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27/03/2017

Brasil olímpico mostra um país que se perdeu


Estamos engolindo os ufano-boys olímpicos de novo é?

Uma revista alemã disse bem ao usar a palavra “zombaria” ao se referir às Olimpíadas brasileiras. Um evento que começa pelo fio temático da sustentabilidade, diz a revista, não poderia deixar a poluição dominar as águas do Rio de Janeiro,  nem inaugurar um campo de golfe numa reserva ambiental na Barra da Tijuca e, menos ainda, ter deixado acontecer o sacrifício de uma onça depois do desfile da Tocha Oímpica em Manaus.

Mas, entre nós esse tipo de observação é proibida. Se os midiagogos ousam tecer algum comentário que destoa do oficialismo ufanista que domina mentes mais fracas nesses períodos de jogos, eles logo se refazem e se submetem O midiago deslumbrado consigo mesmo e, por isso, temeroso de falar algo que o tire de circulação, o unicampino Karnal, deixa de ser professor de História para voltar ao tom da Educação Moral e Cívica. Vejam o que disse: “Fomos negativos até anteontem. Agora começamos a possibilidade de uma virada nesse estado de espírito do nosso País. Talvez esse seja o grande legado olímpico que a realização dos Jogos deixe para o Brasil”. (jornal Estadão). É demais a subserviência desse tipo de gente!

Creio que nossa consciência necessita mais do jornalista alemão que do intelectual midiagogo brasileiro. Não há nenhum motivo para pararmos de fazermos a crítica a nós mesmos após 14 anos de um erro que cometemos por desejo de orgia. Entramos por um governo petista que nos empurrou para um pequeno êxito econômico e, como das outras vezes no passado, quando o mesmo ocorreu (em vários planos econômicos da ditadura e da democracia), ficamos deitados em berço esplêndido acreditando, de fato, que milagres econômicos existem. Basta nossa economia ficar aquecida por um tempo e todos nós – sociedade, governo, oposição etc. – esquecemos de que precisamos investir em infra-estrutura. Não deixamos portos e aeroportos em boas condições, não voltamos nossos olhares para a malha ferroviária, não cuidamos da rede rodoviária, não criamos capacidade de estocagem, não desenvolvemos corretamente a reformar agrária, não investimos no cuidado com a floresta e com o saneamento básico e, enfim, nunca cuidamos de melhorar o salário dos professores, única maneira de sairmos da eterna crise educacional que nos encontramos desde os anos 70. Agora, que estamos na baixa, é hora sim da crítica. Pois, se melhorarmos um pouco, vamos esquecer de novo que não fizemos “a tarefa de casa”.

No entanto, nossos intelectuais não podem mais criticar. Eles viraram isso aí que mostrei, midiagogos que precisam falar para públicos cativos. Os que criticam não criticam senão superficialmente, pois estão interessados em colocar a culpa em Temer, o vice do PT. Ou seja, procuram claques tanto quanto os ufano-boys. Uma boa parte dos filósofos autênticos, para escapar de entrar no debate centralizado por esses tipos duplos de midiáticos, se afastam do debate público.

A Olimpíadas são um momento dos jornais do exterior – já que nossa mídia não consegue sair do Mais Do Mesmo, que é o “golpe ou não golpe” – falar o que não se fala aqui. Nessa hora, o bloqueio midiático pela crítica séria é de tal ordem que o que resta a nós, filósofos, é fazer algum eco do que se diz de crítico lá fora, numa pequena chance de deixar um fresta de luz crítica reaparecer.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 06/08/2016

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14 Responses “Brasil olímpico mostra um país que se perdeu”

  1. Orquideia
    09/08/2016 at 07:00

    Coitada da oncinha que morreu…

    • 09/08/2016 at 08:47

      Aquilo Orquídeia foi um crime, um crime insuportável.

  2. Henrique
    08/08/2016 at 05:54

    Achei triste nao ver a Dilma e o Lula na abertura da olimpiada. Acho que foi o Lula que conseguiu trazer essa olimpiada, merecia ser aplaudido pelo povo.

    • 08/08/2016 at 10:55

      Henrique você não acompanha os jornais? O Lula deu um tiro no próprio pé.

    • Guilherme Picolo
      20/08/2016 at 12:15

      Pelo amor de Deus! Aplaudir Lula pelas Olimpíadas? É o mesmo que aplaudir o carrasco por não ser tão cruel

  3. Ivandro Almeida de Gois
    07/08/2016 at 12:27

    Professor gostei da sua reflexão critica sobre o comportamentos do jornalismo brasileiro, transitasse da sustentabilidade á os investimentos das grades estrutura do país. Percebemos que nossa sociedade anda a passos lento em busca da desalienação que vivemos. Sabemos que o PT distribuiu terras de maneira desplanejada, ou seja, sem atender os critérios da essência social. Professor para realizar a reforma agrária, não é necessário a sintonia do congresso? Acredito que Cesar Marques – RJ se referia a isso.

    • 07/08/2016 at 13:13

      Ivandro a reforma agrária do PT foi feita, mas a terra não chegou. Isso nada tem a ver com o Congresso.

  4. Cesar Marques - RJ
    06/08/2016 at 20:38

    “não desenvolvemos corretamente a reformar agrária” – Eu gostaria que o Ghiraldelli fosse Presidente, para vê-lo desenvolver corretamente a reforma agrária com uns 130 deputados federais e uns 40 senadores compondo a bancada ruralista no Congresso Nacional. Isso sim seria interessante.

    • 07/08/2016 at 09:06

      Cesar a Reforma Agrária NÃO depende disso, o PT deu terras, mas para as pessoas erradas.

  5. vera bosco
    06/08/2016 at 18:54

    A nota Sem ser-nos-á dada,pois.

  6. Gustavo
    06/08/2016 at 17:07

    Também tenho acompanhado algumas matérias do exterior por esses dias e só tenho que concordar com você. Felizes os jornalistas que não tem medo de perder o seu emprego por pressão deste ou daquele partido, ou que temem serem postos para fora da luz dos holofotes ou das bancadas dos telejornais.

    Inté.

    • 06/08/2016 at 20:01

      Gustavo, tá chato mesmo esse pessoal da mídia não querendo refletir, agora, mais chato são os não jornalistas escrevendo.

    • LMC
      08/08/2016 at 13:35

      Gustavo,esses jornalistas do exterior só
      querem é que as Olimpíadas só emplaquem
      no país deles.Se amanhã fizerem uma
      Olimpíada nos EUA,os alemães vão
      achar um horror,e vice-versa.É um
      ufanismo ao contrário.

      Bye.

    • Guilherme Picolo
      20/08/2016 at 12:18

      Também sou contra o ufanismo acéfalo, mas é perceptível essa turma do “quanto pior, melhor” em segmentos da imprensa estrangeira. Gostam do Brasil enquanto país pitoresco, dos índios, mulheres fáceis e drogas ilícitas, mas quando seus interesses são de alguma forma ameaçados, a conversa muda bastante.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo