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29/03/2020

A FILOSOFIA E A PESTE DO COVID 19


O esloveno Slavoj Zizek diz que a pandemia do coronavírus irá trazer uma quebra do neoliberalismo atual, como ideologia do capitalismo financeiro, e que pode emergir daí uma sociedade mais solidária. O comunismo continua no seu horizonte. Byung-Chul Han,  filósofo germano-coreano, diz que que o coronavírus não causa uma doença que promove solidariedade, mas afastamento social. Completa a ideia falando que vírus não faz revolução, que somos nós que temos que realizá-la, talvez após a pandemia.

O italiano Giorgio Agamben analisa o vírus segundo seus impedimentos de ir e vir, alertando para o perigo da situação de exceção se instaurar como normalidade – o estado de sítio como regra para a vida comum. Sabe-se muito bem o quanto a direita italiana e o populismo de direita dos neoconservadores tenderia a ver isso como algo normal, corriqueiro e … “necessário”. A direita italiana, diferente da brasileira sob Bolsonaro, gosta de regrar e não desregrar.

O jovem filósofo alemão Markus Gabriel retoma o filósofo alemão Peter Sloterldijk para dizer que precisamos não de um comunismo, e sim de um co-imunismo. Estamos num mundo globalizado em que qualquer virose alcança todos, mas talvez tenhamos que tomar atitudes coletivas de solidariedade – ele vê várias medidas de cuidados com crianças e velhos como estando nessa direção. Para ele, ao sairmos dessa crise de pandemia viral, deveríamos pensar seriamente numa “pandemia metafísica” (“pandemia” é “todo o povo”, em grego), como uma forma de viver globalizados sem nos deixar levar pelo sociedade do consumo desvairado do capitalismo, e sim por uma sociedade autoprotetora. Em sentido um pouco diferente do co-imunismo de Sloterdijk, ele parece estabelecer o desejo de “sociedade cosmopolita” de Kant – não à toa fala em novo Iluminismo.

Se o filósofo meu amigo, o estadunidense Richard Rorty, estivesse vivo, o que ele diria? Penso que ele voltaria seu olhar para os mais humildes, na perspectiva dos liberais americanos (os equivalentes europeus dos social-democratas, a la Obama). Insistiria em condenar as saídas neopopulistas de Trump. Louvaria as soluções menos teóricas ou ideológicas em favor daquelas com boa dose de pragmatismo, sempre lembrando que, nesse caso, o mais pragmático seria salvar todos, e não só os ricos.

Da minha parte, como penso?

Ser filósofo é interpretar a realidade não de forma aleatória, instável, mas se colocar como quem pode ver a conjuntura a partir de um pensamento que se elege como estrutural, com certa vocação de perenidade. Eis o recado importante: o filósofo pode falar em pluralidade e louvá-la, mas ele olha o mundo segundo um visão que busca totalidade e que ao mesmo tempo é bastante particular. Seu pensamento filosófico dá a coerência necessária para que o fato novo (por exemplo, o coronavírus no mundo atual) seja interpretado segundo seu cânone. Ele aposta que seu velho pensamento pode captar o novo sem que com isso o novo perca suas características de novo. Particularmente, tenho um pouco de medo dessa postura – que mesmo em Rorty se manifesta. Tento ser um pouco … digamos, fenomenológico: busco de toda maneira deixar o novo me invadir como novo. Se ele estourar meus cânones filosóficos, que assim o faça! Tomo o pragmatismo como uma forma de pensar que tem lá um pouco de dialética: pego o novo e o convido para explodir até mesmo os cânones do pragmatismo, pelo qual o pensei. Theodor Adorno dizia que esse era o filosofar: jogar a teoria filosófica contra ela mesma.

Se penso a doença que engloba o mundo hoje, o que há de novo nela, de realmente novo? O que a torna capaz de estourar não só o pensamento dos “ingênuos” ou “ideólogos” que critico, mas também o meu? Onde a coronavírus me joga na berlinda? Onde ele não me deixa pensar com outros filósofos e nem com o meu próprio pensamento filosófico estruturado pela minha formação?

É claro que a Coruja de Minerva ainda não levantou voo. A história não está aí, feita, para racionalizarmos – único modo do filosofar autêntico, segundo Hegel. Por isso, o que nós filósofos dizemos é sempre, nesse sentido, muito mais precário do que outros pensadores podem dizer. Talvez infectologistas com alguma formação em ciências humanas saiba mais que nós. Talvez médicos inteligentes – Dr. Drauzio Varella à frente – possa ser “o cara” nessa hora. A quase-já-médica Mariângela Cabelo, do canal do Youtube Todos pela Saúde, diz isso claramente. Todavia, filósofos são seres que deveriam se calar (Wittgenstein) e, no entanto, são falantes (Nietzsche/Adorno). (Essa tese, a partir de Wittgenstein I, vem da ideia de que a linguagem talvez não diga nada do mundo, segundo o que imaginamos ou gostaríamos que dissesse). Mas, o que podemos nós falar?

Há ganhos com a avassaladora pandemia: 1) a classe média do mundo todo está tendo que pensar em soluções políticas para problemas de convivência entre si mesma e entre as nações e os poderes estatais. A classe média do mundo todo só sabe ver a política como “rouba ou não rouba”. Nessas circunstâncias, está tendo que usar neurônios para outra coisa. 2) Um segundo ganho é que, queira ou não Byung-Chul Han, o estado-escravo-do-neoliberalismo está sendo questionado pela população. Mesmo defensores ferrenhos do capitalismo, inclusive financeiro, estão tendo de rever suas posições e admitir que o “serviço público” foi abatido pelo neoliberalismo e que isso precisa ser revisto. 3) Também há ganhos a respeito da volta da discussão sobre ciência e não-ciência. Movimentos anti-vacina e movimentos anti-intelectualistas passaram a ser vistos com maior desconfiança pela população. A ciência tem buscado responder à direita e à esquerda. Para a direita que visa só a economia e não a vida, se vê na situação de explicar que as medidas de isolamento são, antes de tudo, também para salvar a economia, pois se doença se espalha ela compromete o sistema de saúde (privado e público), que, enfim, continua com outras doenças, e então o gasto do país será maior; além disso, quanto mais tempo a doença ficar, menos produção se terá. Para a esquerda, que insiste – corretamente – que a liberdade é um bem precioso, a ciência tem se ocupado em lembrar que as medidas restritivas podem ser feitas de modo racional, sem desprezo à normalidade democrática. Diferentemente do combate ao terrorismo internacional, nessas circunstâncias parece ser mais fácil medidas que não desprezem os ganhos da democracia. 4) E mais: não temos agora que pensar seriamente nas fake news e nos imbecilóides que espalham teorias da conspiração? 5) Um elemento circunstancial que também deve ser ponderado é o reestabelecimento, para uma boa parte do mundo, da vida domiciliar. A pergunta que nasce nessas épocas é a seguinte: será que suporto mesmo meus familiares, minha esposa ou meu marido? E meus filhos, dá para ficar com eles numa casa durante mais de 24 horas? Nossos hábitos são compatíveis com os hábitos de meus familiares sem que o bálsamo do trabalho alienado que nos liberta da casa durante a vida normal?

Poderíamos pensar e expor mais itens no sentido acima. Mas esses cinco itens já me parecem ganhos que não posso desconsiderar. É o novo que se abre ao meu pensar filosófico, ao meu pragmatismo que, tenho deixado claro, é completamente heterodoxo até mesmo em relação a Rorty (minha formação frankfurtiana sempre me deu um amor à metafísica capaz de mitigar meu amor pela filosofia americana). O desdobrar da crise certamente me fará ponderar outros itens. E, claro, poderíamos falar de itens nascidos da própria realidade brasileira. Nesse último caso, tenho preferido usar o meu canal do Youtube para a exposição.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 62 anos, autor (entre outros títulos) de A filosofia explica Bolsonaro (Editora Leya).

Quadro capa: Praga de Atenas (1652/54), por Michiel Sweerts

 

 

 

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3 Responses “A FILOSOFIA E A PESTE DO COVID 19”

  1. Marco Aurélio de Passos Rodrigues
    28/03/2020 at 07:15

    Belo texto. Tenho somente uma objeção.
    Agambem escreveu o texto em fevereiro. Antes do início do Pico da Pandemia. Errou feio em sua ánalise.
    É claro que entende que ele está criticando o fato da direita italiana tentar normalizar o Estado de exceção. Mas foi um erro substsncial, apesar de sua análise ser precisa em alguns pontos, como por exemplo, a preocupação da exceção tornar-se regra.

    • 28/03/2020 at 16:12

      Marco você NÃO entendeu o texto do Agamben!

  2. Braz
    26/03/2020 at 20:33

    Belíssimo texto!!

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