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21/10/2017

Por que o bolsonarista e o lulista se parecem?


A esquerda nasceu de movimentos igualitaristas, contra a hierarquia baseada no sangue e no dinheiro. A direita se fez na proteção das hierarquias, no início as de sangue, depois as do dinheiro. Nem a esquerda e nem a direita tinham a conquista do poder de estado como finalidade. Tomar o estado sempre foi um meio para promover o igualitarismo ou promover algum tipo de manutenção de hierarquia, mas raramente a hierarquia calçada no intelecto.

Todavia, com o passar dos anos, especialmente no século XX, o meio se tornou mais visível e mais importante que os fins. Mecanismos de controle da sociedade vindos da vida política, diretamente do estado, no seu planejamento que colocou na ordem do dia a biopolítica (Foucault), se fizeram aparecer no show do cotidiano de modo esplendoroso. Na primeira metade do século XX, o liberalismo foi fustigado pelo nazismo/fascismo e pelo socialismo/comunismo. Estes cresceram idolatrando o estado, e se puseram contra qualquer ideia de liberdade do mercado e liberdade de expressão ou liberdades individuais. Muita gente, nessa época, desacreditou da democracia liberal. A democracia liberal parecia frágil e a mão invisível de Adam Smith tinha ficado impotente diante das crises do capitalismo. O estado se tornou tão importante na visão de todos que as finalidades da esquerda e direita se perderam. O importante era ter o estado e regrar a economia e a sociedade. Houve quem optou conscientemente pela troca entre direita e esquerda, achando que se tratava de uma questão de simples nomenclatura. Aliás, como foi o caso dos iniciantes no nacional-socialismo, na Alemanha, que realmente achavam que eram socialistas! Socialistas nacionalistas. Afinal de contas, também Stálin não estava falando de “socialismo num só país”, com forte tom nacionalista?

No Brasil, nessa época, não foi fato isolado ver socialistas passarem para o Integralismo e vice versa. D. Helder Câmara começou no Integralismo, depois foi identificado como comunista. Vargas se aproveitou disso, dessa ambiguidade no senso comum. Identificando-se com o estado, por conta de sua formação positivista em termos teóricos e tenentista em termos políticos, francamente anti-liberal, oscilou entre políticas de promoção do igualitarismo ao mesmo tempo que criou benesses para camadas mais tradicionais da população rica, especialmente elites rurais. Isolou os liberais no Estado Novo e depois o fez novamente na democracia, num pêndulo genial entre direita e esquerda, mas jamais abandonando o populismo.

Até hoje reina na consciência popular, ou melhor dizendo, no senso comum, essa ideia de que fascismo e comunismo são a mesma coisa. Esquecem-se as pessoas que o que estava em jogo, no campo histórico, desde a Revolução Francesa, era a disputa entre uma sociedade que pode democratizar hierarquias e uma sociedade onde tudo tem que ser feito por meio de uma pirâmide rígida da mandos. Apegam-se todos  ao lema “mais estado” ou ao lema “menos estado”, e então elegem comunismo e social democracia como se identificando com o estado como fez o nazismo ou como faz um neofascismo atual. Perde-se a ideia de que esquerda e direita não foram regimes de governo somente, mas modos de vida social. Surge aí a imagem do estado salvador, ou então há uma personalização do estado por meio da figura de um governante populista autoritário, que deverá realizar pelo “povo” aquilo que seria o melhor para a “nação”. Nessa hora, vemos lulistas e bolsonaristas se aglutinarem. Lula vem na defesa de um estado democrático que perde seu valor democrático liberal por conta de ter de se submeter às ordens sindicais; por sua vez, Bolsonaro corre na defesa de um capitalismo administrado à moda militar, como já fizemos entre 1964-1985, dando com os burros n’água tanto quanto o que fizemos agora, em termos econômicos, nos treze anos de PT. Aliás, coincidentemente, em ambos os regimes tivemos “milagres”, ou seja, fases de melhoria de consumo, que ajudaram a prolongar as gestões em questão. Essas melhorias de consumo, via Delfim Neto no regime militar e via Meirelles no governo Lula, foram bolhas de aparente bem estar, que não criaram lastros estruturais. Se avaliamos como melhor essa segunda fase, é simplesmente porque tivemos mais liberdade de crítica. Em ambas as fases, a corrupção comeu solta. Não pensem só no atual corrupto do momento, Lula ou Aécio ou Temer, pensem também nos Malufs da vida que proliferaram sob o guarda chuva e proteção policial dos generais-presidentes (lembram de Geisel gerenciando a Petrobrás? Os mais velhos sabem do que estou falando!).

De modo algum quero aqui fazer a defesa simplória do liberalismo, em detrimento de neofascismo ou social democracia. Nem estou aqui para repetir Fukuyama, que acha que a pior coisa do mundo é o populismo. Não vejo o futuro como se repetindo a partir dessas nomenclaturas todas. A sociedade de consumo, no estágio que está, irá varrer todo esse vocabulário para o lixo de modo muito mais rápido que imaginamos. Junto com o vocabulário, também irá criar, como já criou, pessoas com outros ideais, aliás, bem diferentes de tudo que pensamos como os instrumentos dos séculos XIX e XX no âmbito do que chamamos de política. Quem leu Peter Sloterdijk e Gilles Lipovetsky, ainda que pouco, sabe do que estou falando. Mas o que quero dizer aqui é bem mais modesto: alerto para o fato que de que muita gente só entende como agente político o estado, e que tudo se resume em montar partidos políticos para controlar essa máquina que se tornou autônoma. Essa visão da política domina cientistas políticos e jornalistas, e não está tão longe do senso comum que confunde socialismo com fascismo, ou que confundia socialismo com fascismo.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 22/05/2017

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11 Responses “Por que o bolsonarista e o lulista se parecem?”

  1. 18/06/2017 at 18:27

    Perdoe-me, professor. Este meu comentário, abaixo, não era para estar aqui, mas la no outro seu artigointitulado “Nem Frota, nem Marx”, no qual o senhor,em resposta a um leitor, refere-se à Escola Militar. OK?

    • 18/06/2017 at 18:32

      Meu caro, com tanto doutorado e você erra onde posta as coisas? Bom, sobre escola militar, meu nego, você leia lá de novo, pois também não entendeu. Não estou me referindo a nenhum colégio em especial, mas um tipo de educação disciplinar. Putz! Meu Deus!

  2. 18/06/2017 at 17:19

    “Escola Militar é uma bobagem”… Francamente, caro professor, quanto preconceito e desinformação de sua parte. Pois, fique sabendo o senhor que meus oito irmãos e eu estudamos em colégios militares desde a mais tenra idade e tivemos uma formação intelectual e moral excelente! Hoje, sou engenheiro eletrotécnico, pela USP e com pós-doutósdoutorado em energias eletronucleares pela Universidade de Yale, nos EUA. Só não menciono o que meus irmãos estão fazendo, cada um em suas respectivas áreas de atuação aqui no Brasil e no Exterior, para que eu não aparente um tanto presunçoso por demais, como agem determiniados filósofos midiáticos que polulam por aí.

    • 18/06/2017 at 17:37

      Denis, o fato de não ter entendido meu texto, mesmo sendo ele fácil, mostra que a formação que o colégio lhe deu não foi boa como você pensa. O que tem a ver meu texto com colégio militar ou educação militar meu caro? Meu Deus, salve esse moço! Devolva-lhe alguns neurônios.

  3. Orquidéia
    22/05/2017 at 23:30
  4. Fernando Costa
    22/05/2017 at 15:31

    O Lula representou na década de 1980 a esperança, lembro bem das eleições de 1989. Lula era o novo, era o sentimento popular, era a voz dos menos favorecidos. Collor também era o novo, mas representava mais os enseios de uma classe média que tinha muito medo do comunismo. Eu vejo que o Brasil de hoje precisa de novos líderes e novos modelos de pensamento, algo que supere dicotomias antigas como comunismo versus capitalismo, neoliberalismo versus estatismo, etc. Temos ainda hoje, para além dos lulistas e bolsonaristas, os chamados patriotas, aqueles que defendem a volta de um regime militar.

    • 22/05/2017 at 16:23

      Fernando, meu artigo não diz muito sobre isso, mas …

  5. LMC
    22/05/2017 at 14:50

    E o SBT dando espaço pro Bolsonazi
    falar nos seus programas?O Sílvio
    Santos puxa o saco do Temer e de
    quebra,é um bolsonarista.Rarará!!!!!

    • Orquidéia
      22/05/2017 at 22:52

      Se ele fosse um tanto mais jovem, poderia sair candidato.

    • LMC
      23/05/2017 at 11:33

      Só bolsonarista achou certo aquela
      ação nazistóide da polícia na
      Cracolândia.Mas jegues são
      irracionais e portanto,”viciado
      bom é viciado morto” pra eles.

    • bogoio
      28/07/2017 at 00:39

      Bolsominion é uma nova praga que está surgindo, muitos sujeitos enfermos com esta doença, é fé cega, onde vai parar?

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