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15/07/2019

A invenção do termo “guerra cultural” – a mais nova modinha da imprensa?


[Artigo para o público em geral]

As redes sociais, já há algum tempo, ganharam o direito de pautar a cabeça dos jornalistas e, claro, de professores metidos a colunistas. Ninguém mais investiga nada. Ninguém mais quer saber do realmente novo. A atividade da imprensa é a atividade de ler Facebook e comentar. Qual o resultado disso?

Um resultado é a proliferação de fake news. O outro é a invenção, como se fosse algo novo, da “guerra cultural”. Entenda-se “guerra cultural” como sendo discursos relativos antes a comportamentos morais que discursos voltados para os temas mais tradicionais da política, como as questões de diferenças classistas. O triste não é ver jovens caindo nessa; o ruim mesmo é notar que até gente que já passou dos cinquenta anos se deixou arrastar por essa ânsia de inventar termos pouco interessantes, e que enganam os leitores por conta conta de se apresentarem como novidades, quando na verdade já são coisa velha.

Esse pessoal esquece que nossa política, desde a redemocratização, começou a fundir duas tendências que estavam antagonizadas por aqui: o modo de fazer política de europeus, hegemônico entre nós, e o modo de fazer política de americanos, que conhecíamos, mas que não ditava nossa praxe. Falo abaixo sobre esses dois modos de prática política.

Os americanos sempre tiveram a política classista permeada pela política de identidade de grupos. Formou-se entre eles o termo “liberal”, que quer dizer exatamente isto: uma pessoa capaz de se preocupar com igualdade e liberdade, com o direito dos pobres, mas também com os chamados Direitos Civis. Feministas, Negros, Gays e outras minorias, desde o pós-guerra, começaram a colocar suas necessidades no interior da política que vinha do New Deal, uma política nitidamente classista. Na Europa essa faceta do New Deal, de favorecimento dos pobres, não foi feita sob o pragmatismo de Dewey, claro, mas ainda a partir da herança do marxismo. Na Europa as questões classistas sempre pesaram mais que as questões de identidade. Essas duas formas de abarcar a política de esquerda vieram para o Brasil, em épocas diferentes, claro. Mas já no final dos anos noventa tudo isso confluía para o interior do PT, que cada vez mais hegemonizava a esquerda brasileira. É isso que temos hoje no Brasil, o casamento de necessidades que vieram pela social democracia europeia e necessidades vindas da esquerda americana. O Brasil tem hoje questões que se expressam por esse tipo de cultura política, de dupla face.

Com o esfacelamento do PT por conta da corrupção, toda a euforia desses dois lados da política de esquerda se tornaram mais dispersos, com canais variados de expressão. Ocorre então uma proliferação de discursos aqui e ali, meio que autônomos, quase que como se não estivessem mais no campo político, e sim num campo à parte, de classe média, que alimenta disputas que são tipicamente de auê de rede social. Mas não se trata de novidade. Nem o nome “guerra cultural” é algo bom. Estamos, sim, no campo de reivindicações de grupos que não rezam mais – ao menos não de modo exclusivo – na cartilha da teoria da luta de classes. Essa esquerda atual, ainda que cambaleante agora, já vem percebendo que as políticas de identidade vieram para ficar e elas é que vão dar o tom para o Ocidente. A política de identidade não se fez contra a política de luta de classes, mas incorporou uma identidade a mais na sua luta: a identidade de pobre.

Com o fenômeno da integração da política americana à europeia em solo da esquerda brasileira, outro fenômeno, já presente nos Estados Unidos, ocorreu aqui: a presença da Justiça no campo da política de um modo ainda não visto. Alguns atribuem isso ao fato do PT ter puxado o carro da corrupção e de ter gerado toda essa balbúrdia que está aí no nosso cenário. Mas, se notarmos melhor, veremos que desde o início dos anos noventa, vários conflitos políticos, antes decididos “nas ruas”, passaram a ser tramados e levados adiante por meio de grupos de advogados. Só o fato de termos tido dois Impeachments, sem qualquer ruptura da ordem democrática institucional, mostra o Direito como participante de nossa política de uma maneira inédita. Aliás, política de minorias ou grupos sempre se casa bem com certa judicialização da política em geral. Nos anos oitenta tínhamos uma pergunta se isso iria ocorrer ou não. Hoje, não mais. De fato, assim ocorreu. Estamos mais americanizados.

A nova política brasileira de esquerda que está em vigor já tem todas as suas reivindicações postas. E o povo brasileiro tende a ver tal política com bons olhos. Claro que será necessário esperar a onda do PT passar, para então voltarmos a ter uma política minimamente legal e honesta, para que tudo isso, esse novo que estava se formando e que de fato se formou, se explicite novamente de modo normal. Isso vai ocorrer. E veremos, então, que “guerra cultural” era só um nome desacertado para efeitos da política de identidade que se unificou à política classista.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Gravura: Estátua do STF. Agencia Brasil José Cruz

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17 Responses “A invenção do termo “guerra cultural” – a mais nova modinha da imprensa?”

  1. Narciso Bello
    18/05/2019 at 23:12

    Ai!Fui obrigado a voltar aqui! Não é “parafusinho”! O correto é parafusinho, com “s”!

    • 19/05/2019 at 07:36

      Obrigado Narciso! Sempre que achar erros e puder corrigir, agradeço.

  2. Narciso Bello
    18/05/2019 at 22:40

    Tudo bem, professor. Sem maiores delongas, pois estou sem tempo para esticar polêmicas a respeito disso ou daquilo. Mas, apenas acrescento que não considero, absolutamente, que o nazismo seja de esquerda e, sim, de extrema-direita, como afirma, aliás, a maioria esmagadora dos historiadores do Mundo. Quem diz que o nazismo é de esquerda é porque tem um parafusinho a menos na cabeça!Abraços e passe bem.

    • 19/05/2019 at 07:39

      Eu sei que não considera, foi um exemplo para que você saiba que se você toma os nomes, precisa contextualizar. Marxismo cultural, como está na imprensa brasileira, vindo do Olavo, não existe. E os que estão no exterior, na maior parte, deriva de bobagem. Só o fato de unir Escola de Frankfurt com Gramsci, já deveria parecer estranho. Não dá.

  3. Narciso Bello
    17/05/2019 at 11:10

    Não é não, professor! Há uma vasta e inteligentíssima literatura a respeito desse conceito de marxismo cultural, que nem mais coloco entre aspas, pois ele já é amplamente conhecido e reconhecido pela Academia nacional e internacional, das principais grandes universidades do Mundo, inclusive as dos EUA e da Europa. É, para o seu governo, professor, pensamento consolidado, não sendo, portanto, algo advindo, como o senhor equivocamente diz, da cachola de Olavo de Carvalho! Oavo, aliás, é muito pouco original em suas ideias, que são em boa medida, decalcadas do pensamento conservador norte-americano e europeu. Atualize-se, professor, pois o senhor, segundo minha interpretação, está preso, como uma âncora enferrujada, ao vetusto século XIX!

    • 17/05/2019 at 20:12

      Hahahahah meu caro, você está como o Olavo, daqui a pouco vai falar que nazismo é de esquerda. Eu me referi, como todo mundo, ao modo como Olavo usou o termo. Que outros usaram o título, todo mundo sabe. Mas, alguém realmente respeitável, usando isso, é meio bobagem. Outra coisa, pensamento “conservador”, cá entre nós, no mundo todo, mesmo universitário, é algo que temos de olhar com muito cuidado. Picareta não existe só em Virgínia, fora da escola. O problema é saber que o conceito não é conceito, e essa noção não diz nada que possa ser levada a sério quando fala o que fala, unindo Gramsci e Escola de Frankfurt e dizendo que a luta política do marxismo é “cultural” etc. Tem dó cara! Acorda.

  4. Narciso Bello
    16/05/2019 at 11:31

    Mas, professor, então o conceito “marxismo cultural”, da mesma forma, também não existe? O senhor conhece o professor Loriel Rocha, que tem um canal aí no Yotube, muito bom, por sinal que afirma, com bastante propriedade, sim, a proeminência, em nossa sociedade, tanto da “guerra cultural”, entre direita e esquerda(faces da mesma moeda, segundo ele) quanto do “marxismo cultural”.O senhor nega isso? Não é possível, né?

    • 16/05/2019 at 23:10

      Marxismo cultural é uma bobagem do Olavo, só isso. Só isso.

  5. Narciso Bello
    10/05/2019 at 11:37

    kkkk, entendia, professor! Apenas quis ser o “advogado do diabo”! Abraço!

  6. nARCISO bELLO
    09/05/2019 at 21:11

    Caro professor, ainda nos dias que correm, ouço de uma certa esquerda, jargões como “classe dominante”, “burguesia”, “entreguismo”, “imperialismo yande”. O QUE O SENHOR PENSA A RESPEITO?

  7. Joao bosco
    29/04/2018 at 12:01

    Essa gente não sabe que o liberalismo abraçou a luta de minorias como nos Estados Unidos o que o mercado abraçou as minorias Como Karl Marx previu e não sabe que o PT é liberal apesar de esquerda ou seja não fazem a menor ideia do que é liberalismo é uma direita delirante que vive no século 18 Estou emocionado com tanta Vanguarda rá rá rá

  8. João Bosco Renna
    29/04/2018 at 07:23

    Você tem um texto que explica como é o Marxismo social-democrata europeu?

    • 29/04/2018 at 10:41

      João, há textos a dar com pau sobre a história do movimento operário, história do marxismo etc. Pegue o Hobsbawm. Agora, aqui nesse blog há muita coisa comparativa entre política americana e europeia.

  9. João Bosco Renna
    29/04/2018 at 07:21

    Marxismo cultural ou seja colocar as minorias contra o resto da sociedade colocar um contra o outro dividir para conquistar a direita é genial merece o prêmio Nobel de filosofia é muita novidade junta ao mesmo tempo há há ha.

  10. João Bosco Renna
    29/04/2018 at 07:20

    Eu conheço essa bobagem como o Marxismo cultural.

    • 29/04/2018 at 10:42

      ah, sim, essas tonteiras se confundem e se complementam.

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