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29/03/2020

Calligaris, Agamben e a pandemia do Covid 19


A leitura que meu amigo Contardo Calligaris faz de Agamben é, de fato, aquela que artigos mais populares do filósofo indicam como a correta. Isso coloca Agamben como um filósofo do desespero. Não concordo com essa leitura. Prefiro ler Agamben considerando sua obra como um todo. Nesse caso, a divisão entre “vida nua” e “vida”, central no obra do pensador italiano, ganha uma conotação mais ampla, mais foucaultiana, digamos assim. O que quero dizer com isso?

A “vida nua” é a sobrevivência. A vida propriamente dita teria de ser a vida ética, a vida que não se reduz à sobrevivência. Todos nós dizemos: antes viver que morrer. Mas todos nós, se postos diante de uma vida indigna, admitimos que podemos pensar na morte como uma saída. Agamben insiste que a vida moderna, a vida capitalista, nos faz colocar num pedestal a vida como vida nua. O capitalismo nos coloca, em situação normal, na condição do campo de concentração: aceitamos que a vida é a sobrevivência. Nesse caso, para um mundo melhor, o correto é lutarmos para negar o capitalismo, a modernidade, a falta de liberdade, o fim da ética etc., e então estaríamos a negar a vida nua. Até aí, Agamben e o seu seguidor mais popular vão juntos. Mas penso que Agamben diz mais do que isso.

Agamben descreve a modernidade como um todo como a época que se abre para a vida nua como uma época em que a sobrevivência vem antes que a vida. Mas ele deixa transparecer em seus textos que isso não é algo próprio da modernidade e do capitalismo como efeitos do que prioritariamente temos de julgar como o mal. Se o lemos a partir de uma ótica de Foucault, podemos ver que a modernidade, enquanto época do biopoder, faz o que faz em favor de uma consideração positiva para com a vida meramente orgânica; ora, isso já é um passo adiante de sistemas historicamente anteriores. Qual liberal ou social democrata poderia  abrir mão de políticas de saúde, próprias da modernidade, e que só se instituíram por conta da vida nua valer como vida? A vida como sobrevivência veio para considerar a vida ao mesmo tempo que a depreciou. A vida dos pobres tornou-e mera sobrevivência, como todas as outras vidas que, então, eram vidas éticas, mas isso foi um ganho ético uma vez que temos de considerar que a era pré-moderna não dava aos pobres sequer o direito à sobrevivência. Acreditar que na obra de Agamben isso não está dito é ler o filósofo italiano segundo uma ótica de uma esquerda desejosa de fazer a apologia da desgraça, uma esquerda que vê a modernidade de tal modo manchada que nos dá vontade de nos jogamos de volta ao barro dos feudos. Se lemos Agamben desse modo, poderíamos encontrar gente de direita o lendo e aplaudindo.

Assim, de modo algum eu preciso, como Calligaris faz, recorrer ao filósofo Jean Luc Nancy (que admoestou Agamben) para falar que não podemos achar que medidas que levam ao cerceamento de liberdades, durante a pandemia, são necessariamente um traço da modernidade que deve ser condenado porque leva à vida nua. Sim, eu digo leva à vida nua, leva a tomarmos a vida como sobrevivência, mas e daí? A vida nua é a vida como sobrevivência. Isso não é um mal, isso é uma situação moderna que nos dá e nos tira o que achamos que merecemos (ou o que achamos que merecemos nos dias atuais). Queremos a sobrevivência para viver, queremos a sobrevivência para viver dignamente. A vida nua é redutiva se a tomamos como conceito, uma vez que é a sobrevivência. Mas a vida nua pode ser um ganho se a consideramos historicamente, pois, nesse caso, temos de ver que conseguir a sobrevivência é algo que a muitos sempre foi negado aprioristicamente em épocas de pandemia.

“Vamos salvar só os ricos” – ninguém diz isso em país nenhum hoje, durante a pandemia, ainda que várias políticas de saúde voltadas para a crise tenham isso como a sua única sua verdade. A sobrevivência do rico é sempre já pensada  a partir da vida ética. A sobrevivência do pobre é sempre já pensada a partir da mera sobrevivência. Todavia, a modernidade, ao trazer a sobrevivência como necessidade, ao definir vida como sobrevivência ou vida nua, está abrindo as portas para que a morte do corpo orgânico, tão comum entre os pobres, não possa ser posta como “mero número”. Roberto Justos, o dono do Madero e Bolsonaro têm sido condenados por admitirem isso. A modernidade trouxe um discurso que os impede de ficar aquém do direito de sobrevivência. O direito à vida nua é um direito conquistado a duras penas!

Podemos ficar alerta ao problema da liberdade levantado por Agamben e não precisamos sair dele para também apoiarmos medidas que favoreçam o confinamento. O confinamento pode ser feito sem que a democracia liberal – o regime da liberdade – venha necessariamente sucumbir.

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo, autor entre outros de A filosofia explica Bolsonaro (Editora Leya)

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3 Responses “Calligaris, Agamben e a pandemia do Covid 19”

  1. Anônimo
    28/03/2020 at 00:04

    Aniquila porque o desmascara também, vez que a “pátria” é um valor axiológico que o sustenta.

  2. Eduardo dos santos rocha
    27/03/2020 at 16:34

    Agamben está tecnicamente correto, mas o ocidente está perto de um outro 11 de setembro. Estamos indo para um rumo igual ao da China. Se o excesso, o alarme, o fechamento de fronteiras, as afrontas contra as liberdades individuais, são exceção, como então atuar? Vacinas? Os desavisados, os atrasados, os negligentes não correm o risco de, no futuro, virarem criminosos e serem chamamos aos tribunais? As autoridades italianas já reconhecem o erro de não ter atuado antes. Se a exceção vira a regra, isso ainda espanta? Vivemos um mundo altamente preventivo, temos seguros. Júlio Verne estava certo, em um mundo super saturado de técnica não existe mais aventura. Não há mais risco apenas passagem, fluxo, in-out. Os capitalistas estão querendo a abolição até do risco do negócio, do empreendimento, da Bolsa da Valores. Quem perdeu perdeu não? Onde fica a sorte? Onde fica o risco de viver? Quem disse que a vida é justa? O Justus? O que chamamos de capitalismo não começou com navegações, hipnose de marinheiros? Desbravamentos? O jogo joga. A roleta gira. Talvez os cínicos tenham razão: “Não leve a vida muito a serio, você não vai sair vivo dela!”. Coringa. Alguém tem dúvida que no futuro, caso esse episódio ocorra novamente, empresas já estarão com equipes de resgates e equipes de prontidão para ensacar os trabalhadores para eles trabalharem com trajes? Haverá toda uma dinâmica de mercado nesse sentido. Seguro e tecnologias de administração de crises e epidemias. As equipes de resgate já estarão prontas para tentar nos salvar da Terra sem ar e em chamas. Resta saber quem vive e quem morre.

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