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25/07/2017

Como fazer a profecia de Marx dar certo?


Marx historiou, teorizou e profetizou. Infelizmente uma boa parte dos seus leitores nunca quis ler a história e a teoria por elas mesmas, mas só em função da profecia: o capitalismo produziria o socialismo de maneira “natural”, como consequência de contradições internas do próprio capitalismo – e isso começaria pelo “polo mais desenvolvido do capitalismo”.

A culpa desse erro dos leitores não foi só deles. Marx também leu a si mesmo, ao menos em algumas situações chaves, dessa maneira, e começou a acreditar demais na sua profecia. Mandou uma carta a Lincoln cumprimentado-o pela releição, e dizendo que para onde os trabalhadores do “país da bandeira listrada” fossem, eles arrastariam os outros do mundo todo. Marx estava vendo que a América seria o “polo mais avançado do capitalismo”. O problema é que a Revolução de 1917 saiu na Rússia, um lugar pouco desenvolvido. E aí, o que fazer? Ora, simples: para não ser perder o profeta, basta que se mexa no modo de ver o local da profecia.

Os teóricos da social democracia, também marxistas, foram pegos de calças curtas diante da revolução na Rússia. A profecia estava ocorrendo, mas “no lugar errado”! Esperto com uma boa raposa, Lênin então reformulou a narrativa sobre a Rússia, dizendo que ela, nos últimos anos, havia em parte se industrializado, e que então era o que se esperava, que ali deveria ser o local da mudança, como de fato estava ocorrendo. Faz a hora não quem espera, mas quem sabe o momento de fazer a hora – isso virou lema após ele. Trotsky queria então fazer de Moscou o centro de exportação da Revolução como Napoleão fizera com Paris, na “revolução burguesa”. Por sua vez, Stalin optou pelo “socialismo em um só país”. (Claro que a expansão estalinista da Rússia sobre vizinhos para criar a URSS não tinha nada a ver com socialismo, nem cosmopolita nem nacionalista, e sim imperial. Stalin, como Putin agora, nao conseguia pensar senão com o Czar, na Grande Rússia.)

Essa filosofia da história marxista, mista com profecia, fez a cabeça de muita gente. Até de gente inteligente! Mas, ao longo do século XX, em muitos países a revolução que estava por vir não veio, e em outros o operariado até deixou de ter aspirações comunistas de modo total. E assim, o marxismo-leninismo foi perdendo o prestígio.

Com o descrédito mundial do “socialismo real” (da URSS) diante da vida social e de consumo do mundo governado por liberais e social-democratas, e com a derrocada final que levou de embrulho a própria URSS, o mundo que havia antes confiado no misto de filosofia da história com profecia do vetor Marx-Lênin, sofreu um duro golpe. Todavia, quase que tivemos próximos de poder reavivá-la.

Caso Hilary não tivesse roubado Bernie Sanders, e este tivesse sido o candidato contra Trump, seu perfil de outsider poderia levá-lo à vitória. Afinal, se a briga fosse entre outsiders, os estudos indicavam, já bem antes, que as coisas seriam diferentes. Todos sabiam que Sanders era o melhor para enfrentar Trump. O velho socialista falou para os excluídos tanto quanto Trump, e ninguém desconhece que o eleitor ideológico conta pouco. Então, o socialismo chegaria à Casa Branca. Assim, com um pouco de rearranjo na teoria marxista, feito por alguns intelectuais hábeis em produzir livros próprios para a ocasião, a profecia marxista estaria na ordem do dia novamente. Bastaria dizer que 1917 havia sido uma falsa vinda do Messias. Que Lênin tinha sido falso Messias, e que Marx, ele próprio, tinha mesmo é passado o cajado para Lincoln e este, por sua vez, guardado a peça num baú, agora descoberto por Sanders. Desse modo, em pouco tempo os livros de Marx voltariam a ser exibidos nas universidades com esses prefácios modificadores, e reagrupados para uma nova onda religiosas avassaladora. A revolução teria ocorrido, final e realmente, no “polo mais avançado do capitalismo”. Só então se poderia considerar o fim da história, e só desse modo a Coruja poderia fazer seu voo ao poente e o filósofo viria para fazer a última constatação da realização do paraíso na Terra.

Não deu certo. Mas se Trump não tiver continuidade para a sorte que teve, que implica no aproveitamento do legado de relativa prosperidade deixado por Obama, ele pode dar chance, sim, para mais novos outsiders, e com caráter à esquerda. Sanders não será o próximo candidato. Pode ser a mulher de Obama, Michele, e pode ainda surgir sim alguém mais à esquerda que ela. Claro que nos Estados Unidos nunca se desistirá da democracia  e de certo tipo de sociedade de mercado, mas, para falar que a profecia era em relação a um tipo de socialismo democrático, bastará achar intelectuais que certamente existirão.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 10/11/2016

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14 Responses “Como fazer a profecia de Marx dar certo?”

  1. denis
    27/11/2016 at 21:33

    SE O PARAÍSO UM DIA CHEGAR…..

  2. 22/11/2016 at 17:24

    Trump montou ma equipe revolucionária, os velhos Falcões parecem retornar da tempestade do deserto. Os EUA possuem uma veia revolucionária, sempre foi assim. Não é difícil imaginar que eles podem logo logo implodir com a lógica histórica da república ocidental.

  3. João Paulo Matheus
    15/11/2016 at 09:44

    Professor, a ideia de fisco voluntário do Peter sloterdijk seria como uma profecia dessas que o Marx fez?
    Abraço

  4. Fabiano
    11/11/2016 at 19:20

    O viagra fez mais pela humanidade que duzentos anos de Marxismo, palavras do professor Pondé kkkkkk

    • 11/11/2016 at 21:53

      No caso dele, nem com Viagra e nem com transplante cerebral. Pensamento ali não aparece.

  5. Daniel
    11/11/2016 at 12:57

    Parece que a profecia de Marx e Engels deu certo segundo o livro da Editora Boitempo, de 2013, intitulado “A luta de Classes na Rússia”. São textos de Marx e Engels sobre a Rússia entre 1875 e 1894. Nestes textos há indicação de que os dois autores mudaram de visão sobre o socialismo vir através de etapas (feudalismo, capitalismo e socialismo), ou seja, abandonar a visão positivista do século XIX de progresso e começar a admitir que a Russia poderia ser um exemplo de revolução com condições ainda feudais. Portanto, segundo as cartas, prefácios de edição russa de o Manifesto, correspondências para russos, e outros textos, os dois autores parecem colocar a posição de que a Rússia pode mostrar a revolução e servir de exemplo para outros países, porque lá ainda o capital não era desenvolvido, ou seja, o povo em sua maioria ainda tinha características feudais de identificação com a terra comunal, o que proporciona mais união e identidade de um povo, provavelmente porque, como em Dostoievisky, os russos não se chamavam de ocidentais, se orgulhavam dessa diferença. Talvez essa foi a leitura de Lenin para conseguir concretizar a profecia dos dois pensadores, vendo e oportunizando a revolução na Rússia, deixando de cabelo em pé a Internacional. É um arquivo interessante porque são escritos depois de o Capital. Marx parece entender que o Capital dizia respeito à Europa, por isso a tentativa de abandonar a visão positivista de progresso sobre a revolução e começar a considerar transformações sociais em outros países menos desenvolvidos pela característica do povo ainda com identidade comunal, como era a característica de vários povos orientais do século XIX.

    • 11/11/2016 at 13:20

      Sim, é essa operação, esse tipo de coisa, que logo apareceu após 1917.

  6. Leonardo
    11/11/2016 at 00:04

    Acho que os marxistas e revolucionários são potenciais conservadores. Digo isto porque, depois que os trabalhadores tomarem o poder e implementarem o socialismo para, em seguida, as classes sociais, a propriedade privada e os estados serem abolidos, vindo assim o comunismo, o objetivo a partir dali seria conservar este sistema “perfeito” coletivista. Parece absurdo, mas faz parte do programa de partido do PSTU. De revolucionários à conservadores, é assim que funciona.

    Bem, como o universo está em expansão as mudanças acontecerão inevitavelmente. Por isso ser conservador é ser inútil, de certa forma.
    Eu desconfio tanto destes quanto de revolucionários, meu ceticismo não se limita apenas a questões metafísicas.

    Bernie Sanders tinha um discurso que chamava a atenção dos jovens, o que é nítido que se trata de outro tipo de socialismo. Um socialismo não utópico ou cientista, mas voltado aos interesses da juventude americana.

    • 11/11/2016 at 01:32

      Leonardo ninguém mais ousa falar em “trabalhadores tomarem o poder” se for alguém inteligente. Sanders seria um social democrata nada diferente de Obama. Mas seu passado mais à esquerda, pertencente aos sixties na ala mais radical, o deixou de fora. O Partido Democrata perdeu por ter sido dominado pela oligarquia Clinton.

    • LMC
      16/11/2016 at 10:39

      Ih,Leonardo,o Trump só foi
      eleito por causa do colégio
      eleitoral que existe nos
      EUA.Acho que o Trump
      vai erguer um monumento
      igual a Estátua da Liberdade
      homenageando o gênio
      que inventou isso.kkkkkkkkkk

  7. 10/11/2016 at 19:05

    Sinal de ”socialismo ou barbárie”, Paulo? hahaha

    • 11/11/2016 at 01:34

      Sinal de que depois que uma coisa ocorre, sempre dá para ajeitar a narrativa que quiser sobreviver.

  8. Thiago Carvalho
    10/11/2016 at 14:45

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