Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

22/07/2017

As obrigatoriedades da civilização que alguns não aprendem


A direita política extremada não consegue entender que um país civilizado deve pagar indenizações às famílias de presidiários que estavam sob custódia do estado e foram executados. A esquerda birrenta não consegue entender que Janaína Paschoal está ensinando lições de cidadania ao inspecionar banheiros públicos de lugares que frequenta. A esquerda e a direita tem uma dificuldade imensa de viver em uma situação civilizada. Derrapam cerebralmente, pois não entendem que essas coisas fazem parte de um mesmo e único projeto.

Se o estado traz para o interior de suas dependências alguém, ele imediatamente se torna responsável pela integridade física dessa pessoa. Não importa quem seja essa pessoa. Não importa se é preto, branco, gordo, feio, bandido, loira linda, estúpido, pobre, rico etc. Essa é a igualdade perante a lei. E nesse caso, não foi fácil chegar a esse patamar de civilidade, o de ter um estado que não tem como não admitir a culpa – e pagar indenização – se recolhe alguém e permite que esse alguém seja arranhado. Caso você se envolva em um briga de trânsito e vá preso, a primeira coisa que irá fazer, logo que seu advogado chegar, é pedir “exame de corpo de delito”. Nessa hora, você, caso tenha sido aquele que postou na Internet que o estado não deveria pagar indenização às famílias da vítimas da chacina da prisão em Manaus, vai esquecer rapidamente do seu post e dizer: “é, mas eu não sou bandido eu preciso ser protegido pelo delegado, não atacado por ele ou por outros aqui dentro da cela”. Ora, naquele momento que está lá, preso, está sendo considerado infrator, mas está sob a guarda do estado, que precisa garantir sua integridade física para levá-lo ao processo, defesa, tribunais, julgamento etc. Nessa hora, você se lembra de direitos humanos, não é? Lembra de patamares de civilização, não é?

Se Janaína Paschoal vê o banheiro público do parque que frequenta em estado lamentável, ela pode – e todos nós também – mandar fotos para o prefeito da cidade e dizer: “eu vou fiscalizar, não vou cobrar nada por isso, mas em compensação não esqueça de mandar o pessoal da limpeza vir, os guardas virem. Vou cuidar do patrimônio público que é nosso, e quero que o prefeito, também responsável, ajude”. Com isso ela faz a parte chamada de “deveres de cidadania”; trata-se de ter direitos de uso do patrimônio público e, ao mesmo tempo, não deixar o estado sozinho na tarefa de cuidar desse patrimônio. Muita gente não entende isso, e quer ridicularizar Janaína por isso. É gente que não não consegue tratar o banheiro público como algo coletivo, é gente que, não raro, nem quer pagar impostos. Ou quando paga, acha que tudo deve sobrar para o estado. É aquele tipinho que reivindica só com greve, nunca sabe participar de um mutirão ou de uma manifestação positiva, propositiva.

Nos dois casos, o projeto  civilizatório é o mesmo: o estado deve está em função nossa, nós temos que entender sua missão civilizatória e ajudá-lo. No primeiro caso, ajudamos o estado a ser civilizado e cumprir direitos, e ajudamos nós mesmos, se exigimos dele a indenização às famílias das vítimas. No segundo caso, ajudamos o estado se concordamos com Janaína e seguimos o seu exemplo. Em ambas as situações, construímos uma sociedade melhor se o estado não se volta contra nós mesmos.

Não há mais como dissociar uma coisa da outra. A direita extremada e a esquerda birrenta, que vivem de mentiras criadas por elas mesmas, não entendem isso .Mas nós, que queremos um Brasil civilizado, bom de viver, entendemos. E tendemos a ser maioria.

Sei que alguns vão escrever comentando, separando os dois projetos, para falar bem de um e discordar de outro. Mas sei que estes são os de sempre, aqueles com mais dificuldade de entender as coisas, desde o tempo que eram pequenos, na escola básica.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 06/01/2017

Tags: , , ,

4 Responses “As obrigatoriedades da civilização que alguns não aprendem”

  1. José Delfino de Sampaio Neto
    07/01/2017 at 11:58

    Isso sim é uma grande lição de vida em sociedade, a população brasileira precisa aprender a educação, no convívio na sociedade municipal, estadual e federal o povo pode participar e ajudar com essa atitude que acaba de ser explanada pelo estimado Professor Paulo Ghiraldelli.

    O esclarecimento que foi exposto aqui pelo professor com relação a matéria, foi excelente, é disso que precisamos entender o funcionamento e a participação numa sociedade.

  2. Rafa
    07/01/2017 at 07:54

    Muito embora seja ao meu ver estúpida a ideia de não pagar indenização às famílias dos presos; procuro pensar em perspectiva professor: da mesma maneira que tenho que me sensibilizar por pessoas mortas e nas condições que foram mortas, bem como nas condições em que estavam; por outro lado vejo, como o Fonseca acima a crítica à corrupção estatal e as próprias condições do cidadão comum que procura andar conforme a lei; e acrescento: qual seria a responsabilidade dos próprios presos nas rebeliões, seriam eles mesmo inculpáveis de tudo o que aconteceu e acontece nos presídios?. Em suma, acho muito fácil ser parcial, ainda mais as coisas coisas são levadas pelo panfletarismo político, o que sempre acontece no cenário atual do Brasil, com opiniões superficiais e simplistas

    • 07/01/2017 at 08:52

      Rafa, pense de novo o que escreveu. Procure saber mais sobre a indenização etc. E se você estivesse lá na cadeia?

  3. 06/01/2017 at 11:59

    No caso das indenizações de Manaus, eu entendo que, após o ato, o MP deveria mover uma ação de regressão para aqueles que, sendo informados da rebelião e tendo competência para evitá-la, não o fizeram.
    Assim, os cidadãos, por estarem cansados de verem tanta corrupção e incompetência das autoridades, acabam por duvidar das bases normativas e valorativa da vida civilizada.
    Uma coisa são as regras constitucionais civilizatórias, outra, muito diferente, é o fato de que o Estado brasileiro parece estar sob o comando de gente incompetente e corrupta. Daí a descrença generalizada e a banalização do debate sobre as responsabilidades de todos com a civilização brasileira.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *