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18/09/2019

Por que há militares que se vangloriam de serem covardes? O caso Bolsonaro.


[Artigo para o público em geral]

No mundo todo, os exércitos premiam a bravura, a coragem, a honradez. A bravura é o ato voluntarioso de arriscar-se em favor de uma causa maior, como salvar um companheiro ou resgatar civis dominados por forças inimigas. A coragem é qualificada como a disposição para não abandonar postos e se manter firme quando de situações de tensão extrema, como nos momentos que precedem o ataque inimigo. A honradez é a disposição de se mostrar altivo diante do inimigo, e nunca fazer com ele o que ele faz consigo, considerando aí atos que na cultura própria são deploráveis; a disposição para matar pessoas que já se renderam e a disposição para a tortura implicam na perda da honra.

Diante do debate com Fernando Haddad, Bolsonaro, que esperneia para não ir, vem mostrando que não conseguiu aprender muito com sua estadia no exército. É um milagre que tenha chegado a capitão. Pois não aprendeu nenhum valor desses elencados.

Todavia, a pergunta que se pode fazer, é como que Bolsonaro, que demonstra comportamentos que nada têm de bravura, coragem e honradez, foi produzido pelo Exército Brasileiro, e acabou ganhando algumas patentes, até o dia em que a corporação o mandou embora. Talvez aí tenhamos que diminuir a responsabilidade de Bolsonaro e notar alguns elementos da própria história de nosso Exército.

Diferente de vários outros exércitos, e em especial o oposto do Exército americano, o Exército brasileiro se envolveu em poucos conflitos. Basicamente dois: a Guerra do Paraguai, onde mostrou uma atitude pouco nobre para com os derrotados, se comprometendo com a pilhagem, massacre de crianças e, enfim, o estupro de mulheres indefesas; e a II Guerra Mundial, em que, apesar do heroísmo dos Pracinhas, temos de lembrar que tal corporação teve seus quadros desarmados e alijados de qualquer poder por Vargas, quando do retorno da Itália. Nunca é demais  voltar a assinalar que na Guerra do Paraguai, a última coisa que se fez foi cultivar a coragem. Ao contrário, todos os ricos que foram convocados se substituíram pelos seus escravos. Ao final, foram para guerra os pobres e os pretos, que não tinham a mínima ideia a razão de tudo aquilo. Isso foi marcante para o Exército brasileiro, para a sua formação que, a partir daí, nunca mais abriu mão de dar abrigo para um filão capenga em seu interior. Nasceu aí um exército não raro formado por burocratas, e de gente que se acostumou que até na guerra, quando se trata de Brasil, pode-se combater de modo falso. Escravos levaram os nomes de patrões, que foram então condecorados!

A única guerra duradoura em que o Exército brasileiro se meteu foi a de 1964, a “guerra suja” contra os próprios brasileiros. Foi a pior fase do Exército, a que gerou inúmeros torturadores bárbaros. E o mais grave: gerou também um grupo posterior, que não praticou a tortura, mas que foi obrigado praticamente a idolatrar os torturadores (no mundo todo os torturadores são considerados como covardes), para poderem sustentar perante suas próprias famílias a condição de heróis. Essa foi a geração de Bolsonaro. Imagine a mágoa dessa geração: fez Agulhas Negras para voltar para casa como orgulho da família, e voltaram como os que haviam colocado o Brasil na falência – os militares jovens no final dos anos setenta viram o mundo cair sobre suas cabeças: os militares começaram a ser acusados como responsáveis pela desgraça econômica do Brasil. Bolsonaro se transformou em deputado carregando essa marca de derrota, humilhação e vergonha. Começou então a propagar por aí, para salvar sua própria pele moral, que homens como Brilhante Ulstra, mais velhos, haviam sido heróis. Não existe em lugar nenhum do mundo torturador herói. Torturador, no Exército americano, é visto com repulsa pelos oficiais mais respeitados. Sem contar que nos Estados Unidos um oficial que nunca foi em uma guerra é olhado como um babaca.

Tudo isso explica o comportamento de Bolsonaro, sua incapacidade de se por sobre duas pernas e ir à TV enfrentar um simples debate. Afinal, ele não consegue falar “problema”, ele é daqueles que fala “poblema”. Ele sabe que é esse inculto, inábil, que fala mal e, enfim, ele sabe que o que defende é tudo falso. Ele sabe que outros colegas do Exército realmente se mantiveram nobres, com valores altivos. Mas ele não conseguiu. Ele foi o expulso, o magoado, o que tentou reconstruir não a imagem do Exército, mas a imagem da parte podre do Exército. A mágoa desse homem para com tudo é como a mágoa de seu guru, Olavo de Carvalho. Não será bom para o Brasil ter um presidente com tamanho complexo de inferioridade. E muitos militares sabem disso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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13 Responses “Por que há militares que se vangloriam de serem covardes? O caso Bolsonaro.”

  1. Wellington Faria Santos
    20/08/2019 at 23:34

    A revista Veja, edição, 25 Out/1987. Divulga a reportagem “por bombas nos quartéis, um plano na ESAO, na qual afirma que o Capitão Bolsonaro, lotado na Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais, e outro militar Capitão Fábio Passos, elaboraram um plano que previa a explosão de bombas em unidades militares do Rio de Janeiro para pressionar seus superiores militares de Alta Patente do Exército Brasileiro para aumentar o soldo dos militares. Segundo a reportagem, o Capitão Bolsonaro teria dito que haveria “só a explosão de algumas espoletas” e explicou como construiria uma bomba-relógio à base de dinamite, TNT. “Nosso Exército é uma vergonha Nacional, e o Ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves está se saindo como um segundo Pinochet General Presidente do Chile”, afirmava. A revista publicou que ele, Capitão Bolsonaro e outro militar Capitão Fábio Passos haviam elaborado um plano chamado “Beco sem Saída”, que previa uma série de explosões. Como evidencia, a revista Veja divulgou esboço “croqui” atribuídos ao Capitão Bolsonaro, colocadas bombas em quartéis e na adutora de água da CEDAE no Rio Guandu. Capitão Bolsonaro foi preso e julgado pelo STM – Superior Tribunal Militar do Rio de Janeiro. Por 8 votos a 4, os Ministros do STM consideraram o Capitão Bolsonaro “não culpado” das acusações, diz que duas periciais técnicas, uma da Polícia Federal e outra da PE-Polícia do Exército, confirmaram a autoria e duas não confirmaram o que configura “na dúvida a favor do réu”. O STM decidiu que “o justificante assumiu total responsabilidade por seu ato, foi punido com 15 dias de prisão.” Segundo, extrato da ficha do cadastro do Capitão Jair Bolsonaro fornecido pelo Exército à revista Veja, o militar Capitão Jair Bolsonaro foi excluído do serviço ativo do Exército Brasileiro, a contar de 22 de Dezembro de 1988, passando a integrar a reserva remunerada de Capitão do Exército.

  2. Wellington Faria Santos
    20/08/2019 at 21:40

    MPF ação de Interdição de Bolsonaro da Presidência República.
    Trata-se de Noticia de Fato instaurada a partir de representação solicitando ao MPF ação de Interdição do Presidente Bolsonaro na Presidênica da República. Alega o noticiante, dentre outras coisas, o comportamento e atitudes de desequilíbrio mental do Presidente Bolsonaro. As recentes – e virulentas – declarações de Jair Bolsonaro colocando em dúvidas crimes que ocorreram na época do regime da ditadura militar deram elementos para questionar a real capacidade do presidente de ocupar o cargo de líder da nação, na Presidência da República Federativa do Brasil. Ao apresentar uma versão sem fundamentos sobre a morte do pai do presidente da OAB, Bolsonaro causou revolta e espanto nos mais diversos setores da sociedade brasileira. A ponto da tese de um impeachment voltará a ganhar força. Afinal, quais podem ser as consequências para o presidente em face dessas declarações? A governabilidade está em risco? O Congresso Nacional pode reagir severamente favorável no retorno do recesso? MPF entra com ação de interdição do presidente Bolsonaro. Analisa o caso e a opinião do Jurista Miguel Reale Jr. favorável e ainda o depoimentos de quem carrega consigo as marcas da ditadura militar, como a do escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do Deputado MDB-RJ Rubens Paiva desaparecido e morto na época do regime da ditadura militar. O presidente Jair Bolsonaro homenageou o Coronel Ustra em seu discurso enquanto ainda era Deputado Federal PSC-RJ no voto a favor do impeachment da então presidente Dilma Rousseff. “Perderam em 1964, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff (…), disse, o meu voto é Sim”, afirmou a época, Bolsonaro. O presidente Bolsonaro tem causado divergência ao negar os crimes cometidos pelo regime da ditadura militar. Na última semana, disse que o pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz foi morto pela esquerda, naquele período. Não é a primeira vez que Bolsonaro faz elogios ao Coronel Ustra. A ex-presidente Dilma Rousseff foi torturada durante o regime da ditadura militar. O Coronel Ustra chefiou o Doi-Codi, órgão de divisão de repressão e inteligência do II Exército, em São Paulo, em 1970 e 1974. O Coronel Ustra foi o primeiro militar das Forças Armadas, do Exército Brasileiro condenado por crimes cometidos durante o regime da ditadura militar. Juristas e entidades condenam declarações de Bolsonaro. A versão dada na Segunda-feira, dia 29 de Julho, pelo presidente Jair Bolsonaro para o desaparecimento do militante de esquerda Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira, morto em 1974 durante o regime da ditadura militar, provocou reações de juristas e entidades à Anistia e Direitos Humanos. Em entrevista pela manhã, Bolsonaro disse que poderia “contar a verdade” sobre o caso. À tarde, em “live” numa rede social, Facebook, acrescentou que Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira – pai do atual presidente da OAB – Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz – teria sido morto pelos próprios companheiros da esquerda, a facção subversiva do grupo AP – Ação Popular. Um dos autores do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff cassada, o Jurista Miguel Reale Jr., afirmou que Bolsonaro “tem de prestar contas” das suas afirmações à Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, órgão vinculado ao atual Ministério da Família e dos Direitos Humanos. Ex-ministro da justiça no Governo FHC, Miguel Reale Jr. foi o primeiro presidente da comissão, cargo que ocupou entre 1995 e 2001. A primeira obrigação que o Presidente da República tem com o órgão é fornecer os elementos que ele conhece sobre o desaparecimento do pai da OAB, Felipe Santa Cruz. Ele, Bolsonaro deve fazer isso para a responsabilização do Estado, e não para se vangloriar ou antagonizar com um inimigo político”, disse ele. Ainda segundo o Jurista Miguel Reale Jr. o presidente Bolsonaro está “dando continuidade” ao confronto o que se estabeleceu na época do regime da ditadura militar.” Para ele, Bolsonaro não houve a Constituição de 1988 e a Anistia. Bolsonaro continua em guerra. O caso dele, Bolsonaro não é de impeachment, mas de interdição. É uma pessoa que a cada dia prejudica a si próprio. Ele, Bolsonaro tem que ser protegido e tutelado. A característica do louco é essa: prejudicar a si mesmo.” Ex-Secretário de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e autor da lei dos mortos e desaparecidos (que reconhece os desaparecidos como mortos e a responsabilidades do Estado nessas mortes), José Gregori também avaliou que Bolsonaro deveria dar explicações à comissão. “Bolsonaro se insurgiu contra a lei que foi aceita pelas Forças Armadas Brasileiras. Ele, Bolsonaro está indo contra uma lei que é uma decisão Soberana da Nação Brasileira”, disse o ex-secretário. Para José Gregori, enquanto o presidente Bolsonaro falava “amenidades sem sentido”, isso era visto como folclórico. “Enquanto eram amenidades, o Brasil estava rindo, mas agora é sério. É preciso que se tomem medidas judiciais”, afirmou ele, lembrando que Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira estava entre os primeiros 44 nomes reconhecidos de imediato como mortos durante o regime da ditadura militar. Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira desapareceu em fevereiro de 1974, após ser preso por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão do Exército, no Rio de Janeiro. Até hoje, sua morte é um mistério e seu corpo nunca foi encontrado pela família.

  3. Wellington Faria Santos
    20/08/2019 at 20:07

    MPF ação de Interdição do Presidente Bolsonaro.
    Para verificar a autenticidade acesse: http://www.transparencia.mpf.mp.br
    Arquivamento da PGR-RJ da ação de Interdição do Bolsonaro.
    O poder judiciário está refém das Forças Armadas.

  4. 12/11/2018 at 05:18

    Ghiraldelli, você não é um filósofo como Platão – você é um médico como Hipócrates – grato pela franqueza e dignidade com que está curando a nós, os brasileiros com seu exemplo de tranquila lucidez.

  5. 24/10/2018 at 22:04

    O pessoal envolvido nas torturas em Abugraid foram devidamente punidos?

    • 25/10/2018 at 11:05

      Marwin eu não acredito que existe alguém que torturou e que foi “devidamente punido”. Há punição cabível para torturador? Há dezenas de filmes americanos sobre esse drama, o de controle da barbárie do Exército. Afinal, há de fato, na modernidade, uma Exército ético? Napoleão inaugurou o saque, fugindo da guerra de honra antiga.

  6. 24/10/2018 at 21:47

    O pessoal que participou das torturas em Abugraid já foram devidamente punidos

  7. Eduardo Henrique
    20/10/2018 at 20:51

    Uma grande parcela da população brasileira está favorável ao Bolsonaro e muitos desses o consideram um “herói”, um “mito”, um “Salvador da Pátria” que resolverá todos os problemas do Brasil.

    A questão é que o poder político, geralmente, é um cemitério de “heróis”. E uma maneira eficaz de acabar com um mito é com um choque de realidade.

    Quando esse sujeito começar a governar, as pessoas conhecerão quem é de fato Jair Bolsonaro, ou seja, um ser humano medíocre, autoritário, desumano, elitista e tosco.

  8. Filósofa
    18/10/2018 at 22:06

    Eu sei que quer bater nele para entrar à posteridade. Se não soubesse, não seria Filósofa… rs Mas se for para bater de um modo que seja preciso e certeiro comece a desconstruir as técnicas de lavagem cerebral que ele usa para ter tantos adeptos: mostre como funcionam, como são construídas, e é por causa dela que ele terá votos em massa. Mas se fizer isso proteja-se porque mexerá no ”x” da questão… Obs.: apague, por favor, esse comentário que foi só um aviso…

    • 19/10/2018 at 08:58

      Bater em quem? Desconstruir quem? Bolsonaro? Ha ha ha. Como? Desconstruir o que não foi construído! Esse meu texto é um primor cara. Tente apreciá-lo.

  9. LMC
    18/10/2018 at 12:45

    PG,viu a manchete da Folha de hoje
    sobre mais uma palhaçada do Bozonaro?

  10. Tony Bocão
    18/10/2018 at 09:15

    Nos arquivos da comissão da verdade tem uma parte interessante sobre promoção de patentes e salários, quando o aparelho repressor dá a condição para o surgimento do torturador, premiando a produtividade na caça ao subversivo. O patife em um ano nesse tipo de atividade subia patentes que nem em 10 anos conseguia. De qualquer forma parte desta pegada populista do bozo vem dessa pataquara de ditadura, e populismo é cruel para quem pensa (Não atoa que o motorista de trator do Fujimori ganhou uma eleição contra, nada mais nada menos, que Vargas Llosa )

    • 18/10/2018 at 10:25

      Fiz o vídeo no youtube, comente isso lá e divulgue essa importante informação sua.

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