O Impeachment é legal e vai acontecer. Simples. Até Homer Simpson entende. Só o petista não.

    • LMC
      06/05/2016 at 12:11

      Fosse na Alemanha,o caramba.Você
      confundiu Alemanha com Turquia ou
      Venezuela,Dario burrinho.

  5. Afonso
    02/05/2016 at 09:37

    Ótimo texto. Parece mesmo que estamos vivendo num ‘limbo’ político – ou talvez nos intestinos de Leviatã…

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