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20/10/2018

O que foi o nazismo? Bolsonaro faz parte dele? Entenda a questão.


[Artigo para o público em geral]

NAZISMO E BOLSONARO. Do que se trata? Leia e pondere de modo inteligente. É resumido, claro, mas dá uma boa dica de como você deve estudar o nazismo e a nossa situação atual. É uma informação simples, bem rápida, em nível de ensino médio.

No início do século XX a Alemanha já tinha tudo para estar no âmbito do conjunto das potências capitalistas, menos a chave da porta do mercado internacional. A Alemanha estava fora do mercado internacional. As “potencias imperialistas” eram as donas desse espaço. A Alemanha (leia-se: os empresários – banqueiros e industriais – não judeus da Alemanha), unificada tardiamente (como a Itália) na forma de um país moderno, reclamava dessa sua situação de potência capitalista porém com mercado disponível estreito; sentia-se esmagada pelo Estados Unidos, Inglaterra e França de um lado, e via, de outro, o tal “perigo do comunismo”. Somava-se a isso o sentimento popular de derrota, vinda da Primeira Guerra Mundial. Morava no coração de cada alemão o desejo de uma retomada do orgulho nacional.

Em meio a uma crise inflacionária, que atingiu o mundo todo após a Crise de 29, a quebra da Bolsa, Hitler prometeu proteção à burguesia alemã. Falava para todo o povo, mas conversava diretamente, mesmo, com os empresários. Aos poucos foi deixando claro que seria o único a protegê-los, mas em troca da morte da democracia. No plano da retórica, dizia que o capitalismo internacional estava associado ao comunismo, e o elo dessa associação seriam os judeus, um povo sem pátria e, portanto, com braços pelo mundo todo, todos irmanados em um grande complô internacional contra o “povo alemão”. Até mesmo a crise de 29, na visão de Hitler, havia sido uma mera “armação de judeus e comunistas” para dominar o mundo. De Wall Street até o Kremlin, existiriam inúmeros judeus só pensando em esmagar a Alemanha – essa ideia maluca conquistou parte do povo alemão. Acredita-se em tudo quando se está desesperado, principalmente em conspirações internacionais que, se pensadas de modo inteligente, não se sustentam a nenhuma lógica. Hitler queria o poder absoluto para a implantação de um novo regime, fora da Carta Constitucional vigente. Dizia que iria tirar a força dos judeus e então recuperaria a economia. A crise econômica fez os empresários não judeus cederem.

Foi assim que ele fez o seu “nacional socialismo”, que, enfim, de socialismo mesmo nada tinha. Ele mesmo dizia que seu regime era anti-esquerda e anti-democracia, ou seja, contra os regimes da URSS, de um lado, e do triunvirato EUA, Grã Bretanha e França, de outro. Fez o estado se apropriar do que era dos empresários judeus (especialmente banqueiros), mas protegeu todos os outros empresários, que vieram para o partido nazista, ou por opção ou por coação. Com ajuda estatal, Hitler criou uma indústria privada forte e deixou a Alemanha próspera. As indústrias entraram em expansão por conta do ajuste da economia em seu favor. O salário dos trabalhadores não aumentou, pelo contrário, caiu, e junto disso Hitler incentivou a produção de bens imediatos, do consumo diário e interno; assim o desemprego desapareceu e a inflação caiu. A moeda alemã se fortaleceu. Hitler passou a ser considerado, de fato, o salvador da pátria.

Tudo ia bem na economia alemã, mas a conquista do mercado externo ainda era o problema. O aparato industrial alemão clamava por espaço para além do mercado interno.

Em determinado momento, então, veio a ideia da expansão militar, para conquista de mercados à força, e também para que o próprio estado tivesse mais demanda para a indústria, uma vez voltada para a guerra (a Kodak fabricou gatilhos, a Bayer fabricou gases mortíferos, e nesses projetos se engajaram Hugo Boss, Siemens, Porche e Volkswagen, Allianz, Otker, etc). Não foi difícil conquistar parte do povo para o projeto guerreiro, uma vez que o orgulho nacional estava ferido por conta da derrota na Primeira Guerra Mundial, que impôs um humilhante tratado de paz à Alemanha.

Esse projeto guerreiro, no entanto, ao longo dos anos de conflito mundial (1939-1945), virou-se contra Hitler, pois a guerra começada logo se mostrou como alguma coisa que não podia mais parar; ela era o alimento da Alemanha, da burguesia alemã. Então, a cada invasão, Hitler não tinha mais como não criar outra invasão. A essa altura, todo o exército de Hitler já havia tido seu comando substituído por gente do seu partido. A Alemanha não tinha mais exército nacional, mas apenas o Nazismo Armado. Toda a nação não podia mais usufruir da vida, apenas da vida para a guerra, para a interminável guerra. Ficava claro, para todos, que tudo só terminaria ou com a Alemanha dominando o mundo ou, então, com a derrocada total. Esta última opção estava, aliás, no interior da filosofia da história de caráter cíclico, endossada por intelectuais nazistas. Hitler participava desse tipo de pensamento. Achava, inclusive, que se não fosse na vez dele, o ciclo da história traria um outro Hitler para repetir a façanha.

Mas, de fato, nunca se imaginou, na Alemanha, que os Estados Unidos viessem para o interior da Guerra. Se já não bastasse isso, Hitler achou que podia dar um passo decisivo para enfrentar todos, se ele derrubasse Stálin. Ali havia matéria prima para a sua indústria! Sua derrota  realmente começou aí, no inverno do grande país dos ursos, como, aliás, havia já ocorrido com Napoleão. Nessa hora, as indústrias alemãs já não tinham tanto lucro com o trabalho escravo dos campos de concentração, e o estado alemão começou um esforço de guerra enorme, que passou a dar prejuízo para toda a nação, para todo o país. O esforço da economia alemã, inicialmente interessante, começou a não bancar mais o “esforço de guerra”. Por outro lado, o “esforço de guerra” dos Aliados tomou corpo. O poderio americano na guerra começou a se fazer sentir.

No meio disso, os alemães deram início a um estranho movimento: vieram a perceber, ainda que paulatinamente, que a ditadura de Hitler fazia vítimas para todo lado, até mesmo dentro da SS. O ideal de raça pura, como ideologia, passou a fazer água. O “nacional socialismo”, um regime de extrema direita, feito para conservar o capitalismo, então, perdeu a Guerra. Foi incriminado mundialmente. Mostrou seu aterrorizante plano do Holocausto e se tornou o que é: o símbolo da barbárie, punida no Tribunal de Nuremberg.

Chamamos os movimentos de Supremacia Branca e outros movimentos xenófobos e racistas, hoje, de neofascistas. Sao movimentos anti-igualdade, anti-socialistas, anti-democráticos e, enfim, movimentos que destilam ódio contra minorias. Quem são? Com atuam? Eles querem levar adiante a bandeira da direita; alguns entre eles desejam posar de “intelectuais da direita”; pois isso os faz ter público, por serem “diferentes”, “rebeldes”, “anti-mimimi”, anti-politicamente correto etc.; mas nem todos esses grupos querem ser chamados de fascistas. Muitos se escondem sob o rótulo de “sou liberal conservador”, ou então sob a falsa informação: “sou de direita e o nazismo é de esquerda” (!). Todavia, defendem de fato políticas contra as minorias, e esse ideário é parte central do modo de vida fascista, é algo que faz parte do ideário do nazi-fascismo, e que tem a ver com a morte da democracia e com certo avanço da mentalidade que privilegia hierarquias militarizadas.

Como o neofascismo atua no Brasil?

Bolsonaro faz parte dessa história do neofascismo no Brasil atual. Ele agrupa gente que é simpatizante da ideia básica do nazismo: a aliança com os mais ricos junto do ideário da hierarquia forte e princípios anti-democráticos, mas de uma maneira nova: ao invés da estatização de algumas empresas para alavancar as outras (as empresas privadas), ele fala em privatização de tudo, ou seja, um favorecimento dos empresários por meio de um estado que não os ajuda diretamente sempre, mas os ajuda indiretamente, por meio de facilitações de não concorrência com empresas públicas. E junto disso ele promete, aí sim, um nítido enfraquecimento dos sindicatos e dos direitos trabalhistas – nisso, seu programa lembra bem o de Hitler.

Isso que Bolsonaro diz não funciona. É tecnicamente inviável. Nem no começo irá funcionar. Hitler durou um tempo. Trump está conseguindo dizer que defende um setor dos empresários americanos com a guerra comercial, e por isso está durando. Em ambos os casos é um surf inicial por conta do compromisso do estado com a burguesia. Bolsonaro não tem esse trunfo de Hitler e Trump, pois seu plano privatista vai empobrecer o país, não vai fazer a economia andar, e ele acabará desagradando os ricos, que não verão suas empresas voltarem a vender novamente. Por outro lado, por conta da sua face truculenta contra pobres e minorias, perderá também o apoio popular e verá as esquerdas no seu calcanhar. E elas, no Brasil, não são fáceis de quebrar não! Uma vez presidente, Bolsonaro descobrirá em menos de dois anos que o seu neonazismo deveria ter sido nacionalista, e como não foi, ficará atacado de todos os lados. Tendo um partido pequeno e sendo uma pessoa xucra, não tardará em enfrentar um Impeachment ou coisa pior. Se chamar Mourão para um golpe, pior ainda, terá um contragolpe daqueles de perder até mesmo as calças. Só Frota ficará com ele, então, sem calças.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

Foto: Hannah Reitsch, pioneira da aviação de guerra do nazismo. Veja a história aqui e tome ciência do fanatismo

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8 Responses “O que foi o nazismo? Bolsonaro faz parte dele? Entenda a questão.”

  1. Luciano
    24/09/2018 at 16:00

    Paulo o que explica um inepto e desajustado como este ser, ter tanta preferência do eleitorado? Só o anti-petismo não explica. A meu ver tem uma parte significativa da população que flerta com o fascismo (muitos sem ter consciência).

    • 24/09/2018 at 21:21

      Claro, escrevi isso, que ele tem uma agenda positiva de preconceitos para o Brasil

  2. Senhor potato
    24/09/2018 at 13:57

    Batata

  3. LMC
    24/09/2018 at 11:35

    UM ARTIGO QUE MERECE SER
    PUBLICADO NA PÁGINA 3 DA
    FOLHA!!!#prontofalei

  4. Orquídea
    24/09/2018 at 07:55
  5. Elizeu
    23/09/2018 at 14:48

    Caramba, ha ha. Seus textos são muito bons, não perco um.

  6. Lúcio
    23/09/2018 at 14:00

    Muito bom! Sempre lúcido. O senhor é um grande pensador! Obrigado.

  7. Ronaldo Ângelo
    23/09/2018 at 11:10

    A velha frase: o que é ruim se destrói sozinho.

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