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16/12/2017

Eram os gays astronautas?


Era garoto quando vi na biblioteca do meu avô o que logo depois seria o maior best-seller lixo de todos os tempos, fora o Mein Kampf., claro. Lá estava: Eram os deuses astronautas? Sabem o ano? 1968. Escrito por um suíço. Se todos estavam preocupados em mudar o mundo, os suíços, donos de relógios e dos bancos, também estavam, mas ao seu modo: a salvação já teria vindo – e do céu! Literalmente. Bastaria encontrar o fio da meada.

Foi uma delícia ler aquilo aos dez anos idade, embora nesse tempo eu já levasse mais a sério os estudantes mais velhos nas ruas e menos os marcianos. Mas apesar da infantilidade do livro, depois de muitos anos, percebi que uma fagulha da ideia ficou, e talvez tenha sido sempre a mesma que, de tempos em tempos, faça gente séria viajar junto com o ET de Varginha e voltar. Juventude revoltada nas ruas pode mudar o mundo – e de fato 68 mudou tudo, mesmo que seus protagonistas tenham achado que não. Mesmo que alguns tenham, depois, viajado para a Índia etc, 68 mudou as coisas. Mas a ideia de que há alguma outra civilização no espaço sideral, que sabe tudo, que pode nos explicar quem somos e como fazer para acertar mais a vida na Terra, tem lá seus méritos de devaneio que passa pela cabeça até de gente com quase todos os parafusos no lugar. A NASA nunca foi só um experimento militar!

Nos tempos mais recentes, começamos a ver nas minorias essa capacidade de serem marcianos astronautas. Mulheres, negros, ciganos, gays etc. têm tido a sua chance. Alguns de nós torce por eles para que se igualem conosco, os de não minorias. Outros torcem porque são um deles. E há os que, como eu talvez, sejam ainda crianças, de modo a imaginar que eles poderiam ser astronautas. Eles poderiam dar um passo além da cidadania definida por Hannah Arendt, “o direito de ter direitos”. Confesso que nos anos noventa tomei os gays como podendo instaurar uma nova vida na Terra, uma mudança semântica capaz não só de reivindicar direitos, mas de criar novos direitos – inusitados direitos vindos de inusitados costumes que surgiram da cabeça astronáutica dos gays. O casamento gay não faria o casamento ganhar outro rumo e o amor gay não faria o amor mudar de rosto? Não seria o cupido gay um rapaz com a seta melhor afiada? Talvez todas as minorias possam recriar a capacidade de criar direitos. Esses novos direitos seriam tão novos que instaurariam uma civilização muito melhor que aquela que poderia ser construída se os astronautas nos descobrissem de novo.

Estou para dizer que esse meu ingênuo e louco pensamento não esteve em minha cabeça somente. Muita gente pode ter pensado assim, durante esses últimos cinquenta anos no Ocidente. Os filmes de ficção mostram isso: Seres estranhos, porém com traços humanoides, chegam até nós e nos ensinam coisas que só os bons entre nós pode aprender. É como se gays, por exemplo, pudessem redefinir o amor, dando-nos condição de termos casamentos perfeitos, relacionamentos sublimes e tesão eterna. X-Men é uma versão tosca disso.

Não sabemos o quanto isso é verdade, sobre as minorias, pois estamos no meio do experimento. Os negros ainda são discriminados, as mulheres no poder se revelaram corruptas de igual modo e também estão sob regras do masculinismo, e enfim os gays ainda não puderam viver a normalidade de seus relacionamentos a ponto de escreverem: “é assim que se faz”. Ou não é isso? Ou no fundo vai vingar a ideia da existência de uma “natureza humana”, que faria o romano antigo ser igual a nós, e faria o gay repetir tudo que há de ruim no casamento hétero? Seremos sempre os mesmos, como nossos pais? Teria sido diferente se vingasse o leito do Neanderthal, e não o nosso? Essas são as perguntas que residem em bilhete do criado mudo de filósofos que apostam em minorias. E filósofos que não apostam duvido que sejam filósofos!

Alguém tem que saber o segredo que nos faça sermos “versões melhoradas de nós mesmos” (Rorty)! É isso que nos tem feito amigos intelectuais de minorias, lateralmente à amizade emocional. É isso que nos tem feito duvidar que só 68 mudaria tudo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 04/12/2017

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