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21/10/2018

José vai ao inferno


[Mini conto para todos]

José que, na juventude, havia desistido de ser padre, após uma vida longa veio a falecer. Foi parar num lugar cheio de padres. Era um lugar feio, como uma catedral decadente, mal cheirosa e escura. E para todo lado que se andava, havia um padre.

As graduações desses padres variavam. Havia recém ordenados e bispos. Havia até papas. E se não bastasse isso, também existiam coroinhas e um bocado de beatas que, não raro, rezavam babando. José via tudo aquilo, mas ninguém parava para dar explicações. Ninguém lhe dava atenção. Resolveu então ir até à sacristia e roubar o vinho. Talvez isso chamasse a atenção de alguém e, então, poderiam lhe dizer que lugar era aquele.

Assim que roubou o vinho e bebeu, apareceu um padre gorducho, seboso, com um rosto estúpido, que lhe disse em voz de padre: “Seja bem vindo José. Você faleceu e, enfim, chegou ao seu destino final”. “Você está no Inferno”. José arregalou os olhos e disse: “Mas como isso? Que injustiça! Eu não fui uma pessoa má em vida, e vim parar no Inferno! E o Inferno é um lugar onde há só padres, coroinhas, beatas, ou seja, só gente da Igreja?!” O padre recepcionista não lhe disse mais nada e se afastou.

José sentou ali nos bancos da catedral e logo notou uma imagem no altar que ele nunca havia notado em igreja alguma: Jesus crucificado. Ou seja, ele havia visto milhares de vezes tal coisa, mas o que ele nunca havia notado era o horror daquela situação.  Não da cruz, mas o horror do mau-gosto daquilo tudo. Uma casa escura com um homem quase nu, sangrando, crucificado! Que tamanho despropósito arquitetônico, que ambiente mais insalubre! E então exclamou: “Mas de quem pode ter sido a ideia mais descabida, mais mórbida, mais sem juízo de fazer uma casa enorme, escura, e colocar a figura de um homem semi nu numa cruz, sofrendo?” Foi então que José teve aquela clareza que só no Inferno as pessoas adquirem: uma coisa de gosto tão porco como aquele não poderia vir de nenhum outro ser senão do próprio Diabo. Ali só podia ser, mesmo, o Inferno.

Esticou as pernas no banco da Igreja, notou, pela primeira vez, as tábuas de genuflexão. “Que estética do absurdo!” – Exclamou. De fato, José nunca havia atentado para aquela situação: um lugar com bancos coletivos feitos para as pessoas se ajoelharem e ficarem diante de um homem ensanguentado e semi nu, numa cruz! Ninguém com alguma educação artística e com algum senso moral poderia criar um lugar assim.

De fato, ele estava no Inferno – teve a certeza disso, inclusive, por conta de que abaixo dessa imagem do homem na cruz, havia uma portinha onde se guardava vinho! E ele havia tomado do vinho. Era vinho mesmo! Quem iria beber vinho nos pés de uma estátua de um semi nu, pregado numa cruz com pregos e amarras, ensanguentado, e ainda por cima com um ferimento no peito feito por uma lança romana?! Nenhum homem, deus ou animal poderia ter tido a ideia de construir um lugar assim, só uma mente sem qualquer senso de proporção e respeito – a mente do Diabo.

José perambulou por ali pensando nisso. Chegou então até à porta de saída. O que haveria fora dali? Seria, obviamente, a continuidade do inferno. Mas o que de mais horroroso poderia existir então, se ele há havia visto aquilo que considerou a obra prima do Demônio? Nada seria igual. José ultrapassou a porta e encontrou uma cidade. Problemas de trânsito, pobres na rua, assaltos, cães abandonados, falta de água, pessoas agitadas com celular na mão, gente escutando Simone e Simaria. Realmente, tudo ali não ia bem. Mas era o melhor lugar do Inferno.

Todavia, José não conseguiu ficar perambulando pela cidade por muito tempo. Logo os sinos da Catedral tocaram e todos foram à Missa. José foi impulsionado a fazer o mesmo. Voltou para o núcleo do Inferno, a parte pior da coisa toda. De novo olhando para homem pelado ensanguentado e gente tomando vinho aos pés daquela cruz.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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One Response “José vai ao inferno”

  1. Jediel Placeres
    05/06/2018 at 22:42

    Gente escutando Simone e Simaria foi phodda! Hahahahahahahahá
    Só faltou uma cobra astuta tocando flauta e um ancião indiano rebolante a sair de um balaio pra fechar a conta…

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