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11/12/2018

O conto do silêncio


[Para o público em geral]

Faz mais de setenta anos que o Paquistão disputa com a Índia demarcações de fronteira. Em um momento é guerra e em outro é tiro solto aqui e acolá. Setenta anos é o suficiente para que a cultura política de agressão de um local gere certa animosidade  para além da própria política, capaz de influenciar até mesmo a população comum, preocupada apenas em viver sua vidinha.

Por isso mesmo, na casa de Kabir e Aiyra, o humor azedou quando o casal ganhou um vizinho solitário chamado Farhan, um paquistanês. Talvez as coisas não fossem pelo pior caminho se o paquistanês tivesse arrumado uma cadelinha com qualquer outro nome, menos Aiyra. Mas, foi isso que ele fez. Aiyra é, literalmente, “sem dono”. E foi isso que lhe disseram quando vieram lhe dar a cadela: “trata-se de uma vira lata, uma sem dono, ou seja, Aiyra”.

“Aiyra!”. Logo cedo o paquistanês Farhan gritava o nome da cachorra e, assim, o da vizinha. Na conta dele, estava apenas falando em indiano “venha cá vira lata”. E fazia isso de modo risonho, muito feliz, às vezes gargalhando. Afinal, “Farhan” em paquistanês é “feliz feliz”. E o tal vizinho honrava o nome.

Toda manhã. Toda tarde. Toda noite. “Aiyra, Aiyra, Aiyara!”. Vem para o meu colo Aiyra, dizia o Farhan, cada dia mais alegre.

Na casa ao lado da sua, o casal indiano se remoía. Cada chamada e cada gargalhada era motivo deles já começarem a brigar entre si. Amaldiçoavam o vizinho e logo se voltavam um contra o outro, em guera interna no lar. Pensaram que iam se acostumar e, de fato, começaram a distinguir bem quando o vizinho chamava a cachorra e quando era alguma outra pessoa realmente chamando a moça Aiyra. Mas então, o paquistanês resolveu dar aulas para a cadela, começou a ensiná-la a pegar objetos, fazer pequenas tarefas e, enfim, tomar conta da casa. A conversa com a cachorra foi ampliada consideravelmente.

“Aiyra, pega aquilo” e “Aiyra pega isso” – o dia todo o homem dava ordens, fazia pedidos e comemorava feitos do bicho. Quando a cachorrinha acertava, Farhan ficava mais alegre do que já era e dizia “dou-lhe um beijo na bundinha”, quando ela errava, ele também sorrindo comentava “olha que dou um nó no seu rabinho”. Beijo na bundinha e nó no rabinho! – Foi então que Kabir achou que isso já era demais, que ele tinha de tomar uma atitude.

À noitinha, Kabir bateu na porta de Farhan e lhe disse em tom grave, com olhar que poderia fazer tremer qualquer tipo de demônio: “meu amigo, beijo na bundinha e nó no rabinho é demais – não fale mais isso nunca mais”. E foi embora. Farhan ficou ali, de olhos um pouco arregalados, sem saber direito o que havia ocorrido. No dia seguinte, quando pronunciou essa sua frase preferida para a cadela, aí sim entendeu o que estava ocorrendo. Calou-se.

Nos dias que se passaram, Farhan tentou falar outras coisas para a sua cadelinha, tanto no acerto quanto no erro. Mas, para cada frase que inventava, logo a auto-censura o comia pelas entranhas. Começou a achar tudo muito perigoso. Qualquer coisa pronunciada, após menos de um minuto, já lhe soava desrespeitoso. Imaginava então o indiano em sua porta, proibindo-lhe a fala. Assim, Farhan apenas acariciava sua cachorra, e foi deixando de falar com ela. Mesmo seu nome, passou a pronunciar baixinho.

Tudo isso durou menos de um ano. A cadelinha perdeu os pelos e ficou feia. Farhan perdeu a alegria, não sorria. Olhava para o espelho em busca da outrora feição esfuziante, mas nada encontrava.  Um ano e meio depois, a cadelinha morreu. Farhan foi-se embora, voltou para o Paquistão. Mas perdeu o modo de conversar. Tudo que ia falar, lhe era interrompido por um soluço. Finalmente, ele também faleceu.

Por sua vez, Kabir e Aiyra continuaram ali onde moravam, mas ninguém mais quis a casa vizinha. Ficaram um tanto isolados. O silêncio brotou no jardim da residência e adentrou o lar, principalmente quando vieram dois filhos de uma vez, ambos surdos-mudos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo

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3 Responses “O conto do silêncio”

  1. 24/07/2018 at 03:22

    O destino da vida pago pela repreensão. Ótimo texto! Um conto triste e sofrido como a vida nas áreas limítrofes entre os dois países.

  2. Nilton Neto
    04/06/2018 at 18:06

    Muito bom. Parabéns. Lembrou os contos do Machado.

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