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18/12/2017

Bolsonaro é feminista? Ou o feminismo é bolsonarista?


O discurso da objetificação da mulher, vindo do feminismo, se aproxima da direita política.

Uma parte das feministas não só se atém em propagandear o jargão barato e simplório, que nada explica sobre a violência contra a mulher, de que vivemos em uma “sociedade patriarcal e machista”. Essa parte comete mais erros ainda: se fixa no combate ao que chamam de “objetificação da mulher”. Nessa hora, todo tipo de esteriótipo se apresenta em uma espécie de freak show.

Mulheres assexuadas ou com uma visão às vezes infantil ou imbecilizada sobre sexo, não conseguem entender que todo e qualquer sexo – inclusive o que é base para o amor romântico e terno – possui um grau (variável individualmente, mas nunca zero) de objetificação ou então não se realiza. Para que exista o gozo, em algum nível precisamos tomar o outro como objeto na prática erótico-sexual. Todos que praticam sexo e gozam sabem disso. Mas os que não entendem, acabam por acreditar que a tarefa do feminismo, para que a mulher não passe por violência, é evitar que a mulher se torne objeto em todo e qualquer lugar e momento. O resultado é o pedido pelo fim do sexo, e por uma visão moralistóide das relações amorosas.

Esse tipo de feminismo encontra parceria exatamente naquele que parece ser seu inimigo: o representante da extrema direita, o tipo Bolsonaro. É este que acredita – como mais de 50% da população masculina – que a mulher que se sexualiza, que anda com “roupas extravagantes”, é a que é abusada sexualmente. Então, o que propõem é que a mulher seja mais submissa, seja castrada na sua vestimenta, gestos, falas, maquiagens e estilo. Caso não, será estuprada e, por não ter se auto mutilado, deu mostras de que estava no fundo desejando o estupro. “Procurou, achou” – foi assim que vários bolsonaristas disseram da menina adolescente estuprada por trinta homens recentemente, como em tantos outros casos parecidos, inclusive os seguidos de morte. No Brasil, como já disse alguém, pede-se antecedentes das vítimas, não dos criminosos.

Assim, Bolsonaro e as feministas se encontram no horizonte da mediocridade e na tarefa de amordaçamento da mulher. Nos dois grupos, o remédio para a violência contra a mulher é a pena de morte e a castração, por um lado, e por outro a obrigação da mulher de não ser mulher, mas uma múmia. Bolsonaristas e feministas querem não a emancipação da mulher, mas sua prisão. Para viver, tem de viver presa e não ser mulher. Em nenhum caso desejam uma sociedade na qual a mulher possa ser livre como o homem, que nunca, quando vítima, se torna necessariamente culpado.

As pessoas se revoltam quando escrevo coisa desse tipo. É que esse ponto comum entre a direita e feminismo (em geral visto como de esquerda), é uma verdade que não pode ser dita. Quando dita, mostra-se incontestável, ao menos para boa parte do feminismo, e isso revolta os leitores que então sentem que eu os peguei de calças curtas. Ao invés de mudarem, preferem me agredir. Claro, não podem ser denunciados de intelectualmente fracos por não perceberem que estão andando juntos, as feministas que dizem por aí coisas como “contra a cultura do estupro” e os bolsonaretes que dizem que se as mulheres não se comportassem como putas, não seriam abusadas ou estupradas.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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21 Responses “Bolsonaro é feminista? Ou o feminismo é bolsonarista?”

  1. Beatriz Vital
    26/07/2017 at 11:25

    Será que o autor do texto sabe que as mulheres são historicamente muito mais objetificadas que os homens e que isso está diretamente relacionado às relações de poder na nossa sociedade “patriarcal e machista”, que subjugam o sexo feminino? A consciência da objetificação é instrumental para percebermos como essas relações são perpetuadas nas manifestações culturais – como cinema, música, publicidade – ao reproduzir crenças como as de Archidy Trigueiro, que parece estar convicto que a mulher é apenas um corpo, ignorando que ela tem uma mente e vontades independentes do erotismo, principalmente quando considerado em relação ao homem. A mulher é um ser humano completo e, como tal, não é definida apenas pela sexualidade, Archidy Trigueiro.

    No texto, uma suposta (nunca ouvi falar) vertente moralista do feminismo é chamada de feminismo. Na verdade, o feminismo é um movimento que luta pela igualdade de direitos entre mulheres e homens, inclusive o direito da mulher se vestir como quiser e não ser estuprada por isso, justamente o oposto do que alega Paulo Ghiraldelli. Essa liberdade está diretamente ligada ao conceito de objeto x sujeito. Por ser sujeito, a mulher é dona do próprio corpo e pode fazer dele o que quiser: se tatuar, se vestir como quiser, continuar ou não uma gravidez, fazer sexo livremente. Por não ser objeto, ela não está à disposição do homem e NÃO merece ser estuprada, assassinada ou tachada de “puta”, NEM ter sua sexualidade explorada comercialmente. A exploração comercial que transforma o corpo feminino em objeto de desejo é inclusive prejudicial aos objetivos do movimento porque ajuda a perpetuar a visão machista e objetificadora da mulher.

    • 26/07/2017 at 12:36

      Beatriz, se é a sociedade patriarcal o problema, então, você não deveria ficar tão centrada na ideia de exploração do corpo da mulher em termos de objeto, que é uma formulação é prática moderna. Afinal, o patriarcalismo é algo nascido das sociedades primitivas, antes da escrita. O conceito de sujeito X objeto é moderno. Aplicá-lo ao passado é um problema. Para fazer isso é preciso muitas mediações. Nem todo conceito é transhistórico imediatamente. Cuidado. Vou dar um exemplo: o conceito de subjetividade é moderno, para falarmos em subjetividade antiga, precisamos ver que aí é uma descrição nossa, de caráter antes filosófico que histórico. Um conceito pode ser expresso em definição e, então, vira algo que descreve situações e coisas etc. Ele busca ser universal, mas nem sempre tem sucesso em ser transhistórico. Não dá para falar em “subjetividade socrático” ou mesmo estoica etc. sem uma boa digressão, antes, dizendo que a subjetividade como fundida ao homem, psicologizada, é algo moderno, pós Kant. Assim também é a relação sujeito-objeto, é algo da filosofia pós Kant. Se quisermos levá-la para uso no mundo antigo, há uma grande mediação para tal, é necessária explicação etc etc. Meu texto respeita isso. Sua crítica não.

  2. Erik Kierski
    31/05/2016 at 09:48

    Muito bom o texto! Faz pensar em toda essa questão da sensualidade feminina em comerciais, ou em novelas, e etc. O pior é que ainda ouço pessoas dizerem que a mulher que sai em comercial de cerveja só está lá porque o capitalismo explora as pessoas, então ela foi obrigada a fazer o comercial para ganhar dinheiro. É o tipo de argumento que dá preguiça de responder!

    • 31/05/2016 at 10:10

      Erik quando alguém pronuncia “o capitalismo …” é necessário já ficar de orelha em pé.

  3. Jose
    30/05/2016 at 21:29

    Algumas feministas mais progressistas criticam certas visões estanques e retrógradas dentro do movimento feminista. Acho que o Brasil carece de uma modernidade em geral, talvez assim várias coisas teriam contornos mais civilizados e igualitários.

    • 31/05/2016 at 07:26

      José, na questão da objetificação, infelizmente, há sim essa posição delas na maioria dos casos. É um puritanismo frígido muito americano.

  4. Carolina
    30/05/2016 at 12:13

    Ola professor, me corrija se eu estiver errada. Sua critica é destinada tanto para bolsonaro quanto para as feministas, correto?
    Porem, pelas leituras que faço (A historia da mulher no Sec XX, em especifico) demonstra que as moças que justificam atos de estupro, de acordo com o modo como a vitima estava etc não sao feministas, e sim impostoras. A conversa direta com representates do movimento mostra que as mesmas abominam quem utiliza roupa etc como modo de culpar uma vitima. O extremo nunca é positivo, e que infelizmente sujou o nome Feminismo, que na sua raiz e com base no livro de 700 paginas de conhecimento do feminismo atraves da Europa, é positivo e saudavel. Como sei que você demonstra um conhecimento, provavelmente levara em conta meu argumento, e se possivel pesquisara em fontes confiaveis a respeito do movimento Feminista.

    • 30/05/2016 at 12:16

      Carolina quando as feministas de hoje fazem o comportamento moralistóide, inclusive na base do discurso da objetificação, elas não são tão poucas não.

  5. Archidy Trigueiro
    30/05/2016 at 12:10

    Wladimir, você não entendeu nada do texto, se é que leu. O seu atraso está em não ler ou então olhar apenas o título do texto e criar uma atmosfera de ódio. Leia, meu filho. Abra a cabeça. O texto não faz nenhuma apologia ao estupro (muito menos o autor do texto faz em outros de seus artigos). Fala, do ponto de vista filosófico, sobre a objectificação da mulher como uma forma, até mesmo, de resgatar o erotismo perdido, não sendo levada em consideração pela sociedade atualmente alienada por políticas de direita e esquerda que pregam a “castração” da mulher em defesa da ideia mais hilária de que o machismo leva ao estupro ou que o modo sensual feminino de se vestir também é a causa do estupro. A mulher que se guia por essas novas políticas da alienação passa a se espelhar em novos esteriótipos criados por uma nova ideologia moralistoide e alineada que quer, a todo custo, privar os instintos à erotismo. Há um moralismo vigente nessas políticas, e no próprio Feminismo, que não levam em consideração a própria objectivação da mulher.

    • LMC
      30/05/2016 at 12:44

      Archidy,que texto comprido,parece o
      Batista da Escolinha do Professor
      Raimundo que só puxava o saco do
      professor pra tudo.Nossa Senhora…..

  6. Dalby Dienstbach
    30/05/2016 at 10:49

    Um homem cis dizendo/esclarecendo o que mulher pensa/acha/sente/etc. Seu machismo está em dia, professor!

    • 30/05/2016 at 11:10

      Dalby o fato de não ter entendido o texto advém não de seu cérebro, mas de suas nádegas.

    • Dalby Dienstbach
      30/05/2016 at 14:11

      Como você define “ser mulher”, professor?

    • 30/05/2016 at 16:37

      Nossa, Dalby, mas você é burrinho mesmo heim? Meu Deus! Você não consegue perceber que isso não carece de definição no texto? Credo!

    • Dalby Dienstbach
      30/05/2016 at 17:51

      É que a postagem, no Facebook, com outra conversa nossa foi excluída, então achei que poderia perguntar por aqui.

  7. Wladimir
    30/05/2016 at 10:03

    Cala boca seu estuprador, vc tinha q ser preso por apologia ao estupro seu lixo

    • 30/05/2016 at 11:18

      Wladimir não adianta você vir aqui fazer frases me chamando para sexo, lindo, eu não faço zoofilia. Esqueça.

  8. Lilian Nascimento
    30/05/2016 at 03:27

    Sr. Paulo, entendi sua colocação e a respeito muito. Gostaria de saber, na sua visão, qual seria a melhor forma de se consegiir a emancipacão da mulher dentro da nossa sociedade?
    Grande abraço!

  9. Archidy Trigueiro
    29/05/2016 at 17:58

    Quase sempre nada sobra na maioria das belas mulheres se lhes retirarmos seus belos corpos. A mulher, representante do ser humano, que não é seu corpo, é um ser metafísico – tendo em vista ser um produto da memória e da imaginação, projeto cultural à expressão da criatividade. Se corpo não há a efetivação do erotismo e, consequentemente, do amor.

  10. Archidy Trigueiro
    29/05/2016 at 15:37

    Não há o que comentar. Perfeito! Você é o melhor filósofo. Tenho orgulho de ser teu leitor. Parabéns pelo trabalho: livros, vídeos e artigos. Abraços

    Archidy Trigueiro

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