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11/12/2018

Existe “consciência negra”, mas não existe “consciência humana”


[Artigo para o público em geral]

Existe “consciência negra”, mas não existe “consciência humana”. Isso é uma verdade, se estamos na sociologia. E, no caso, estamos na sociologia.

Consciência humana é toda e qualquer consciência. Assim, “consciência humana” é uma expressão toda, unificada, em que o “humana” funciona não como adjetivo do substantivo consciência, mas apenas como uma peça reiterativa.

Na sociologia, não faz sentido falar em “consciência humana”, pois a ideia de consciência X ou Y está ligada à ideia de identidade social. Há, então, “consciência negra”, “consciência operária”, “consciência feminista” etc. Identidades sociais são formadas por tais “consciências”, ou seja, a capacidade de ter um pensamento próprio, um modo cultural e determinado de apreciar o mundo e de se reconhecer no mundo como um diferente a partir da inserção em um grupo. Faz sentido dizer “eu sou negro e não tinha uma consciência negra, agora tenho”. Não faz sentido dizer “eu sou humano e não tinha uma consciência humana, agora tenho”. Quem não entende isso vai insistir, erradamente, em querer destituir de importância as datas referentes à “consciência negra”. Fazendo isso, na certa estará contribuindo exatamente para o arrefecimento dos ganhos trazidos pela consciência negra.

“Consciência negra” enfatizada em um dia, uma semana ou um mês não é bobagem. É através de periodizações desse tipo, que atraem a mídia e outros elementos formativos e informativos, que uma “consciência” abre espaço para que elementos empíricos possam criar suas identidades sociais de minorias. Isso se faz necessário para que não tenhamos apenas uma massa de carne humana vivendo, mas homens e mulheres inseridas em culturas distintas, capazes então de nos dar nosso melhor, que é a criatividade gerada pela diferenciação de necessidades, gozos, aspirações e epistemologias.

A “consciência X” é sempre uma qualidade não empírica. Nenhum homem ou mulher a possui, ela e uma expressão significativa ou, para alguns filósofos, um conceito. Utilizamos do conceito para saber o quanto, na nossa vida cotidiana, no mundo empírico, agimos e pensamos segundo os dispositivos normativos do conceito ou não. “Faltou-me consciência de negro”, pode dizer um negro que não percebeu que deveria buscar a lei antirracismo para se proteger ou para denunciar uma injustiça. Ninguém diria “faltou-me consciência humana” ou “ele não tem consciência humana”. O que se diz é: “ah, faltou-lhe humanidade”, ou seja, ele não agiu como os humanos devem agir quando se diferenciam das bestas por X ou Y.

Época de “consciência negra” é época em que as pessoas podem dizer para o Demétrio Magnoli e outros empertigados que negro não é cor da pele, mas cultura, e ninguém é negro, as pessoas se declaram negras se se inserem na cultura negra. As cotas, portanto, são para os que se declaram negros, e avalia-se isso pela boa fé e pela razoabilidade de se reconhecer quem pertence e quem não pertence a uma dada cultura declarada. As cotas não precisam de tribunais. As cotas são para que minorias se integrem rapidamente no seio da maioria, ainda que preservando sua identidade. A política de cotas é solicitada exatamente por quem não é só negro, mas é negro com “consciência negra”, e pelo branco inteligente que entendeu que acelerar o processo de diminuição de preconceitos é acelerar uma bola de neve necessária.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

PS: escrevi o que escrevi acima porque temo que dia 20 de novembro Bolsonaro já esteja dominando o governo Temer, e que já não tenhamos mais o Dia da Consciência Negra. Vamos resistir.

 

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20 Responses “Existe “consciência negra”, mas não existe “consciência humana””

  1. Joao Bosco
    04/12/2018 at 21:35

    Poxa professor, era so dizer sim ou nao, pra eu me corrigir kkkkk

  2. Joao Bosco
    02/12/2018 at 00:22

    Eu aprendi com voce que o filosofo traz o particular para o universal, como kant disse na etica, se voce pode universalizar, se o mundo todo pode usar a regra, entao e` etico, entao a etica, a subjetividade, os paradigmas, visoes de mundo nao seriam a filosofia tentando formar uma “consciencia humana”, mesmo que talvez no campo da utopia?

  3. Joao Bosco
    02/12/2018 at 00:05

    Entendi perfeitamente a afirmacao, pois estamos na sociologia, e se eu sair da sociologia e for pra filosofia? Quando a filosofia retrata a cosmovisao de cada epoca, como o humanismo grego, como o humanismo secularista do renascimento, como o homem iluminista, como o paradigma cientificista da revolucao cientifica e do positivismo, como o homem sujeito da propria historia desde o renascimento, talvez mais ainda sujeito da propria historia no contemporaneo, passando pelo marx que disse, proletariado uni vos, sob a premissa de que a historia e` materialista, ou seja, uma construcao humana, sem o transcendente, tendo em vista isso, mais talvez o homem autossuficiente economicamente e com liberdade de pensamento do liberalismo etc, nao podemos falar de consciencia humana na filosofia? veja bem,nao quero dizer que voce exclui essa possibilidade, apenas quero saber se estou no caminho certo

  4. Márcia Caetano
    20/11/2018 at 19:49

    Ghiraldelli, como você suporta uma pessoa rasa e desagradável aqui no seu blog como essa Karina Shutz. Ela não entende nada do que é ser um filósofo, assim como não entendeu a crítica que você lançou quanto aos gurus, estilo Pondé. Tudo o que você pede é para ir além, é para alguém ir além do que é dito e refletir encontrando as suas próprias saídas. Esse tema da INVEJA é o que tem de mais baixo. Por que será o próprio PONDÉ teve que citá-lo? Será que a Karina consegue entender porque o Pondé, do alto de sua sapiência e magnanimidade teve que citar o professor Ghiraldelli? PONDÉ é um embuste. Ele e o Olavo doente.

    • 20/11/2018 at 19:56

      Márcia, eu nem sei se é verdade que o Pondé veio falar de mim. Ele tem um medo lascado de mim. Ele se pela de responder publicamente minhas críticas, tenta jogar panos quentes respondendo em privado.

  5. rick luchesi
    14/11/2018 at 20:07

    o senhor não gosta do edgard morin? por quê?

  6. Rodrigo da Silva
    12/11/2018 at 15:43

    Se ainda o Ghiraldelli tivesse a inveja de um Edgar Morin, mas sofrer inveja de um bosta é o fim da picada…

    • 12/11/2018 at 21:34

      Nem de Edgar Morin, eu invejo os bons: um Sloerdijk, um Rorty…

  7. Karina Shutz
    12/11/2018 at 15:32

    Paulo, Não adianta você afirmar que não tem inveja do Pondé. Tem e pronto, basta estudar a Psicologia e logo descobrirá que reside em toda crítica a inveja juntamente com o ódio. Só se você inventasse outro idioma seria diferente. Por enquanto, há a Língua Portuguesa e nela toda crítica carrega algo de inveja. Inveja, por exemplo, porque ele estudou menos do que você e faz mais sucesso, é mais famoso, tem mais gente no canal do Youtube, vende mais livros etc. Tantos assuntos para você se ocupar na vida e vive se ocupando dele, é porque morre de inveja. Não apenas dele tem inveja, mas do próprio Bolsonaro e também do Olavo de Carvalho, por isso o seu discurso é cheio da falácia ad hominem. É a prova cabal disso, que você está muito longe de ser um Filósofo porque é incapaz de comentar ideias, pensamentos, perspectivas, mas fica com críticas invejosas e que o não levarão a lugar algum.

    • 12/11/2018 at 21:39

      Karina, sinto lhe informar, mas você não tem a mínima ideia da razão de eu ser filósofo. Nenhum filósofo que é filósofo quer ter sucesso, êxito em ser famoso. Quem quer isso, é tudo, menos filósofo. Nós filósofos interessamo-nos, se somos verdadeiros, pelo espalhar de ideias que melhorem a vida dos outros. Você caiu na armadilha do Pondé, que é confundir ser filósofo com ser cantor. Muitos que vivem do dinheiro, da fama e do fato e não conseguir o amor desejado, sua vida. Eu estou com a raça de filósofos, sigo meu curso, e com direito a criticar outros que querem ser blindar com essa ideia de inveja. Consegue fazer uma ideia sobre o que é isso? Acho que não … você parece dominada pela ânsia de projeção do Pondé, como critério de ser alguém. É triste isso. (ha, um detalhe: vendi muito livro, cheguei a esgotar 24 edições de O que é pedagogia – essa não é a questão minha cara).

  8. Paulo Jacinto de Menezes
    12/11/2018 at 13:00

    O Filósofo Luiz Felipe Pondé disse recentemente em um auditório, durante uma palestra: ”A fama, o sucesso e o prestígio causam inveja. Vejam o caso, por exemplo, do Professor Paulo Ghiraldelli: por mais que me critique nas mídias sociais, sofre de uma inveja imensa de mim. Porque Sou Filósofo e ele não é, nunca foi. Tudo o que escrevo e falo ele faz questão de saber e depois comentar. Eu sou muito importante e significativo para ele”. A plateia morreu de rir…

    • 12/11/2018 at 14:05

      Bem, ele me comentou né? E ele escreve no jornal e não quer que o critiquemos; se criticamos, temos inveja? Isso é ser filósofo? O cara se diz filósofo e não pode sofrer críticas? Ele é estranho, porque sai pela tangente com a questão da inveja e não me refuta. Eu o refuto

  9. rick luchesi
    11/11/2018 at 15:10

    Paulo, mais uma vez trago-lhe um personagem não muito agradável para a sua análise, se quisere, claro. trata-se, hoje, do historiador marco Antônio vila, da rádio jovem pan, que agora tamém é comentarista político, disse que o dia da consciência negra, 20 de novembro, é uma verdadeira “empulhação”, uma tremenda “mistificação”, pois zumbi dos palmares é uma mera “”invencionice” do movimento negro no brasil. ele, além de seu insano antipestimo, agora namora com a extrema-direita que, outro dia, ele mesmo, tachou o próprio Olavo de carvalho de “extrema-direita perigosa”! esse homem, Paulo, é um caleidoscópio ambulante, o que no meu tempo de menino era chamada a pessoa que mudava de opinião a cada ventania mais ou menos a favor ou conra: “furta-cor”! vila, para mim, é um amálgama de torquemada com savonarolla! o senhor bem sabe quem foram esses dois doidos, um na espanha e o outro, na sua ancestral Itália renascentista! e da minha, também! (risos)

  10. Julio Maximiliano
    10/11/2018 at 12:28

    O que leva uma pessoa a discriminar? Qual é a visão que ela tem do outro? Pelo que minha Professora disse, tudo está na maneira como enxergamos as coisas. Ela disse que o negro esteve como escravo, o que poderia acontecer ao contrário, e isso é visto como uma questão de inferioridade. “Parece que o negro está tentando ocupar um lugar que não lhe pertence e isso é um absurdo”, seria essa a visão de muitos? Ainda, não estou muito certo disso, mas quero ver se as chances para os negros são mínimas.

  11. LMC
    09/11/2018 at 15:44

    PG,o dia da Consciência Negra vai
    continuar porque não é um feriado
    nacional.Isso varia de acordo com
    cada cidade/Estado.

    • 09/11/2018 at 22:31

      LMC você tem uma dificuldade com meus textos. Eu disse que ele ia acabar?

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