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20/10/2018

Como surgiu o preconceito em relação a negros? Solidariedade ao professor Thiago dos Santos


[Artigo para o público em geral]

Ele foi agredido em sala de aula. Humilhado. Pediu ajuda. Escutaram, mas não ajudaram. Ele percorreu os corredores da escola e, dpois, da burocracia. Seus superiores não lhe deram cobertura. Ninguém lhe deu atenção. Chorando e desesperado, abandonou o trabalho como professor (veja reportagem aqui). Essa é a história recente de Thiago Santos, professor no Rio de Janeiro. História tão dura quanto a da advogada negra que foi algemada em serviço! História que se repete em vários lugares do Brasil, e que não chega aos jornais.

Ele foi agredido por ser professor. Mas, por que não o escutaram? Por ele ser professor negro. Por ser negro!

O Brasil precisa sim de cotas, que é para que mais negros ocupem lugares de trabalho não braçal, mais rapidamente. Só assim um professor negro será algo normal, e aí o preconceito irá diminuir. Não há preconceito? Todos sabemos: há. E há até racismo no Brasil. A TV cansa de mostrar isso, e só os bolsonaristas e os de olhos tapados não querem ver. Como surgiu o preconceito em relação ao negro? Não é algo sobre cor da pele. É algo em que a cor da pele identifica o elemento que é visto como vindo de uma cultura inferior, de um “estado selvagem”.

O preconceito nasceu pelo fato do negro ter vindo de tribos – a não-civilização. Esse foi seu passo inicial. Mas ele ganhou vida por conta do negro, trabalhando sob ferros, ter tentado fugir. Eis o que era dito a cada fuga: “Ah, quer fugir do trabalho né?”  Não era dito “quer fugir da prisão e do chicote”, mas sim “do trabalho”. Trabalhar a ferros tornou-se o normal para o negro, num regime tão longo de escravidão como foi o nosso (o maior da América) . Isso gerou o preconceito: “negro vagabundo”. Depois, com a libertação, muitos negros ficaram à margem da sociedade, em todos os sentidos. Foram jogados para os morros, geraram as favelas, e novamente veio o preconceito duplicado: “negro só trabalha sob chicote mesmo”. Desescolarizado, na miséria, posto para fora de todo lugar, o negro cada vez mais foi visto fazendo o trabalho braçal, então como trabalhador assalariado, e recorrendo à cachaça, uma vez que não tinha a cocaína dos brancos para aguentar a modernidade. E o preconceito se triplicou: “negro só serve para isso, para o trabalho braçal, um negro doutor é um absurdo”. Desse modo, não foi só pela escravidão que veio o preconceito, mas pelo que se sucedeu após a abolição, como fruto das mazelas, claro, da escravidão.

Não há negros nas universidades e no emprego público não-braçal. Ou seja, o Brasil é um país de maioria negra, e no entanto o negro não aparece como juiz, delegado, professor, médico, engenheiro, escritor e outras profissões não braçais. E há gradações de cor. Se você vê dez trabalhadores da prefeitura cavando um buraco para atingir um esgoto quebrado, pode acreditar: o chefe que está tomando conta dos trabalhadores negros é um branco, que não pega na picareta; e na hora de descer no buraco para encontrar o esgoto, naturalmente desce o mais escuro entre os negros. Cansei de ver isso. Cansei de ver isso na cidade de São Paulo.

O preconceito vira conceito: modo de vida. Uma mãe negra ama todas as suas filhas, mas faz mais sacrifício para que a mais branca estude, pois vê nela mais chances de uma porta para fora da pobreza. É uma intuição perversa, mas correta. Maldita por ser correta. Se o branco vê isso, e não entende a situação, é capaz de acusar a mãe de racismo. É capaz até de dizer que o racismo é fruto do negro contra ele mesmo. Muitos neofascistas dizem isso. Liberais conservadores seguem os neofascistas nisso. Arrotam a frase: “não há dívida histórica nenhuma para com negros, eu não os escravizei, eu não tenho preconceito”. E há até o liberal-bandido que diz: “não vou dar cota não, isso é achar que o negro é incapaz, isso é racismo”. Ele sabe que não é. Sabe que a cota é o modo de diminuir o preconceito, mas inventa esse argumento por uma razão simples: uma sociedade negra mas com cultura hegemônica branca lhe dá mais chance – esse tipo de branco não ajuda o país. E quando um  negro segue isso, ajuda menos ainda – segue o antigo capitão do mato.

Os professores são humilhados. Todos os dias. Salarialmente e de modo físico. Mas são relativamente ouvidos. O professor negro, pode morrer em sala de aula, ninguém virá ajudá-lo. O diretor da escola não fará nada. Esse é um fato muito triste, mas, tão triste quanto, é eu ver que na Internet sempre aparece algum palestrante para dizer que a cota não vale nada, que não tem legitimidade ou, pior, que é racismo. Até colunista de jornal liberal é capaz de dizer isso sem ficar vermelho! Essa gente está em conluio com os que não ajudaram o professor Thiago. Essa gente diz de si mesma: “somos os homens de bem”. Querem até andar armados – se deixar atiram no primeiro negro à frente: “ladrão!”. Vão imitar a polícia.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

Foto: professor Thiago de um Ciep do Rio.

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4 Responses “Como surgiu o preconceito em relação a negros? Solidariedade ao professor Thiago dos Santos”

  1. LMC
    22/09/2018 at 12:00

    PG,deixe essa coisa de querer que Lula
    apanhe de chicote.Deixe esse serviço
    pro Pondé,Villa,Olavo,Paulo Guedes,Mourão
    e pro seu ex-vizinho malufista.

    • 22/09/2018 at 14:09

      LMC eu quero bater de chicote não só no Lula, mas no seu lombo. Eu sou livre e faço o que quiser. Não me encha o saco.

  2. aristeu chamberlain
    21/09/2018 at 21:44

    em outro artigo seu, o senhor diz que o racismo de hoje não é mais o mesmo de monteiro lobato, calcado no darwinismo social e na eugeni, doutrinas reacionárias de cem anos atrás, no brasil e no mundo.mas, ser´tais ideias, desaprecidas dos meios acad~emicos, desde os fins da segunda guerra mundial, com a descoberta e divulgação dos crimes nazistas, ainda não persistem, pelo menos no senso comum das pessoas?pois, todo momento esbarro com alguém dizendo tais barbaridades sobre os negros e outras minorias sociol´gicas. penso que muita gente é “darwinista social” e não sabe. ou são boçais, mesmo, e não sabem, também!

    • 22/09/2018 at 02:10

      São posições diferentes sim. Cada uma tem seu custo.

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