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16/11/2018

Por que as minorias (até os veganos!) incomodam tanto os reacionários?


[Artigo para o público em geral]

O século XX inventou “as massas”. Elas seriam as novas protagonistas da história. E de fato, ao menos em um certo sentido, tanto o comunismo quanto o fascismo e, de certo modo, até o liberalismo, se fizeram sentir por meio de grande marchas coletivas. No entanto, esses grandes movimentos sempre se desmentiram em seus bastidores. Pois a grande preocupação deles foi com as minorias sociológicas (étnicas, religiosas, artísticas, culturais etc.), que muitas vezes também eram minorias numéricas.

O fascismo se preocupou com judeus, ciganos, homossexuais e outras minorias. O comunismo soviético se preocupou em russificar o novo império, oprimindo uma série de nacionalidades laterais que, enfim, hoje reagem de modo ultra nacionalista contra o novo reino, o de Putin. Na Ilha de Cuba, todos sabem, Fidel não criou um socialismo diferente. Não quanto à preocupação malévola com minorias – homossexuais e mulheres à frente. O liberalismo importou isso, mesmo que paradoxalmente. A democracia liberal que protege as minorias o faz somente se elas se integram rapidamente no consumo de marcas que lhes dão um feedback para as suas subjetividades identitárias (cada marca, hoje, não vende produtos, mas antes de tudo dá um rosto para um grupo).

Por que esse horror das minorias se, enfim, todos esses movimentos vieram no bojo da crença que seriam as massas  que trariam o progresso, o novo e a felicidade? É que no lá no íntimo de todos os grandes incentivadores de grandes movimentos sempre esteve o saber correto de que as minorias são o motor de mudança.

Não foi a cultura sofística ou a cultura homérica que trouxe o novo para Atenas, mas sim o pensamento de uma minoria, a dos filósofos. Não foi o cristianismo enquanto religião já emponderada em forma de Igreja que trouxe o novo para a Europa, e sim as comunidades herdeiras de Jesus enquanto religião de um grupo de judeus. Hoje são, novamente e como sempre, as minorias que protagonizam as grandes mudanças: mulheres, população LGBT, negros, índios, grupos étnicos outros, portadores de necessidades especiais, grupos de defesa ecológica, veganos etc. Essa gente é que traz o novo para a sociedade. As sociedades mudam exatamente no sentido oposto dos movimentos conservadores, restolhos do nazismo ou do comunismo, ou mesmo dentro do liberalismo hegemônico. Por isso, os reacionários de todos os matizes são inimigos das minorias. Tentam ridicularizá-las, e quanto mais fazem isso, mais elas se difundem. Há uma marcha inexorável das minorias.

Quanto mais Trump luta contra estrangeiros, contra latinos e negros, mais as novidades dessas culturas penetram o sede do Império e se tornam mais influentes. O Império Romano viu isso. Nós notamos isso no Brasil. Aliás, a projeção matemática aponta que em menos de 200 anos, se as coisas caminharem como estão indo, deixaremos de ser consumidores de carne. Os capitalistas inteligentes já perceberam isso. O mesmo se dá com a indústria de cuidados com cães. Nada mais cresce no mundo, e especialmente no Brasil, que a indústria do alimento vegano e a indústria e comércio em torno do “mundo Pet”. Qualquer investidor analista de mercado a médio prazo sabe disso. Aliás, é interessante notar que ambas as indústrias crescem em proporção, e em alguns lugares em números absolutos, muito mais que a indústria bélica. A indústria de armas vem se desesperando com os movimento anti-caça e pacifistas no mundo todo.

A novidade, o germe da dissidência, a criatividade contra o mesmismo é de confecção própria das minorias sociológicas. Quando vemos gente preocupada em escrever contra elas, tentando ridicularizar grupos “protetores de tartarugas” ou “veganos” etc. , podemos notar que essa gente tem lá sua razão de se assustar. Elas não querem que o mundo injusto desapareça. E o mundo injusto é o existente. Qualquer mudança, se aponta para o melhor, pode dar certo se vier por conta de movimentos de minoria. Pois pior que está é difícil ficar, isso se considerarmos uma visão global sobre riqueza e pobreza. Os reacionários lutam desesperadamente, então, para que nada mude. Sua arma é o discurso de que quem quer mudança, quem quer “um mundo melhor”, é ingênuo, bobinho. Ora, se tal pessoal é bobinho, por que tamanha preocupação com eles?

Ler Cioran para ser pessimista e contra os homens que lutam por um mundo melhor é não ler direito Cioran. Se isso é feito em nome de Nietzsche, então, a burrice é ainda maior. Cioran e Nietzsche denunciaram o fanatismo, o que é muito diferente. Aliás, denunciaram o fanatismo também dos pessimistas que, aliás, enquanto reacionários, são sempre os mais fanáticos.

Os assassinos de animais conscientes, que defendem “laboratórios” de maus tratos, não defendem a ciência, defendem apenas a crueldade com que eles próprios foram criados. É visível isso quando olhamos no rosto dessas pessoas. Elas são sempre aquelas que estiveram do lado de lá da “Revolução do Beagles”, lembram? Elas são os que perderam aquela batalha.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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6 Responses “Por que as minorias (até os veganos!) incomodam tanto os reacionários?”

  1. Emerson
    12/09/2018 at 14:17

    Enquanto alguns querem fazer gracejos desnecessários, acabei de Ler um artigo que nutre as esperanças.

    No bojo de muitas interpretações possíveis do professor, eu destaco duas que me são caras:

    1* Inteligência é sinônimo de Bondade (aprendi em Kant e reforcei agora, com o professor).

    2* A idéia de integração das minorias, sem que nessa integração haja, de fato, uma relação, é a instrumentalização das minorias na integração com o todo.

  2. Gabi
    11/09/2018 at 23:08

    Vc é rigoroso as vezes, mas é notável sua empatia.

    • 12/09/2018 at 08:13

      Gabi o rigor do filósofo tem de estar em sintonia com a melhoria de nossa vida no sentido da diminuição da crueldade. Fora isso, a filosofia não vale a pena.

  3. wndyr sachisida
    16/08/2018 at 10:52

    guilherme, temo atambém que você sej uma categoria em franca extinção nos dias correm!(risos)

  4. Guilherme Hajduk
    13/08/2018 at 23:07

    Eu sou vaginatariano e não abro mão!

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