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16/11/2018

Por que há militares que se vangloriam de serem covardes? O caso Bolsonaro.


[Artigo para o público em geral]

No mundo todo, os exércitos premiam a bravura, a coragem, a honradez. A bravura é o ato voluntarioso de arriscar-se em favor de uma causa maior, como salvar um companheiro ou resgatar civis dominados por forças inimigas. A coragem é qualificada como a disposição para não abandonar postos e se manter firme quando de situações de tensão extrema, como nos momentos que precedem o ataque inimigo. A honradez é a disposição de se mostrar altivo diante do inimigo, e nunca fazer com ele o que ele faz consigo, considerando aí atos que na cultura própria são deploráveis; a disposição para matar pessoas que já se renderam e a disposição para a tortura implicam na perda da honra.

Diante do debate com Fernando Haddad, Bolsonaro, que esperneia para não ir, vem mostrando que não conseguiu aprender muito com sua estadia no exército. É um milagre que tenha chegado a capitão. Pois não aprendeu nenhum valor desses elencados.

Todavia, a pergunta que se pode fazer, é como que Bolsonaro, que demonstra comportamentos que nada têm de bravura, coragem e honradez, foi produzido pelo Exército Brasileiro, e acabou ganhando algumas patentes, até o dia em que a corporação o mandou embora. Talvez aí tenhamos que diminuir a responsabilidade de Bolsonaro e notar alguns elementos da própria história de nosso Exército.

Diferente de vários outros exércitos, e em especial o oposto do Exército americano, o Exército brasileiro se envolveu em poucos conflitos. Basicamente dois: a Guerra do Paraguai, onde mostrou uma atitude pouco nobre para com os derrotados, se comprometendo com a pilhagem, massacre de crianças e, enfim, o estupro de mulheres indefesas; e a II Guerra Mundial, em que, apesar do heroísmo dos Pracinhas, temos de lembrar que tal corporação teve seus quadros desarmados e alijados de qualquer poder por Vargas, quando do retorno da Itália. Nunca é demais  voltar a assinalar que na Guerra do Paraguai, a última coisa que se fez foi cultivar a coragem. Ao contrário, todos os ricos que foram convocados se substituíram pelos seus escravos. Ao final, foram para guerra os pobres e os pretos, que não tinham a mínima ideia a razão de tudo aquilo. Isso foi marcante para o Exército brasileiro, para a sua formação que, a partir daí, nunca mais abriu mão de dar abrigo para um filão capenga em seu interior. Nasceu aí um exército não raro formado por burocratas, e de gente que se acostumou que até na guerra, quando se trata de Brasil, pode-se combater de modo falso. Escravos levaram os nomes de patrões, que foram então condecorados!

A única guerra duradoura em que o Exército brasileiro se meteu foi a de 1964, a “guerra suja” contra os próprios brasileiros. Foi a pior fase do Exército, a que gerou inúmeros torturadores bárbaros. E o mais grave: gerou também um grupo posterior, que não praticou a tortura, mas que foi obrigado praticamente a idolatrar os torturadores (no mundo todo os torturadores são considerados como covardes), para poderem sustentar perante suas próprias famílias a condição de heróis. Essa foi a geração de Bolsonaro. Imagine a mágoa dessa geração: fez Agulhas Negras para voltar para casa como orgulho da família, e voltaram como os que haviam colocado o Brasil na falência – os militares jovens no final dos anos setenta viram o mundo cair sobre suas cabeças: os militares começaram a ser acusados como responsáveis pela desgraça econômica do Brasil. Bolsonaro se transformou em deputado carregando essa marca de derrota, humilhação e vergonha. Começou então a propagar por aí, para salvar sua própria pele moral, que homens como Brilhante Ulstra, mais velhos, haviam sido heróis. Não existe em lugar nenhum do mundo torturador herói. Torturador, no Exército americano, é visto com repulsa pelos oficiais mais respeitados. Sem contar que nos Estados Unidos um oficial que nunca foi em uma guerra é olhado como um babaca.

Tudo isso explica o comportamento de Bolsonaro, sua incapacidade de se por sobre duas pernas e ir à TV enfrentar um simples debate. Afinal, ele não consegue falar “problema”, ele é daqueles que fala “poblema”. Ele sabe que é esse inculto, inábil, que fala mal e, enfim, ele sabe que o que defende é tudo falso. Ele sabe que outros colegas do Exército realmente se mantiveram nobres, com valores altivos. Mas ele não conseguiu. Ele foi o expulso, o magoado, o que tentou reconstruir não a imagem do Exército, mas a imagem da parte podre do Exército. A mágoa desse homem para com tudo é como a mágoa de seu guru, Olavo de Carvalho. Não será bom para o Brasil ter um presidente com tamanho complexo de inferioridade. E muitos militares sabem disso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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10 Responses “Por que há militares que se vangloriam de serem covardes? O caso Bolsonaro.”

  1. 12/11/2018 at 05:18

    Ghiraldelli, você não é um filósofo como Platão – você é um médico como Hipócrates – grato pela franqueza e dignidade com que está curando a nós, os brasileiros com seu exemplo de tranquila lucidez.

  2. 24/10/2018 at 22:04

    O pessoal envolvido nas torturas em Abugraid foram devidamente punidos?

    • 25/10/2018 at 11:05

      Marwin eu não acredito que existe alguém que torturou e que foi “devidamente punido”. Há punição cabível para torturador? Há dezenas de filmes americanos sobre esse drama, o de controle da barbárie do Exército. Afinal, há de fato, na modernidade, uma Exército ético? Napoleão inaugurou o saque, fugindo da guerra de honra antiga.

  3. 24/10/2018 at 21:47

    O pessoal que participou das torturas em Abugraid já foram devidamente punidos

  4. Eduardo Henrique
    20/10/2018 at 20:51

    Uma grande parcela da população brasileira está favorável ao Bolsonaro e muitos desses o consideram um “herói”, um “mito”, um “Salvador da Pátria” que resolverá todos os problemas do Brasil.

    A questão é que o poder político, geralmente, é um cemitério de “heróis”. E uma maneira eficaz de acabar com um mito é com um choque de realidade.

    Quando esse sujeito começar a governar, as pessoas conhecerão quem é de fato Jair Bolsonaro, ou seja, um ser humano medíocre, autoritário, desumano, elitista e tosco.

  5. Filósofa
    18/10/2018 at 22:06

    Eu sei que quer bater nele para entrar à posteridade. Se não soubesse, não seria Filósofa… rs Mas se for para bater de um modo que seja preciso e certeiro comece a desconstruir as técnicas de lavagem cerebral que ele usa para ter tantos adeptos: mostre como funcionam, como são construídas, e é por causa dela que ele terá votos em massa. Mas se fizer isso proteja-se porque mexerá no ”x” da questão… Obs.: apague, por favor, esse comentário que foi só um aviso…

    • 19/10/2018 at 08:58

      Bater em quem? Desconstruir quem? Bolsonaro? Ha ha ha. Como? Desconstruir o que não foi construído! Esse meu texto é um primor cara. Tente apreciá-lo.

  6. LMC
    18/10/2018 at 12:45

    PG,viu a manchete da Folha de hoje
    sobre mais uma palhaçada do Bozonaro?

  7. Tony Bocão
    18/10/2018 at 09:15

    Nos arquivos da comissão da verdade tem uma parte interessante sobre promoção de patentes e salários, quando o aparelho repressor dá a condição para o surgimento do torturador, premiando a produtividade na caça ao subversivo. O patife em um ano nesse tipo de atividade subia patentes que nem em 10 anos conseguia. De qualquer forma parte desta pegada populista do bozo vem dessa pataquara de ditadura, e populismo é cruel para quem pensa (Não atoa que o motorista de trator do Fujimori ganhou uma eleição contra, nada mais nada menos, que Vargas Llosa )

    • 18/10/2018 at 10:25

      Fiz o vídeo no youtube, comente isso lá e divulgue essa importante informação sua.

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