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15/08/2018

Um conto feminista da Mongólia


[Mini conto para o público em geral]

O humor de Voltaire é senão famoso como ele próprio, ao menos digno de nota como uma marca registrada do filósofo. Imaginar, como fez no Cândido, uma moça sem uma das nádegas, e ainda assim com algum chamariz nitidamente erótico, é sem dúvida digno de elogio. Rousseau se deparou com a moça com o bico do seio murcho, Voltaire inventou a mulher de meia bunda. Infortúnio de um, riso de outro.

O que conto aqui me foi relatado por um professor meu amigo, um neozelandês que esteve na China para ensinar leituras de Derrida. Foi lá que ele ficou sabendo de um povoado, que existiria na Mongólia, onde em um passado bem distante todas as mulheres nasciam sem uma das nádegas.

Foi nesse povoado que viveu Ganzorig, um homem de coragem inaudita, força absurda e bondade extrema. Ele cresceu como todos ali no povoado, sem qualquer noção do que seriam os quadris femininos, em uma vista por detrás, como nós os conhecemos. Possuir duas nádegas era coisa de homem. Era um sinal não de masculinidade, no sentido de virilidade, mas, sim, uma condição masculina, como possuir pênis e não vagina ou possuir uma musculatura mais rígida. Mas Ganzorig e todos ali do povoado, não achavam que à mulher faltava uma bunda normal, como Freud falou da castração feminina.

Ter uma única nádega era a condição feminina, o próprio da mulher. Fim de conversa. Uma mulher com duas nádegas seria um monstro.

Ganzorig tinha uma namorada linda e, claro, de uma nádega só. O lado murcho era puro osso e uma camada muscular fina. Por razões desnecessárias de explicação, Ganzorig fazia sexo na forma de papai-mamãe (teria vindo desse lugar uma tal posição?). Era feliz assim. Até o dia em que foi convocado pelo exército de Ghensis Khan, e então conheceu outros lugares e outras mulheres. Ficou impressionado ao ver mulheres “como homens”, com duas nádegas, e aprovou sem reservas aquele novo modelo exótico.

Ganzorig viu seu companheiros realizarem todo tipo de atrocidades, inclusive a de cortar uma nádega das mulheres de povos que não queriam se submeter ao terrível imperador mongol. Ele próprio jamais fez um ato atroz. Apesar de ter se tornado herói de guerra, fugiu como desertor, exatamente para não ter de cometer atos de barbarismo.

Ninguém do exército veio lhe procurar, de tão desconhecido que era o seu povoado de origem. Ele nem precisou se esconder. Bastou voltar para a sua terra e ali ficou, como que protegido pela geografia. Tendo uma vida modesta e reclusa, não despertou nenhuma curiosidade e, enfim, de modo raro, escapou de uma possível busca dos funcionários de Gênsis Khan. Além disso, por sua força e coragem, jamais poderia ser tomado como um desertor.

Mas, enfim, Ganzorig havia se tornado uma desertor. E a coisa mais importante que abandonou não foi o exército, mas o conceito de  mulher! Bunda feminina, para ele, havia se tornado uma bunda masculina, mas melhor. Bem melhor. A visão do Paraíso, que é a mulher de quatro, podendo mostrar o ânus e a vagina ao mesmo tempo, enquadradas pela bela moldura da bunda e do início das coxas, nunca lhe saiu da cabeça, e ele perdeu completamente o interesse pelas mulheres de sua aldeia.

Ganzorig começou a envelhecer. E desde que voltara, não havia mais saído com mulher alguma. Não namorava. Casar, então, nem pensar! Mas casar e ter filhos era uma regra que não podia ser quebrada. A pressão social sobre Ganzorig se tornou insuportável. E ele era demais bondoso para não senti-la. Confessou então ao chefe local, um ancião sábio, que havia descoberto o que ocorria em outros lugares: as mulheres possuíam duas nádegas. E aquela visão o fazia não mais suportar as mulheres de seu vilarejo.

O chefe do local aconselhou Ganzorig a se mudar de vilarejo. Ele ficou temeroso, como poderia chegar a um outro povoado, assim, sem mais? O que diria para as pessoas? O que diria de seu passado? Logo descobririam que era um desertor. Não teve nenhum medo de confessar isso ao chefe local, que era um amigo de família, velho conhecido de seu pai. O sábio lhe disse com tranquilidade: você não vai para um lugar desconhecido, você vai para um vilarejo ao norte, um lugar de mulheres lindíssimas, que é justamente a terra de meus antepassados. O costume lá é o do acolhimento, sem qualquer pergunta pessoal.

Ganzorig fez o aconselhado, e lá se foi rumo a povo dito hospedeiro. E de fato foi bem recebido e acolhido.

Chegou e se instalou como ferreiro, profissão que havia aprendido no exército. Não demorou para ficar bem de vida. Demorou menos ainda para notar que todas as mulheres do local, todas mesmo, tinham apenas um olho. Era uma população feminina inteira de ciclopes. Todavia, tinham traseiros completamente completos e, pelas graças dos deuses, um tanto africanizados. Rapidamente ele se esqueceu de como eram as mulheres com dois olhos, casou-se com oito moças, morreu aos 107 anos com um espantoso sorriso no rosto.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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