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28/05/2018

O que é um clássico? Caetano, Adoniram, Mamonas, Vinícius e Anita


[Artigo indicado para o público em geral]

O hino de São Paulo foi feito por um baiano: Sampa, de Caetano Veloso. Só um gênio é capaz de amar o diferente e descreve-lo com maestria. A filosofia tem um lema que vale para a música: fazer filosofia lendo outros filósofos é sempre tentar entender esses outros de forma melhor do que eles mesmos se entenderam. Caetano fez isso com a estrondosa capital. Sampa não é de Rita Lee, é de alguém carente dela!

Sampa é um clássico. Talvez a melhor obra de Caetano. Algo equivalente, mutatis mutandis, à “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. Mas essa função do clássico, que é a captação do particular de modo a preservá-lo na tarefa de lançá-lo para o universal, em relação a São Paulo, teve também outros expoentes. Adoniram Barbosa fez isso. Os Mamonas fizeram isso. Se você vai ao Ponto Chic do Paissandú e come um Bauru, tem de fazê-lo sabendo que não foi o Ernesto que o convidou. Caso fosse, você não comeria o Bauru. Se você é paulistano e vai salgar a bunda em Santos no final de semana, trate de fazer isso numa Brasília amarela.

Caetano captou São Paulo por meio da erudição de uma MPB refinada. Adoniram e os Mamonas expressaram São Paulo por meio de um regionalismo imortal, um tipo de língua própria, que se se perder, fará mal para o patrimônio da Humanidade do mesmo modo que ocorreria se o Tupi Guarani desaparecesse de vez.

Não tenho cultura carioca para tecer os mesmos comentários em relação ao Rio. Mas tenho certeza que há um elo entre o Vinícius-Jobim empunhando uma “Garota de Ipanema” e os clipes de Anitta, em especial o último, “Malandrinha”. O essencial do clássico vivem ali: todas as praias do mundo esperam um dia poder virar Ipanema para serem praias, e buscam sua garota, sua melodia universal. Toda malandragem da cultura negra-americana, agora integrada na cultura hispânica, que invade o mundo, está em “Vai Malandra” de Anitta, no retrato especial do Morro do Vidigal. Ninguém pode tomar banho na lage se não for com a sensualidade de Anita. É como que um brand universal de certo lugar do mundo que pode estar em qualquer lugar. Sem “Vai Malandra” o Rio seria apenas o Rio de Michael Jackson, bom, mas não tão brasileiro e tão universal. Anitta é um novo Zé Carioca, com um Disney de 2017. Aliás, que se note: Anitta nem chega a cantar no seu clipe, trata-se de uma produção especificamente de entretenimento. Mas quem disse que Michel Jackson já não estava fazendo isso, quando veio ao Brasil?

Caetano, Adoniram, Mamonas, Vinícius/Jobim e Anitta são diferentes, claro. Mas são clássicos, ou quase! São bons. Excelentes. Não há o que comparar exatamente porque são gêneros diferentes. O entendimento do que é um gênero é fundamental para ser culto e crítico. Dizer que um é superior ao outro é alguma coisa que pode ser dita, mas não vale a pena conversar assim, nesses termos. Pois, para dizer algo assim, seria necessário compor um campo de confluência comparativo que tiraria do “gênero” o seu serviço. Gênero veio para diferenciar de fato, não para proteger mediocridade. Nos campos citados, o regionalismo conseguiu ser abocanhado, re-apresenta um lugar e uma época, mas ao mesmo tempo dá ao mundo o retrato que tem lá sua chance de voto na conta de se tornar um universal. Nos cinco casos, a candidatura a “clássico” é válida, ainda que, claro, Anita esteja em desvantagem porque ainda não foi batizada pela história.

Os nossos ouvidos e os nossos olhos são para cheirar o perfumes desiguais. Não se cobra do poema que é Bíblia que ele seja o tratado de Newton sobre gravitação universal. São regimes de verdade diferentes. Mas isso já é outra história, a história da cultura do ensino médio, que nos falta.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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32 Responses “O que é um clássico? Caetano, Adoniram, Mamonas, Vinícius e Anita”

  1. Hains
    14/03/2018 at 21:34

    Estava olhando alguns vídeos seus, tem vídeos muito bom, exemplo o “Explicando as Cotas Étnicas”, apesar de não responder ou colocar mais pontos de reflexão sobre o problema de definir quem é branco, parto ou negro, e também não explicou se o motivo do governo era realmente esse. Mas mesmo assim, esclarece bem muito bem, e parece muito válido a sua explicação.

    Imagino que você seja muito ocupado, mas seria muito legal, ver você fazendo vídeos sobre temas atuais, adicionando uma 3 forma de se pensar (ou refletir de verdade) sobre certos temas, até mesmo refazendo ou atualizando seus vídeos.

    O youtube se tornou muito polarizado, binário como você mesmo comenta, mas é uma ótima plataforma de alcance, baixo custo, r hoje tem várias formas de se monetizar um canal. Você com certeza adicionaria uma qualidade faltante atualmente nesta plataforma. Seria muito educativo ver você comentando, sobre temas polêmicos atuais, adicionando comentários, correções, provocações, sobre vídeos de outros, como do Karnal, Pirula, Pondé.

    Enfim, apenas uma opinião de quem admira seu trabalho.

    • 15/03/2018 at 06:41

      Hains eu fiz muito vídeo e até fizemos, Fran e eu, um programa de TV, O Hora da Coruja, por quase dez anos. O ciclo se encerrou. Talvez no futuro voltemos. Mas, atualmente, há muita baboseira e um juventude desescolarizada que não tem muito como distinguir o que é bom e o que é ruim. Fazer vídeo comentando esse tipo de menina de Internet que você citou, cansa e surte pouco efeito, pois quem procura vídeo em geral é o cara que quer conversa mole. Veja o que fizemos, em parte, no Hora da Coruja: http://horadacoruja.com.br

  2. Hains
    12/03/2018 at 20:34

    Sou da área de tecnologia, mas tenho gostado cada vez mais de filosofia, principalmente desta forma como você apresenta, que é adicionar mais elementos para reflexão, e não apenas debater para vencer uma discussão. Filosofia deve ser algo tão amplo como a tecnologia. Quais livros seus você recomendaria para um iniciante, um amador em filosofia, alguém que vê a filosofia mais como um hobby e não pretende ser um profissional da área?

    • 12/03/2018 at 22:34

      Hains, realmente filosofia-debate é tudo, menos filosofia. Desde o seu início o debate era dos sofistas, não de Sócrates.

  3. Hains
    09/03/2018 at 22:47

    Para ser sincero, não concordo com muitas das suas opiniões, e até acho tosco algumas de suas respostas.

    Mas fico encantado com sua capacidade de separar o filósofo da filosofia, da genialidade de colocar mais elementos ao debate, de esclarecer itens básico, separar as coisas.

    Espero que continue com esse trabalho, porque percebo claramente que está faltando ceticismo, a busca de um conhecimento mais profundo sobre ideias e conceitos nos debates, entre muitas outras coisas, que nem sei quais seriam as palavras certas para explicar.

    Parabéns pelo trabalho, que deve ser muito solitário muitas vezes, dado ao fato de vivermos em um mundo cada vez mais binário em seus pensamentos.

    Abraços.

    • 10/03/2018 at 01:10

      Hains, se tiver paciência, vá aos meus livros. Blog é blog, é jogo rápido.

  4. Orivaldo
    04/01/2018 at 21:23

    “Pode apagar o fogo mané, que eu não volto mais…” Aparentemente nada a ver comigo e com meu contexto , mas me agrada não pelo que fala de mim, mas sim pelo que apresenta de diferente e esse diferente preenche um pouco do que me falta.

  5. Matheus Tudor
    27/12/2017 at 01:38

    Quando alguém vem com aquele papo de qualidade musical dizendo que funk não presta etc eu fico entediado da pessoa não perceber a diferença de gêneros e seus respectivos contextos sociais, critérios e funções. Em seguida busco algum exemplo claro e falo: pois bote Bach numa boate pra ver se alguém irá considerá-lo música de qualidade. Mas meu interlocutor insiste dizendo que “público de boate só sabe o que é tum ts tum”. Muitas vezes a resposta não é diferente mesmo que se acrescente que a entrada da boate é cara e o público mais “selecionado” como dizem por aí, ou falar de um pub, ou algo que o valha. Largo de lado.

    • 27/12/2017 at 11:27

      Matheus, o bolsonarismo e o lulismo são frutos de um Brasil que não sabe o que é gênero literário, musical, etc. Essa incapacidade é um termômetro.

    • LMC
      27/12/2017 at 12:39

      Tem gente que prefere Anitta.
      Eu prefiro mesmo a atriz que
      faz a Haley da série Modern Family.

  6. Ramiro
    26/12/2017 at 18:42

    A Anita do clipe é a garota venal… nossa teúda e manteúda. Certamente universal.

  7. Ramiro
    26/12/2017 at 18:19

    Ah se a Anita fosse gaúcha e fizesse o tal clipe aqui nas vilas, recrutando as loirinha gringa de olhos azuis daqui. Ia quintuplicar o número de Lupicínio Rodrigues nos bares.

    • 26/12/2017 at 19:43

      Que sorte que ela não é gaúcha, assim eu salvo do sotaque.

  8. Ramiro
    26/12/2017 at 17:39

    Ah, essa lá em casa! Não reclamaria da mesada ou circunstâncias que a dissessem respeito.

  9. Luciano Silva
    26/12/2017 at 09:32

    Eu concordo com o argumento, de maneira geral. Mas acho um exagero já considerar “Vai, Malandra” um clássico. Um dos atributos do clássico é sua permanência: passa o tempo, ele fica. No caso da música/clipe da Anitta, que eu adorei, ela foi lançada há apenas uma semana.
    Um clássico do funk carioca? O Rap da Felicidade (eu só quero é ser feliz…). Vai Malandra pode ser, mas ainda não é.

    • 26/12/2017 at 10:57

      Luciano, leia de novo. Você leu rápido demais.

  10. josé fernando
    24/12/2017 at 16:17

    Estou chocado com sua ignorância musical! Desejo que em 2018 você ainda possa conhecer e quiçá apreciar Heitor Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros, Radamés Gnattali, Jacob Pick Bittencourt e o gênio maior Alfredo da Rocha Viana Junior, brasileiros sérios que fizeram Música com “m” maiúsculo mesmo.

    • 24/12/2017 at 20:30

      José Fernando estou chocado com sua ignorância geral. Seu analfabetismo não percebeu que o texto NÃO fala de música! Meu Deus. Faça o ensino médio.

  11. Roque
    24/12/2017 at 12:06

    Caro professor Paulo. Gostaria que você esclarecesse melhor a noção de clássico utilizada no texto. No senso comum o termo é entendido como aspecto diferenciador, distintivo da entidade em relação a um conjunto, confirmado por uma perspectiva histórica. De modo geral, é utilizada em um sentido hierárquico, pois possui uma relevância sobre outros. Tenho dúvidas quanto ao uso do “topoi” da mulher carioca para considerar o clipe-Anitta um clássico. Em uma das suas respostas consta o seguinte: “Clássico é o que guarda no universal o particular e vice versa”. Sua argumentação é perfeita no sentido de que reside em um gênero (Um “princípio de nascimento” como colocou Porfírio, uma multiplicidade que tem uma relação de unidade). O aspecto diferenciador do gênero é suficiente para atestar um clássico? Afinal, você mesmo colocou: “são clássicos, ou quase!”.

    • 24/12/2017 at 20:32

      Roque o clássico tem um adendo a mais do que eu disse: originalidade com singularidade, e isso só o tempo é testemunha.

  12. emisson
    23/12/2017 at 10:46

    Interessante esta característica que o senhor descreveu no texto sobre o particular-universal e vice-versa. A careira da Anita é muito isso, ela saiu do particular para o universal e depois voltou para o particular com esse nova música, mas sem sair do universal. Anita fez de si mesma uma heterotopia foucaultiana. Agora paulo tenho uma dúvida sobre os gêneros, por que não podemos fazer comparações de gêneros díspares? mesmo fazendo parte do mesmo conjunto?

    • 23/12/2017 at 11:23

      Emisson, 1) não vamos exagerar o papel de Anita. Anitta é o clipe-Anitta. É diferente de Adoniram, que se posto em clipe, estraga. 2) É uma tolice comparar um poema histórico-moral, como a Bíblia, com um livro científico sobre a Origem do Universo. Isso é simples de perceber, não?

    • emisson
      23/12/2017 at 13:21

      Mesmo que haja um critério universal de comparação?

    • 23/12/2017 at 17:53

      Emisson o artigo é simples, como pode você não ter entendido?

    • emisson
      23/12/2017 at 22:04

      Eu entendi. Mas somente a sua perspectiva. Dá para ir além do artigo.

    • 24/12/2017 at 20:36

      Emisson você está me fazendo ir além da conversa sobre gênero, e ir para a conversa sobre música, no qual não me arrisco. Veja o não entendimento do doutor em música, José Fernando, leitor acima que ficou raivosinho. Ou então você quer que eu explicite mais sobre paradigmas e incomensurabilidade, coisa que não faz sentido, pois o que disse já está claro: não estamos comparando a mesma coisa. O entretenimento Clipe-Anita é show tanto quanto o entretenimento Sampa, de Caetano, mas só o colocamos junto no campo da mídia e do Entretenimento, quando vamos a eles em suas tarefas específicas, eles se revelam como incomensuráveis. Não faz sentido querer avaliar o “som” em clipe-Anita e lírica de Sampa, em clipe ou não. Entende?

    • emisson
      26/12/2017 at 00:43

      Minha dúvida é exatamente sobre comensurabilidades e paradigmas.Mas como o senhor falou que não faz sentido fazer tal comparatividade, por causa das especificidades musicais de cada artista fora do âmbito áudio-visual e do entretenimento, não mais insistirei neste assunto em específico. Mas veja bem, se não há um critério de comensurabilidade neste exemplo em particular, entre som e entretenimento, em outras situações onde o âmbito análogo, esta comensurabilidade também se torna fútil ou inexistente? Você o exemplo da bíblia e do tratado científico de Newton.

    • 26/12/2017 at 10:58

      Emisson a comensurabilidade em teoria foi estudada por Donald Davidson, tenho um livro sobre ele, dá uma olhada.

  13. 23/12/2017 at 00:33

    Pode-se dizer que Anitta vai além do óbvio, seja nas suas letras, sua sensualidade e mesmo ao utilizar termos que deixam conservadores raivosos, poderia também dizer que hoje ela é uma amostra de uma mulher emancipada?

    • 23/12/2017 at 09:51

      Enoque Anita, eu deixei bem claro no texto, é showbusines. Querer que Caetano se expresse dançando é um erro. Querer a Bíblia uma verdade científica é outro erro. Escrevi para que possamos pensar em gêneros literários, artísticos etc., e mostrar como o adjetivo “clássico” cabe a cada um segundo critérios próprios mas, também, segundo critérios gerais do que é realmente clássico. Clássico é o que guarda no universal o particular e vice versa.

  14. Fábio Fleck
    22/12/2017 at 20:01

    Há muito tempo venho percebendo a Anitta. Não gosto desta música, nem deste estilo, mas algo que chama muito atenção é a voz dela. Mesmo não sendo seu estilo favorito, aparece algo em suas músicas que chamam atenção. E na maioria das suas músicas, etendo que ela tem muito êxito. Ela aproveita o máximo da música. Isso é muito interessante. Acredito que a interpretação é um dos fatores para compôr um clássico.

    • 22/12/2017 at 20:22

      Anita tem antes de tudo beleza, mas a pegada tende ao que pode ser clássico: o regional servindo ao universal

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