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18/07/2018

Ainda há uma esquerda incapacitada para a democracia?


[Artigo indicado para o público em geral]

O professor e deputado Giannazzi é meu amigo. Gosto dele, como pessoa e como deputado. Esteve no lançamento do meu livro Dez lições sobre Sloterdijk e me disse: “sua colega Márcia Tiburi se filiou ao PT, disse que o PSOL é machista, e que agora ela ama Lula”. Bem, não considero Tiburi colega. Sou filósofo, ela é militante política. E quanto a ela amar Lula, a essa altura, talvez seja significativo. Quando Lula era honesto (ou assim parecia), ela não gostava dele, agora que ele é ladrão, ela o ama. Bem compatível com a defesa que ela faz do roubo, dizendo que é “da lógica do capitalismo” (veja o artigo: Uma professora a favor do assalto).

O professor Giannazi disse também que a Márcia Tiburi, quando esteve no PSOL, veio na “leva do Vladimir Safatle”. Li um artigo dele na Folha (09/03/2018). Em poucos parágrafos, ele mostra que fugiu das aulas de lógica. Abomina as próximas eleições. O que me faz intuir que ele não confia no voto popular. Logo depois, ele diz que é necessário uma radicalização da democracia, indo para a democracia de base direta, mas que a esquerda não faz isso porque ela também “tem medo do povo”. Ela quem? Ele deveria ser incluir nisso, já que acha que eleição não resolve nada. Tudo indica que, se de um lado Tiburi defende o roubo, de outro, ele defende algum tipo de ação que quebre a democracia representativa em favor da radicalização. Ele não fala em violência, mas como seria isso, se ele abomina a representatividade que temos, e que é garantida por lei? Roubo e armas! A esquerda a que esses dois, Tiburi e Safatle, pertencem, é aquela que eu me lembro bem, de diretório estudantil, e que queria participar da Luta Armada, mas não nos anos setenta, e sim nos anos oitenta, quando esta já havia acabado. É uma esquerda festiva, de gente rica, e que acha que ser radical não é andar armado, mas fazer outros andarem armados.

É estranho que essa gente se ache diferente do Bolsonaro, o cara que quer que todo mundo carregue armas e se defenda. Ah! Sim, é diferente: no caso de Tiburi e Safatle, eles não querem que o indivíduo se defenda, mas ataque: a propriedade e o parlamento. Afinal, sabemos, toda criança de diretório estudantil quer expulsar a burguesia e colocar no lugar “comitês populares”, e também quer acabar com a propriedade privada – e nisso não custa apoiar o banditismo que, em certos momentos, se confunde com o revolucionarismo. Crianças ricas tem uma ideia distorcida de tudo, e não raro negam o berço de ouro em que vivem. Podem virar professores, mas possuem uma dificuldade imensa de deixarem o diretório estudantil. Ficam numa interminável adolescência. Meu amigo Luis Milanesi, professor da ECA-USP, chama esse pessoal de “esquerda hormonal”.

Ser filósofo é ter sonhos radicais. Mas ter sonhos radicais na política concreta não é ser filósofo, é pedir realizações – é ser político militante. E as realizações que Tiburi quer contra a propriedade privada e o capitalismo são as do banditismo. As realizações de Safatle contra a democracia representativa e parlamentar são as de uma violência que ele não explicita, mas deixa implícita no momento em que pede o fim da lei na forma de abominação de eleições – ele diz claramente que elas não podem e não vão resolver nossos problemas, que o Brasil é ingovernável e blá blá blá. Lembra o garotão da Convergência Socialista ou da Libelu, de quarenta ou trinta anos passados, vendendo jornalzinho na universidade e gritando “Só a revolução salva”, o que era preambulado por “Greve geral derruba general”. Naquela época esse comportamento era tolo, agora é deprimente.

Estou longe daqueles que acham que a democracia liberal ocidental tem de dar a última palavra em matéria de “vamos viver bem”. Mas quando digo isso, penso como filósofo, como utopista, não como quem é cidadão que, para resolver problemas, está no âmbito de uma moralidade comum que quer preservar eleições, propriedade, liberdade individual e outros benefícios de uma doutrina que é, antes de tudo, doutrina política – o liberalismo.

O esquerdismo com espinhas no rosto, que é o de Tiburi e Safatle, me faz lembrar que essa garotada era criança quando Francisco Weffort (no PT) e Carlos Nelson Coutinho (no PMDB), embalados pelo Eurocomunismo e pelas preleções de Bobbio na Itália, publicaram livros e artigos criticando o desapreço de nossa esquerda pela democracia, justamente pelo leninismo aqui adotado, ou a caricatura de leninismo. Esses textos, hoje, se mostram datados, mas quando vemos o rebolar desses garotos de hoje, já professores (!), até conferimos a tais escritos um certo grau não de atualidade, mas de profetismo. Parece que eles sabiam que o desapreço pela vida democrática e pelo livre jogo de “dar e pedir razões” iria se manter contaminando os menos reflexivos.

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo. São Paulo, 10/03/2018

 

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6 Responses “Ainda há uma esquerda incapacitada para a democracia?”

  1. LMC
    12/03/2018 at 12:14

    A última temporada de Malhação
    na Globo parece que foi escrita
    pela Márcia Tiburi.É igualzinha!!!!
    kkkkk

  2. LMC
    12/03/2018 at 11:43

    Tem também o MST,que é
    puxa-saco de Lula e fez
    baderna em frente ao jornal
    O Globo,semana passada.
    O velho discurso contra
    a Globo de sempre.

  3. Matheus
    12/03/2018 at 07:08

    A degeneração neural da Marilena Chauí me parecia uma hipótese razoável, mas acho que não tem neurologista que explique o que se passa dentro do crânio dessa senhorita, pq já faz uns bons anos que ela vai de mal a pior.

    Pensar que um dia já achei interessantes as palestras delas no “Padaria” Filosófica, demorei pra perceber o grau de romantismo com o qual ela tratava a “melancolia filosófica” em Aristóteles…

    • 12/03/2018 at 08:00

      Ela tinha um traço estranho, desde jovem. Quando dava aulas, fazia com um sorrisinho de canto de boca, como se revelasse um segredo “da burguesia”. Mas era uma mulher bonita e o marxismo em alta a ajudava. Mas isso virou o que tinha de virar: a certeza de deter um revelação se transformou na certeza de ser uma profeta. E profetas são o que são. Veja outros com certezas tamanhas.

  4. Ariel L. Lázaro
    12/03/2018 at 00:45

    O que mais me irrita é que essa esquerda tosca foi justamente um dos principais fatores para a ascensão da direita completamente imbecilizada de Bolsonaro e afins. Ela deve acabar não só para o bem da própria esquerda, da democracia liberal e da inteligência, mas também para dar fim a essas aberrações da direita.

    • 12/03/2018 at 08:01

      A direita sempre foi aberrante. Mas realmente, Lula e seus energúmenos ajudaram o ibope da direita, deram moral.

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