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20/06/2018

O grande penico do rei


[Texto destinado ao público em geral]

Essa história me foi contada por uma teenager virgem (ela insistia em dizer isso!), cuidadora de cavalos, na Nova Zelândia.

Existe um povoado Maori, ao sul da Nova Zelândia, no qual corre uma história sobre “o grande penico do rei”.

Os maoris sempre se deslocaram para os lugares sagrados, em picos de montanhas, o iwi. O principal deles é o monte Taranaki. Em tais lugares sagrados não se deve fazer necessidades fisiológicas. Nada pode poluir a floresta, em especial esse cumes, que são considerados a cabeça dos deuses. Conta-se entre os maoris que quando algum chefe peregrinava para um lugar assim, pretendendo ficar o dia todo ali no culto aos deuses, tinha de levar um penico.

O penico era um sinal de respeito. Se até o chefe levava um penico, então os outros maoris realmente aprendiam a respeitar o local. Claro que um chefe sempre tem um penico que não é um penico qualquer. Sendo grande chefe, tem um grande penico. E como todo chefe que possui uma entourage, os chefes maoris tinham os que carregavam, entre outras coisas, os seus penicos.

Um importante chefe maori, de bem antes das chegada dos ingleses à ilha, tinha o hábito de não carregar um penico qualquer, mas um enorme penico, um autêntico “grande penico” do “grande chefe”. O objeto era realmente grande e feito de um material especial, raro, e por isso ficava sob os cuidados de um só maori, escolhido a dedo pelo rei.

Carregar o “grande penico” não era um fardo. A peça, apesar de pesada, dava ao seu carregador um status privilegiado. Ele era o responsável pelo momento em que o chefe, o rei, descansava seu enorme traseiro e fazia funcionar seus intestinos, mesmo perante os deuses.

O maori carregador do “grande penico do rei” era o único, além do rei, a poder ficar no topo da cabeça dos deuses e ao mesmo tempo usufruir de um momento de desrespeito – que incluía o som de flatos despudorados – ainda que sob os cuidados higiênicos do penico que, enfim, recolheria o principal do estrago.

Claro que isso tinha lá seu incômodo, pois, afinal, o penico subia o Taranaki vazio, mas voltava cheio. Só bem distante era possível se livrar das fezes. Mas o prestigio de poder fazer algo completamente ignóbil exatamente no topo da cabeça dos deuses e, mesmo assim, não ser castigado, e evitar que o próprio rei fosse castigado, dava ao maori escolhido para carregar o penico uma importância sem igual na tribo.

Foi então que surgiu a ideia, obviamente de um maori carregador de penico, que essa função não podia ser designada aleatoriamente, mas que o correto é que fosse passada de pai para filho, ficando restrita a uma só família – e obviamente restrita a homens. Foi assim que carregar o “grande penico do rei” se tornou uma função vinculada ao sangue. Passada algumas gerações, a atividade de transportador do penico se fez sinônimo do trabalho que só os de mesmo sangue poderiam exercer. Criou-se assim toda uma estirpe de ajudantes do chefe, do rei, e ao mesmo tempo, de sacerdotes – aqueles que podem relaxar e até fazer alguma besteirinha diante dos deuses.

Um dia, na aldeia onde essa narrativa é comum, um sacerdote peniqueiro teve um filho débil mental. O menino jamais conseguiu sair da condição animal. Mas era muito forte e, desse modo, não se viu impedido de exercer a profissão do pai – a missão do pai! Também ele se tornou um sacerdote peniqueiro. E desempenhava sua missão com mais prazer que outros, dado sua força. Mas, claro, tinha um inconveniente.

Sendo completamente débil, animalesco, o garotão adorava comer terra e, claro, fezes. Assim, uma vez lá, diante dos deuses e da enorme bunda do rei, o garoto não tardava em se servir do conteúdo do “grande penico do rei”. Terminado as últimas rimas das flatulências e tendo o rei já se deslocado para as folhagens mais higienizadoras e próprias do local, o garotão enchia o bucho. Os anos se passaram e esse rapaz degustador e devorador de cocô morreu. Mas o quanto viveu foi o suficiente para introduzir esse novo costume que, enfim, se incorporou ao trabalho do sacerdote peniqueiro: comer as fezes do rei no pico sagrao da montanha. Assim, naquela tribo, nasceu a tradição de que, para ser sacerdote, para realmente ter o agraciamento dos deuses e, enfim, ser um fiel escudeiro do rei, o correto seria comer bosta do monarca.

Foi dessa forma que se tornou famoso o sacerdote de nome Aroha. Ele carregou por anos o “grande penico do rei” e, como mandava a tradição, jantou as fezes do chefe por muito tempo. Até que um dia, ocorreu algo inesperado, e que nunca havia ocorrido antes. O rei a  quem Aroha servia morreu em cima do penico. Não podendo sujar o lugar sagrado, Aroha empurrou um pouco o chefe para baixo e, como aprendera a fazer com tudo que era dejeto, comeu por inteiro o próprio rei. Voltou para a tribo com o chefe na barriga. E por conta de toda essa atribulação, esqueceu o penico. E Aroha – que literalmente significa em maori “o amor” – se tornou chefe e sacerdote ao mesmo tempo. Aroha reinou durante muitos anos, e dizem que sua tribo é a única que guarda essa tradição de unificação do poder político e do poder religioso.

Quando a garota virgem me contou isso, pedi para ela para me levar até a esse povoado, pois eu queria saber se realmente a tradição de unificação ali permanecera. Mas, enfim, não deu tempo, pois logo tive de vir embora daquele belo país.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

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One Response “O grande penico do rei”

  1. Alê
    03/06/2018 at 13:54

    Bela história. Cheia de camadas, tal qual uma cebola.
    Poderia virar uma animação política usada por algum partido.

    Viria daí a expressão “tá com o rei na barriga” ?

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