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15/07/2018

O Capitãozinho do Mato


[Mini Conto de Taubaté]

“Gregório” – ei aí o nome do negro, de dorso nu, exposto na praia de S. Vicente. “Gregório”, nome recebido ali mesmo, pelo homem que lhe examinou os dentes e o saco, e o destinou a Taubaté, para uma fazenda do “café novo”. Trabalhou trinta anos na mesma fazenda, a Boa Esperança, e teve dois filhos com uma escrava cozinheira. Gerou um menino e uma menina. Graças ao fato de ser um escravo que jamais tentou fugir, Gregório recebeu do patrão um presente: seus filhos não trabalhariam na lavoura, seriam escravos com trânsito na Casa Grande.

Nunca ninguém chegou a batizar os garotos. Deixaram-nos lá, na cozinha, meio que sujos do carvão e aos cuidados da mãe que, enfim, além de amamentar filhos gêmeos do patrão, ainda tinha leite para os dois seus. O menino foi sendo tratado por “Gregorinho”. Assim ficou. Quando o garoto fez 10 anos, o Coronel José Leone, dono da fazenda, colocou o menino para trabalhar diretamente com o Capitão do Mato local, um negro cujo rosto poderia fazer até o Diabo em pessoa tremer. Tal rosto, tal alma, tal coração. Rosto feio, alma suja, coração empedernido. Seu nome: “Capitão”. Apenas isso, “Capitão”.

Capitão olhava todos de cima para baixo. Dizem que até mesmo ousava fazer isso com o próprio Coronel José Leone, que só o havia surrado uma vez, quando ainda criança. A ele lhe foi confiado Gregorinho, que deveria aprender desde pequeno um ofício que não o da colheita do café: o santo ofício da caça dos “negros ladinos”. Gregorinho se esmerou nisso. Já na praia ou no porto, no mercado local de escravos, Gregorinho ali estava e aprendia logo, com o Capitão, qual negro ou negra que tinham canela fina, propensos à fuga. Podiam se desvencilhar das correntes por conta da perna magra e, em geral, eram corredores rápidos e incansáveis. Deixavam um cavalo para trás, na mata, muito rapidamente. Tinham o faro enorme e agudo para o Quilombo. Tudo isso era aprendido por Gregorinho antes mesmo de qualquer compra de um bom lote de negros. A cada ida ao mercado, mais lições. A cada caçada, mais esmero, sempre atento à psicologia e aos dotes dos africanos rápidos.

Quando Gregorinho fez 14 anos, lhe foi dada a chance de sua vida. Ele tinha de prender uma negrinha bonitinha e malandra, que havia fugido de dentro da Casa Grande, onde ficava ao lado das cozinheiras. E lá foi Gregorinho, pelado como um Saci de duas pernas, açoitando o cavalo para ganhar velocidade e entrar na mata. Capitão seguiu logo na poeira dele, duvidando um pouco que o garoto fosse se sair bem na tarefa.

Cruzaram a mata e conseguiram chegar num descampado. Viram o rio e, em seguida, fumaça: aquilo tinha cara de Quilombo. O Capítão falou para Gregorinho para voltar, que era perigoso adentrar no Quilombo sem reforço. Mas Gregorinho não quis ouvir, seguiu e atravessou o rio a cavalo, e logo em seguida já estava no calcanhares da negrinha fugida. Quando chegou perto da garota, de chicote em punho para lhe dar as primeiras lambadas e lhe passar o laço, levou um susto. Era sua irmã, moça da cozinha, filha de sua mãe com Gregório. Irmão legítima, de pai e mãe – coisa rara de se ter ali. Família de escravos – eis aí uma coisa que o Coronel jamais havia permitido em sua Fazenda. O seu caso e de sua irmã eram únicos. O Quilombo estava ali mesmo, e bastava ele parar o cavalo e a menina chegaria fácil ao destino.

Gregorinho foi tomado, então, por acesso de fúria intensa. Surrou a moça até sangrá-la. Puxou-a arrastada pelo cavalo para a travessia do rio. A garota só chegou viva à outra margem porque o Capitão, em desespero e se apiedando dela, botou-a na garupa de seu cavalo. Gregorinho ainda tentou retirá-la das mãos do Capitão e, com isso, chegou até mesmo a perder seu cavalo na correnteza, que só saiu do rio bem mais abaixo, solitário.

Uma vez na margem, o Capitão o olhou e perguntou: “enlouqueceu Capitãozinho?” E alertou bem claro o garoto: “Seu trabalho é o de caçar negros, não puni-los. Muito menos matá-los!” Nasceu aí o “Capitãozinho do Mato”. Quando chegou à fazenda na garupa do Capitão, arrastando a irmã por uma corda amarrada ao pescoço, foi seguido pelos olhos de todos os escravos, inclusive pela mãe e por Gregório. Ali mesmo, na frente da Casa Grande, em forma de espetáculo e coroação, recebeu um revólver  e um par de botas das mãos do Coronel, que então dispensou o velho Capitão. Não precisa mais dele. O novo Capitão, o Gregorinho, era agora o titular. O Capitãozinho do Mato havia sido empossado. Na concepção dele mesmo, coroado! Naquela mesma noite, Gregório conseguiu um objeto de corte na Senzala. Degolou-se.

Os negros explicaram a situação dizendo que Gregório conseguiu suportar trinta anos os açoites do Coronel e os olhares terríveis do Capitão do Mato, mas viu que não poderia enfrentar nem um dia a jornada do novo homem de confiança do fazendeiro. Capitãozinho, ele profetizou, seria o mais cruel de todos os caçadores de negros de Taubaté. De fato assim ocorreu. Em um episódio famoso, que se tornou célebre nas lendas da região, foi do açoite da própria mãe, no pelourinho, por ocasião de um suposto jantar ruim preparado pela preta velha. Ela, já cega, não conseguia mais acertar a mão na comida. Teve sorte, sendo cega, pois jamais soube quem foi seu algoz. Nunca alguém havia batido tão forte com o chicote!

Capitãozinho do Mato foi o único de sua profissão morto por negros na região entre Rio e São Paulo, de uma forma peculiar: foi empalado nas cercas da Fazenda Boa Esperança. O pau que lhe entrou pelo ânus e lhe saiu pela boca era de boa aroeira, e seu corpo não foi retirado do local. Secou ali mesmo, durante meses. Negros e brancos diziam que a maldade e o ressentimento daquele sangue não deveriam ser tocados. Havia ali uma maldição. A Fazenda Boa Esperança foi dizimada por pragas e suas terras se perderam em divisões e subdivisões. Atualmente, dizem, há um vazio esquisito, tanto de mato quanto de proprietários, no local em que o Capitãozinho secou.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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4 Responses “O Capitãozinho do Mato”

  1. Jediel Placeres
    23/06/2018 at 00:23

    Django, do Tarantino, tem uma cena clássica disso.

    Já nos dias atuais, nosso grupo e principalmente o melhor atacante da seleção brasileira de futebol dos últimos tempos poderiam ser objeto de estudos.
    O ressentimento tá osso…

    • 23/06/2018 at 09:46

      Sim, Jediel, se procurar nesse blog, verá que há artigos sobre essa passagem do Django.

  2. Anderson Silva
    21/06/2018 at 12:28

    Nossa…. ótimo conto, fez com que a minha pele recordasse dos açoites que não tive, mas que meus antepassados tiveram em abundância. A figura do “capitão do mato” é trágica, uma doença auto imune, “o sistema imunitário fica desorientado, atacando o próprio corpo e os órgãos que deveria proteger”. Triste e real…….. Ciro não provocou, apenas diagnosticou……..

  3. Leni Sena
    20/06/2018 at 17:35

    Nossa, sem palavras. Outro dia vi um filme (Rainha de Katwe) que me impactou tanto quanto o seu texto, prof. Mais ainda por o filme retratar misérias de séculos atrás.
    O nível de desgraça nos quais os negros foram submetidos era tão desumano que lhe arrancaram, muitas vezes, a própria alma. Quem não tivesse o mínimo de caráter virava puro ódio contra a própria raça.

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