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24/04/2017

Chega de idolatria (*) – texto inédito de Janaína Paschoal


Quando fiz o famoso discurso em frente ao Largo São Francisco, bradando ser o fim da república da Cobra, muitos interpretaram que eu estaria insana. Perguntaram se eu havia bebido, se tinha usado drogas, ou se estaria dominada por algum tipo de espírito.

Por várias vezes, fui obrigada a explicar que praticamente não bebo, que nunca usei drogas e que naquele histórico palanque o que me tomou foi o espírito da liberdade.

O único ponto negativo do tão falado discurso foi o fato de a emoção ter, em grande medida, nublado a irrefutável racionalidade de minhas palavras.

Entre muitas verdades ditas, destaca-se a necessidade de nos divorciarmos de deuses na terra. Convivi e convivo com muitos petistas, que não conseguem enxergar um erro sequer no comportamento e no pensamento do deus Lula.

Às vezes, tenho a sensação de que se Lula for flagrado esfaqueando alguém, os petistas construirão uma tese para evidenciar que ele está certo. Com certeza, os petistas não concordam quando ouvem a máxima de que o Papa não falha; entretanto, não pensam duas vezes, antes de assentir que Lula não falha.

Minhas objeções a esse endeusamento em terra não se restringem a Lula. Acredito, firmemente, que todo ser humano falha, que estamos em uma jornada transitória, em que todas as experiências devem ser tomadas como oportunidades para melhorar.

Sou uma defensora da Lavajato, reconheço a importância dos profissionais que vêm, paulatinamente, mostrando a que ponto chegou a corrupção em nosso país. Não vislumbro nenhum aspecto positivo na corrupção; ao contrário, penso que esse mal funciona como cupim, que mina os alicerces da casa e, de repente, a faz ceder.

Por vislumbrar as benesses da Operação Lavajato, em diversas oportunidades, manifestei-me contrariamente a criação de crimes vagos, a serem atribuídos a juízes e promotores, intimidando-os. Manifestei-me contra a criação de crimes de responsabilidade (capítulo incluso no projeto das 10 medidas contra a corrupção), bem como contra o projeto de lei referente ao abuso de autoridade.

Recentemente, discordei, publicamente, de Ministros do Supremo Tribunal Federal, que defenderam que o vazamento de colaborações premiadas inviabilizaria a homologação das colaborações e o uso das informações dadas como prova. Ao discordar, não tinha apenas o fim de fortalecer o combate à corrupção, mas também de defender o que está escrito na lei. Com efeito, a Lei 12.850/13 não institui o sigilo como um fim em si, mas como um meio de proteger o delator.

O fato de reconhecer a importância da Lavajato e de estar atenta a qualquer medida que possa vir a enfraquecê-la não implica apoiar toda e qualquer proposta de seus membros, ou mesmo apoiar todas as suas convicções.

Com todo respeito, penso que, com boas intenções, alguns integrantes da Força Tarefa confundem papeis, utilizando a credibilidade conquistada com o bom trabalho para emplacar medidas legislativas que julgam adequadas.

Não discuto que, como qualquer outro brasileiro, os membros da Força Tarefa tenham direito a se manifestar, mas não posso admitir que queiram ocupar o espaço antes destinado ao deus Lula.

Será que o brasileiro nasceu para dizer Amém? Será que precisamos mesmo de alguém que nos diga o que é certo e o que é errado? Será cabível e desejável que os assuntos sejam discutidos em pacotes?

Muitos crimes estão vindo à tona. Quero que todos sejam apurados e punidos, não importa se o autor é rico, pobre, famoso, ou desconhecido. Também não importa o Partido Político, ou o Poder de que faça parte.

O que não parece adequado é nos livrarmos da república da Cobra para cair de joelhos perante qualquer outra república. A única República que devemos tentar preservar, no meio da intrincada disputa de poder estabelecida, é o Brasil.

Em meio à necessária discussão sobre salários ilegais, que uma verdadeira República não pode sustentar, baixa-se liminar limitando a autonomia do Congresso Nacional.

Várias caixas pretas foram abertas, vamos olhar para dentro de todas elas. Não podemos nos deixar enganar por discursos extremistas. Esse foi o expediente usado até o momento. Vejam para onde o extremismo nos trouxe!

Peço, encarecidamente, aos membros do Poder Legislativo e do Poder Judiciário, que atentem para seu papel constitucional e que procurem corrigir (de dentro para fora) o que precisa ser alterado.

O processo de depuração que foi iniciado não tem volta. É melhor aceitá-lo e fazer parte dele.
Como se lê, na Bíblia, em Lucas 12

“nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido.
Porquanto tudo o que em trevas dissestes, à luz será ouvido; e o que falastes ao ouvido no gabinete, sobre os telhados será apregoado”.

Janaina C. Paschoal, advogada e Professora Livre Docente de Direito Penal na USP, 13/12/2016

(*) Texto inédito da professora Janaína Paschoal, especial para este meu blog, “filosofia como crítica cultural”

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19 Responses “Chega de idolatria (*) – texto inédito de Janaína Paschoal”

  1. José Gomes
    22/12/2016 at 19:29

    Só mesmo Putin e sua megalomania da Grande Rússia podem tirar o Brasil dessa pocilga e devolvê-lo ao protagonismo geopolítico mundial, com uma aproximação dos EUA para conter o mafioso.
    Depois da Guerra Fria, o Brasil saiu do mapa, tornou-se um mero vendedor de commodities para a China, conservando apenas status de país “pitoresco” , com mínima relevância internacional nas áreas econômica, política e intelectual.
    Como não sabemos fazer mais nada bem além de arrancar ferro da terra, criar bois para o abate e plantar soja, e não produzimos quase nada além de corrupção, talvez uma Guerra Fria 2.0 possa colocar o país no radar outra vez.

  2. Anderson Luiz da Silva
    22/12/2016 at 17:18

    Não sou filósofo, mas percebo que todo o problema gira em torno daquela fala de Kant, que a firma que “A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos
    homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha
    (naturaliter maiorennes), continuem, no entanto de bom grado menores durante toda a
    vida. São também as causas que explicam por que é tão fácil que os outros se
    constituam em tutores deles. É tão cômodo ser menor”

  3. STAUFFENBERG
    20/12/2016 at 00:28

    Apagaram meu comentário, isso não é justo, assim inviabilizam minha indignação, sem impugnar meus argumentos, isso é censura, ou incapacidade, estou confuso.

    • 20/12/2016 at 01:41

      Você é confuso, nasceu confuso, vai continuar confuso.

  4. wagner santos
    19/12/2016 at 18:52

    Textos não são gaiolas, Paulo. O país não está livre de si mesmo com a queda do PT, todos sabem disso. A respeitável Janaína, creio eu, já sabe que quebrar um ídolo não é quebrar a idolatria. Vencer a idolatria em si mesmo já merece aplausos. Propor isso à cidade talvez seja demais para o momento. A maioria dos que apoiaram a queda do PT clamam por um novo ídolo, exigem uma reencarnação. Os que não apoiaram a queda do PT ou continuam idolatrando Lula ou buscam um novo ídolo, um renascer da esquerda ou coisa do tipo. Atacar a idolatria é um desafio imenso para qualquer um com coragem o suficiente. A própria lava jato usa a idolatria da população como certo escudo para se proteger dos ataques de seus desafetos. O que Janaína propõe é um grande desafio não apenas para ela, mas para qualquer um que se disponha. Talvez ela esteja mostrando as sementes que tem no bolso. Esteja avisando a todos para cuidar do terreno preparado e das plantas que não tardam em brotar. Janaína é uma mulher de fé no sentido justo da palavra, não uma idólatra.

    • 19/12/2016 at 20:04

      Wagner o que você queria é que ela escrevesse o que você quer escrever. É necessário sempre olhar o lugar da pessoa que escreve.

  5. wagner santos
    19/12/2016 at 15:52

    Lula ocupou o posto de figura messiânica, anterior a ele. Não adianta a Janaína continuar com uma ideia correta e uma birra já desnecessária, pois continua a falar do PT como se este não fosse um moribundo. Falar mal do PT como profissão ou garantia de audiência só revela a pobreza de nosso gosto. Os fanáticos do PT querem continuar com seu deus preferido, os fanáticos anti PT ou pró qualquer outra coisa que não essas que se apresentam ascendem novas figuras ao posto de Deus. A necessidade de um messias continua presente no imaginário nacional, como a própria Janaina apontou, mas continuam apontando o PT como se fosse ele o criador do posto e não o ocupante através da figura do Lula.
    O texto é diplomático demais. Ela começa a tocar na ferida, com relação ao comportamento messiânico de parte do judiciário e MP, e meio que se desculpa prontamente pela ousadia.
    O problema que Janaina aponta é anterior ao PT e muito mais forte que o partido moribundo. E não são poucos os que veem nisso não um problema, mas uma necessidade social, politica e governamental. O deus, ou os deuses, não poderia é perder a compostura e acreditar que é realmente o que o povo acha que é.
    Não atoa o cristianismo trouxe o divino à terra, à carne, pois esse imaterialismo e complexidade deveria continuar destinado aos poucos amantes da ideia. E jesus governa o ocidente, embora o seu reino não seja o da terra.
    Janaína aponta para um problema maior que o PT, maior que o Brasil e os brasileiros, inclusive. Foi com tudo contra o PT. Sabia que podia vencer e venceu o Partido contribuindo para a sua retirada do poder. Já percebeu que o posto messiânico esta vago. Já percebeu ou já sabia que o maior problema não é o PT.
    Mas parece estarrecida diante de um gigante. Parece que vislumbra como Deus no céu não é o mesmo da terra. Talvez ela esteja dizendo sem dizer que essa briga é grande demais pra ela.

    • 19/12/2016 at 16:38

      Wagner não dê lições à Janaina, não tente isso. Não chame isso de birra. Você não aprendeu nada em 2016. Nadinha. É uma pena. As pessoas não querem mais ler textos, querem que os outros escrevam aquilo que elas querem escrever mas não escrevem. Leia dez vezes o texto e escreva o seu. Então, tente atuar com 1/10 do que Janaína fez para o país.

  6. STAUFFENBERG
    19/12/2016 at 04:12

    Essa senhora, que se diz professora de direito, aceitou participar de uma farsa triste e grotesca que, a par de não ter contribuída para depurar o arraigado germe da corrupção em nossas esferas de poder, máxime a política, foi fundamental para solapar a claudicante democracia brasileira, nulificando a vontade popular representada no resultado da eleição de 2014.

    • 19/12/2016 at 09:10

      É difícil para você aceitar, Rommel, que uma professora honesta exista e tenha derrotado seus ídolos ladrões, eu entendo você. Mas, o que lhe resta, é apenas isso que fez: o gemido.

    • STAUFFENBERG
      19/12/2016 at 13:20

      De fato, ela derrotou mesmo meus ídolos ladrões, isso foi feito com uma lógica tão perfeita e coerente que o golpe perpetrado substituiu Dilma por Temer e sua turma de pessoas idôneas e honestas, foi uma manobra de mestre e trouxe imensa felicidade à essa Nação.

    • 19/12/2016 at 13:24

      Chora meu caro, chora. Mas não tenha filhos, eles podem nascer de 11 meses como foi seu caso.

    • STAUFFENBERG
      19/12/2016 at 13:48

      O Brasil é um país de gênero próprio, defender a soberania popular, cuja votação em pleito eleitoral é sua expressão mais candente, confunde-se com ser petista, enquanto que apoiar a destituição de uma presidente da república, eleita de forma regular e democrática, é ser liberal, não causa espécie que estejamos nesse labirinto intransponível. Quanto à vitória da senhora Janaína, ela não venceu nada, foi, tão-somente, um instrumento nas mãos dos que sempre dominaram esse país. Aliás, vale, aqui, uma dica de leitura, os donos do poder de Raymundo Faoro.

    • 19/12/2016 at 16:42

      Rommel você está de quatro e bravinho contra a Janaína porque ela fez o que você não consegue fazer. É duro né? Ser impotente, não fazer nada, lamber bunda de Lula ou ficar contra Lula. Isso é para você, fraquinho, não para ela. Isso irrita você.

  7. Gustavo
    16/12/2016 at 11:57

    Ralaxa Jana! Estou sabendo que tropas russas estão na fronteira com Roraima prontas para invadir. Putin está chegando para por ordem na casa! kkkkkk

    • 16/12/2016 at 12:12

      Relaxa Gustavo, estou sabendo que você não fez o ensino fundamental é por isso não entende nem mesmo recado simples, de twitter. Nem sabe o que é geopolítica e o que está em jogo hoje entre Putin e o Ocidente. Fica tranquilo, deu para ver sua situação Gustavo. Veja, se já passou da idade, faz o supletivo. OK?

  8. Daniel
    15/12/2016 at 21:49

    Sim Janaína, a justiça é a última fonte onde podemos recorrer. Podem chamar ela de Deus, de Judiciário e e etc. O importante é que esse processo, como você falou, não tem como parar mais, abriram portas que não fecham mais. O Brasileiro foi criado para dizer amém, mas o amém nunca é aquilo que fecha, mas aquilo que acompanha, por isso, estamos com você nesse caminho. Não aguentamos mais o poder Moderador.

  9. Estevão
    15/12/2016 at 20:22

    Confesso que, por estudar 4 anos em universidade federal, o envenenamento petista me atingiu em cheio. O partido deveria ser o catalisador de toda açao política e Lula um personagem irrefutável de nossa história, pensava um jovem sedendo por justiça social nos primeiros anos de faculdade.
    Ao sair e a ler mais Filosofia, sobretudo Nietzsche, as escamas foram caindo; o verniz que me blindava um novo pensamento perdeu força. Em nome dos supostamente mais pobres, em nome da suposta justiçã social, em nome de um mundo mais justo, o PT atropela qualquer tipo de ordem juridica. O pior. Usam seus estados satélites tais como CUT,UNE, MTST, MST e afins para intimidarem os opositores a agitarem a opinião publica. Um modelo de política nefasta, cujos forjadores são políticos pacóvios, mas a opinião publica os vêm como intelectuais.
    Quando me permiti ao um novo modelo de enxergar a vida e a existência, percebi logo que o idolo do petismo tem os pés de barro.
    Parabéns Janaína! Você deu a primeira martelada nos pés deste ídolo. Hoje mais do que nunca entendo sua coragem e do professor Hélio Bicudo em terem dado o primeiro passo de implodir esse modelo de política nefasta que o PT tem exercitado nestas ultimas décadas em nosso país.
    Parabéns professor Ghiraldelli. Fico impressionado com o nível do debate que propoe. Em especial, seu texto sobre “A esquerda que não tivemos” me marcou muito!
    Eu o imprimi aqui e todo dia pela noite eu leio.
    Tive aula com o senhor em meu 3° período, mas àquele momento pouco sabia sobre sua carreira, tão pouco sobre filosofia. Queria eu ter a cabeça de hoje naquelas aulas na UFRRJ.

    Abraços.
    Estevão

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo