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21/10/2018

O encantador de serpentes


[Texto para o público em geral]

Essa história me foi contada, entre goles de vinho em um bar do mundo, por um filósofo ocidental que ficou uns tempos na Índia.

Em um lugar tradicional no interior Índia há um vilarejo que abriga vários encantadores de serpentes. Existe lá a casa de Rajagobala, moradia de um encantador de cobras que é o personagem de uma história que as pessoas dali não tomam como lenda, mas efetivamente como algo que aconteceu segundo o relato, nos mínimos detalhes.

Rajagobala encantou serpentes durante toda a sua longa vida. Aos 89 anos, gozando de uma disposição física de um homem de 40, Raja havia ficado apenas com uma só serpente. Era uma naja enorme, que todos os dias saía de seu balaio, erguendo sua cabeça e dançando diante de Raja, segundo as ordens das vibrações terrestres do som da pongi, a flauta encantadora. Quando terminava o ritual, Raja fazia a cobra voltar ao balaio e então tomava o seu desejum, na base de ópio. Andava um pouco e então voltava para casa para descansar. Dormia sossegado, às vezes perto do balaio da cobra.

Quando Raja fez 90 anos, em uma dessas suas sonecas, a naja saio do balaio, confundida pelas vibrações do ronco do encantador. Decepcionado por não encontrá-lo, desceu de sua pose costumeira e foi se deitar ao lado de Raja. Aos poucos, penetrou nos sonhos de seu amo.

—- O que faz aqui no meu sonho Nayana?

— Ora, Raja, você me deixou olhar nos seus olhos, finalmente, e reza a lenda que se uma naja como eu olha nos olhos do seu amo, ganha o direito de lhe fazer um pedido.

—–Estamos há tanto tempo juntos, Nayana, e você tem sido tão prestativa, que não me incomodo de atender um pedido seu, desde que esteja ao meu alcance.

—–Meu pedido é simples, e completamente possível de ser realizado, Raja. Quero apenas ter o direito de tirar minha soneca junto da sua soneca, fora do baú, logo após de terminado o ritual do encantamento. Para não assustar as pessoas que olham o nosso show, dando-nos algum dinheiro, prometo só sair do cesto após todas já terem se afastado.

Raja acordou e olhou do lado, mas nada viu. A Naja estava lá no cesto. Todavia, ficou com o pedido em mente. Resolveu atendê-lo. Após o ritual e a coleta dos trocados, consumiu seu ópio, andou um pouco e voltou para sua casa, já cambaleando em favor da soneca. Então, retirou com as mãos a naja do balaio e a colocou ali com ele, no chão, no tapete em que dormia. Na hora do sono profundo, recebeu novamente a visita de Nayana, intrusa em seu sonho.

—- Você novamente, Nayana?!

—– Sim, estou grata por estar dormindo aqui sob o sol matinal, junto com você, meu querido. Mas preciso lhe pedir mais uma coisinha.

—- Ora, Nayana, eu repito, se estiver ao meu alcance, não irei negar nada a você, sempre tão prestativa há anos.

—- Gostaria de, pelo menos uma vez, experimentar tocar pongi, e ver você, encantado, sair do balaio dançando.

—– Mas Nayana, isso ficará ridículo. Um velho como eu, requebrando a partir de um balaio! Quem irá querer ver uma coisa tão feia?

—– Raja, uma cobra saindo do balaio é comum aqui na Índia, mas uma cobra que encanta homens, isso nós não vemos, e com isso ganharemos muito mais dinheiro.

—– Não preciso de mais dinheiro, Nayana. Mas, enfim, não vou negar isso a você. Ao menos uma vez farei isso, pois você me tem sido fiel há tanto tempo!

Quando Raja acordou, ele foi aos afazeres diários e ficou pensando no sonho. No dia seguinte, na hora do ritual, fez o que a cobra pediu. Ficou no balaio e deixou a cobra com a flauta. Lá de dentro escutou o som e então colocou a cabeça para fora do balaio, e depois, aos poucos, requebrando em forma de dança típica, colocou todo o corpo para a fora, de olhos fechados. Não queria ver os rostos do público, de medo de os pegar sorrindo e ficar com vergonha.

O resultado disso foi estupendo. No dia seguinte havia uma multidão ali. Raja não conseguiu se negar de fazer o espetáculo. E assim fez. Sempre de olhos fechados. Raja foi dos 90 aos 107 anos executando aquele ritual. Não conseguia mais parar. O dinheiro havia acumulado para além do que ambos precisavam, mas o que o empurrava a fazer o ritual era, de fato, uma necessidade interior imensa. Sentia mais necessidade da dança sob o som da flauta e o olhar de Nayana – cujo nome é realmente, “o olhar” – que qualquer outra coisa.

Quando finalmente morreu, Nayana ingeriu uma quantidade maior de ópio e também se foi, consumida em overdose.

Perguntei ao meu amigo filósofo o que ele havia aprendido com aquela “história verídica”, e ele apenas me disse que quem lhe contou a história fez questão de acrescentar que nunca mais ninguém tentou fazer o que Raja fez, pois os hábitos adquiridos, em certas circunstâncias, são muito mais poderosos que a requisição do corpo pelo ópio.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 03/06/2018

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