Go to ...

on YouTubeRSS Feed

15/08/2018

O aperitivo de pênis


[Mini-conto para o público em geral]

Na China antiga, durante um certo tempo, os eunucos foram de grande influência social e ocuparam cargos invejáveis do funcionalismo público. Por volta dos anos de 1500 e 1600, tornar-se eunuco podia ser uma forma de escapar da miséria, de jamais ficar desempregado, ou de estar na ponta das hierarquias estatais. Em alguns haréns a demanda por eunucos de fino trato era enorme. Um harém podia facilmente conter quase dez mil mulheres e empregar uns cem mil castrados.

Foi por essa época que dois jovens amigos inseparáveis, Feng e Zhuang, tomaram a decisão de escapar do destino de desgraça financeira da família. Eram filhos de pais ricos, que lhes deram excelente educação. Todavia, ambos haviam visto os negócios de suas famílias falirem. Estavam vivendo dias muito difíceis. A castração significava uma salvação para todos das duas famílias.

Cortaram seus órgãos. No mesmo dia, receberam do departamento oficial de castração da China seus respectivos genitais em frascos de vidros, em salmoura de conserva. Assinaram os recibos que certificavam a castração. Esses recibos também informavam que eles estavam de posse das genitálias, então em vidros. Junto disso, cada um ganhou uma carta instrutiva, com uma mensagem clara: não poderiam se desfazer dos frascos recebidos e muito menos de seu conteúdo, pois para cada cargo ou benefício pleiteado teriam de apresentá-lo, e também seriam feitas visitas periódicas em sua residências para checar os frascos, para evitar a circulação de órgãos.

Claro que o governo estava já preocupado com o óbvio: muita gente iria comprar genitálias para apresentá-las como documento para conseguir empregos, benefícios ou simplesmente status. Apresentar o frasco era menos constrangedor do que tirar a roupa de cada um. Principalmente quando se tratava de algum general ou um grande comerciante etc. Sim! Existiram generais violentos castrados! Há indícios de que até imperadores castrados tiveram lugar na sociedade da época.

Bem, o fato é que Feng e Zhuang (que respectivamente, em chinês, significam Pico e Poderoso) guardaram seus frascos e se puseram a oferecer serviços. Não demorou para ingressarem no serviço público. E tiveram uma carreira ascendente rápida. Tão rápida que já trabalhavam próximos a ministros de estado quando foi marcada a primeira visita para a verificação de seus frascos com os seus respectivos membros.

Mas aquilo que era para ser um episódio corriqueiro se transformou em um pesadelo, pois chegando em suas casas eles não mais encontram os frascos. Ocorre que seus avós bebiam juntos, acharam os frascos, abriram e comeram aquilo como se fosse picles – um quitute que os chineses sempre gostaram muito, em especial para acompanhar bebidas alcóolicas fortes.

O resultado disso foi exatamente aquilo que o governo queria inibir: que alguém fosse buscar genitais no mercado negro. Eles foram pegar a coisa!

Feng trouxe algo que em nada honrava seu nome. Era algo diminuto, não parecia um pico! Zhuang trouxe algo pequeno e flácido, nada que pudesse fazer jus ao seu nome. E eis que o guarda governamental viu ali a falta de pico do Pico e a falta de poder do Poderoso. O funcionário tratou tudo com ironia, sorrisinhos e, além disso, estando no ofício há tempos, logo percebeu que a idade do picles não condizia com a idade da retirada dos órgãos dos dois malandros. Anotou tudo, fez seu relatório, e entregou a coisa a seus superiores.

Nada ocorreu com Feng e Zhuang. Mas eles passaram um bom tempo de suas vidas sem qualquer alegria. Foram se tornando paranoicos, esperando a perda de seus cargos ou coisa pior. Talvez multa alta ou, até mesmo, uma condenação capital. Perderam as cabeças de baixo, e isso por duas vezes, e então perderam as cabeças de cima – procuraram um tratamento psicológico com um mestre religioso local. Contaram o caso.

O mestre, então, pediu para que eles trouxessem os frascos até ele. Assim fizeram. O velhinho abriu os frascos e, junto deles, abriu também uma garrafa de Baijiu. Colocou três copos, e após vários “gambei, gambei”, tomaram aquela pinga forte. O velho apanhou o picles e os comeu – os dois. Feng e Zhuang ficaram ali paralisados. Foram procurar ajuda e encontraram um velho maluco, e ainda por cima com o mesmo hábito alimentar esquisito, como seus avós. Mas o velho os tranquilizou: “caso o funcionário um dia volte, o que vai demorar muito, uma vez que nossa burocracia é lenta, digam que perderam os frascos, que ficaram velhos e se esqueceram onde guardaram – vai dar tudo certo”.

Assim ocorreu. O governo só voltou às residências de Feng e Zhuang quando ambos estavam com 98 anos. E também o funcionário que veio fazer o trabalho era bem velho, afinal, era o mesmo homem! Nenhum dos três, mesmo tendo o relatório em mãos, se lembraram do que fizeram ou do que tinham de fazer. Ou talvez até tenham se lembrado, mas fingiram não estarem ali para qualquer outra coisa senão para algum desfrute. Abriram uma garrafa de Baijiu e um frasco de picles, e comeram e beberam. E desta vez, era realmente picles.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

Tags: , , , ,

2 Responses “O aperitivo de pênis”

  1. W.klaiton
    06/06/2018 at 00:03

    Me senti como se estivesse vendo um filme. Mt legal!

  2. Matheus
    05/06/2018 at 14:55

    Essa série de “contos folclóricos” está bem legal

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *