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23/07/2017

A coxinhada na avenida


Segundo alguns, inclusive na TV, mais de um milhão e duzentas mil pessoas estiveram na Av. Paulista, em São Paulo, protestando contra o governo Dilma. O Data Folha, bem mais confiável e condizente com as fotos, calculou 250 mil pessoas.

Alguns militantes televisivos que, eu pensava, não iriam perder a cabeça, perderam a chance de sobriedade.  Alguns fizeram analogia com protestos no Egito! Não, nada disso. Nem mesmo algo que lembre as “Diretas Já” ou o “Fora Collor”. Outra geografia, outra história. A TV parece encantar professores. Eles ficam doidinhos na frente das câmeras.

O Egito enfrentou uma ditadura sanguinária e, agora, um período em que os restos do regime ditatorial não se desfazem. A violência das ruas em tempos de manifestação do Egito não tem nada a ver com a não-violência de nossas ruas aqui, nem o clima institucional ou moral é semelhante. O “Diretas Já” e o “Fora Collor” foram campanhas com a oposição institucional ativa e com moral e determinação para exercer pressão e organização. E foram manifestações não paulistas, mas nacionais. A manifestação atual, ao menos a de ontem, dia 15, foi nitidamente paulista. Aqui, nas manifestações atuais, nenhum líder oposicionista apareceu, não porque não podia, mas porque se proibiram de assim fazer, uma vez que a maioria está tão comprometida com a imoralidade quanto o Governo. Aliás, não é estranho que nem mesmo Aécio não tenha ido, já que o número de manifestantes não foi pequeno? Bem, o fato é que Dilma não será investigada e também não Aécio, no que decorre da Lava Jato. E FHC já disse que Impeachment não é o caso. Preciso explicar? Creio que não, todo mundo já entendeu!

Essa manifestação do dia 15 foi conservadora, sem dúvida. A campanha da qual faz parte não é contra a corrupção, como às vezes diz, mas pela “ordem”, e deve se entender essa palavra como a ordem militar intervencionista. Não poucos estiveram na manifestação aglutinando vozes não diretamente contra Dilma, mas contra toda a polícia social correta do governo e também contra toda a política a favor das minorias, também correta, de boa parte das iniciativas das esquerdas no governo e aliados. Qual o resultado disso, numa olhada breve e primeira? Destaco cinco pontos:

Nunca mais fale “call now!” tá? Putz!

1) do ponto de vista da solicitação de intervenção militar nada ocorrerá, não há agitação nas Forças Armadas e nenhum líder civil está batendo em porta de quartel, para pedir apoio para golpe ou para criar insubordinação; nem há militar interessado em enfrentar situações de tensão desapropriadas ao clima social e político atual;

2) do ponto de vista político, não há também como criar situações de Impeachment, dado que as lideranças da oposição não se mobilizarão para tal;

3) ainda do ponto de vista político, mas no âmbito do congresso, os partidos da base aliada ficarão mais revoltados e exigirão mais dinheiro para ficar com o governo, e este, na atual situação, sem “mensalão” e agora sem o esquema da Petrobrás, e ainda tendo de cortar gastos, não poderá segurar deputados; talvez até petistas comecem a ficar rebeldes; se o governo não mostrar um rearranjo na economia que permita estacar a recente alta do custo de vida, o Governo Dilma não vai acabar, mas vai se arrastar melancolicamente como foi o segundo mandato de FHC.

4) do pondo de vista social, as políticas de minorias e políticas sociais, agora já atingidas pelo próprio corte de gasto do governo, perderá ainda mais a força diante do crescimento da voz social da direita, especialmente nos grandes centros urbanos, tendentes a repetir a caixa de emissão de preconceitos dos ricos paulistas e paulistanos;

5) a esquerda de um modo geral, já bem desacreditada não por obra dessas manifestações da direita, mas pela própria atuação do PT durante anos, pois não  sossegou em nenhum período longo sem ser denunciada por corrupção, grupelhismo e exercício não democrático no interior do próprio partido, corre o risco de perder boa parte do espaço de voz que demorou a adquirir.

O brasileiro continua como a pesquisa da Folha de S. Paulo apontou no ano passado: social-democrata em termos de política econômica, mas um conservador liberal ou mesmo

Triângulo!

Triângulo!

um direitista cabeça dura em termos de política social, política de minorias, comportamentos religiosos e morais, convicções éticas e educação. Todavia, mesmo a tendência em ser favorável a medidas social democratas no plano econômico, pode se invertida. O medo de perder o PT no poder e, então, ver o estado nas mãos da paralisação política e econômica que virou uma marca registrada do PSDB, pode agora ficar bem diminuído. Várias pessoas não conservadoras podem começar a se desgarrar da esquerda. A distância no tempo dos desastres de FHC podem ser esquecidos – e vão ser. Há tudo no horizonte para que o ciclo do PT se encerre e, talvez, uma nova etapa político partidária deverá nascer disso.

Lula ainda é a grande liderança do Brasil, talvez a única. Mas abusou da boa vontade e da credulidade dos que confiaram nele. Abusou porque não soube ver que ao ganhar o segundo mandato, não ganhou comemoração na Av. Paulista. Não teve a coragem de ensinar as pessoas a roubar menos. Então, até ele pode ser atingido por esses novos tempos que estão surgindo. Novos tempos que não indicam serem melhores, e talvez nem novos em termos sociológicos.

A coxinhada da Avenida Paulista pode ser o começo do advento de um revoar de uma galinhada. Uma galinhada verde menos militarizada, mas com alguma lembrança de ideais do passado.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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8 Responses “A coxinhada na avenida”

  1. Ferdnand
    18/03/2015 at 16:35

    O problema é que além da corrupção do PT outra coisa que está começando a encher, de verdade, o saco das pessoas são certas idiotices que a esquerda insiste em repetir, mesmo todo mundo sabendo que tais subversões de valores não resultaram em “um mundo melhor”. Nesse sentido, o beijo de duas idosas senhoras no primeiro capítulo da nova novela Global pode ser um simbolo mofado. Natural: em um mundo sem valores, tentar encontrar os “valores perdidos” faz sentido. E, para ser sincero, talvez isto seja mesmo o melhor a ser feito.

    • 18/03/2015 at 17:31

      Tudo enche o saco quando as coisas estão caras, Ferdnand. Claro que os ricos na rua não estão irritados por isso. Aliás, eles não deveriam estar! Mas estão e agora vão ser inflados por outros setores, e pela não defesa mais do governo, até então feita por gente que votou na esquerda. Sobre o beijo, aí é outra história.

  2. José Silva
    17/03/2015 at 09:29

    Senti vergonha alheia no dia 15.

    • 17/03/2015 at 09:41

      José Silva fizemos um Hora da Coruja sobre o assunto, ao vivo. Ele já está no site da Flix e no arquivo horadacoruja.com.br

    • José Silva
      17/03/2015 at 10:35

      Beleza, já vou assistir.

  3. Rony
    16/03/2015 at 18:43

    A eleição do atual congresso nacional é um retrato desses novos tempos. A pior composição de um parlamento brasileiro; não me lembro de uma pior.

  4. Hayek
    16/03/2015 at 17:36

    Estranho o Pondé dizer isso, já que ele considerava a primavera árabe um bande de revolta que traria de novo o fundamentalismo na região.
    Esse cara se contradiz toda hora!!!

    • 16/03/2015 at 18:09

      Hayek claro! A mídia faz isso com a pessoa, a torna maluca. O cara não pensa mais, ele fala apenas o que o público que o prende quer dele.

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