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22/06/2017

Zuckerberg pode vencer a mentira? A nova topologia necessária


“Quanta verdade suporta um espírito?” A frase de Nietzsche está nos pesadelos de Zuckerberg: “quanta mentira suporta o Facebook?”.

Para que sua empresa chamada Facebook continue podendo oferecer serviços para o mundo empresarial atual, ele precisa se livrar da ideia de que não tem nas mãos outra coisa senão um veículo de fofocas, fakes, avatares fascistas e a disseminação da palavra do diabo. Ele tem de encontrar a medida certa entre a mentira que circula na sociedade como necessidade de uma comunidade de mamíferos que se acham racionais, e a fábrica de mentiras de uma empresa que é feita por racionais que se dizem mamíferos. Mamíferos tem medida para o que fazem, racionais nunca. Para quem se diz racional, é necessário oferecer a medida, a proporção, senão a própria racionalidade não se institui.

Zuckerberg sabe que chegou a hora do Facebook passar por um terrível teste de sobrevivência. Para sobreviver precisa dizer aos países onde entra, que a mentira veiculada por ele não será nem maior e nem menor que aquela que circulava antes dele, de modo a não transformar o local em uma cidadela insuportável em seus disparates. Até pouco tempo eu seria tentado a dizer que esse era o problema de Zuckerberg na sua tentativa de entrar na China. Hoje eu mudei de ideia, e ele também. É visível que a eleição de Trump o fez ficar preocupado até mesmo com o seu sucesso no Ocidente. Ele mesmo já não sabe dizer se o Facebook influenciou ou não, com mentiras sobre Hilary, a eleição americana. Uma mentira é sempre atraente, e uma mentira convincente, propagada rapidamente como o que ocorre na Internet hoje, pode levar a um desastre de proporções incalculáveis. Não há antídoto contra a Internet e sua produção de horrores, a não ser o seu desligamento. Mas isso se tornou impossível, seria como ficar sem energia, sem Sol. Não sobreviveríamos a um piscar maroto do Sol.

Zuckerberg está empenhado em criar mecanismos internos ao próprio Facebook, baseado no know how de empresas virtuais que já fazem isso, algumas delas desde 1995, com a criação da Internet. Ele pode se associar a elas ou mesmo comprá-las. E deve articular isso com protocolos de atuação e acordos vários, de modo a dar trânsito maior da imprensa dita séria diante da imprensa informal (séria ou não, dos indivíduos da Internet). É o que tem anunciado que fará. Claro que haverá a transferência do ambiente policialesco da vida pré-Internet para a vida virtual, mas também é evidente que será algo do policiamento potencializado, uma vez que tudo no mundo virtual se potencializa.

Haverá uma espécie de fim total da privacidade, então realmente declarada e aceita por todos, muito além da atual que, enfim, parecia já ter sido incorporada. Até pouco tempo um “nudes” na Internet era o suficiente para derrubar a confiabilidade de alguém, abalar sua condição moral, fazê-la até a se matar. Isso há três anos. Hoje, quem não manda seu “nudes” para um conhecido de ocasião, mesmo tendo moral a zelar, perdeu o lugar na própria Internet, talvez no mundo. Exceto o “nudes” com alguma ligação com a pedofilia, o resto virou obrigação de etiqueta no relacionamento. Assim, em princípio, já estaríamos preparados para o fim do espaço privado. E de fato é o que se impõe. Não há como criar um mecanismo de defesa contra mentiras senão ampliando a transparência da Internet. Será preciso checar fontes por meio de grupos virtuais ou máquinas, por procedimentos humanos e por procedimentos humanos incorporados às programações das máquinas, mas também será cada vez mais necessário apelar para a metodologia de Foucault, a de conhecer e observar a topologia da notícia. Os lugares de onde ela sai terão de ser visíveis, bem visíveis.

A pergunta que guiará as máquinas e as pessoas na direção da manutenção e funcionamento do Facebook não será “você sabe com quem está falando?”, mas “você sabe de onde se está falando?” A Internet nunca teve a ver com a história, ela sempre foi um problema de geografia. Geocities que o diga, não? Lembram? Ou seja, desde o início a Internet já vinha dando mostras que não deveria pular para fora do planeta. A topologia confiável que temos no planeta cheio de água porém chamado Terra deve ser resgatada no planeta virtual. Uma notícia que sai da Casa Branca precisa ser da Casa Branca, e precisa ter sido produzida na Casa Branca. Pode ser uma mentira, mas precisa ser uma mentira da Casa Branca, ou seja, uma mentira comum dessas que a Casa Branca sempre produziu. O problema todo da Internet é que há milhões de coisas ditas nela que são ditas como vindas da Casa Branca, e que se espalham mais rápido do que é possível, para a Casa Branca, desmentir. Isso sem contar as verdades!

Não vejo como não vivermos sob o estranho regime da total re-geografização do virtual, na construção da topologia transparente, e ao mesmo tempo salvar o Facebook (ou coisa parecida) e a própria Internet comercial, e nós todos, do perigo que é a perda de medidas de valor muito além do que Nietzsche imaginou que seria o niilismo. Aceitaremos o fim do mundo burguês criador da vida privada em troca de uma racionalidade mínima para mamíferos.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 21/12/2016

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14 Responses “Zuckerberg pode vencer a mentira? A nova topologia necessária”

  1. LMC
    22/12/2016 at 14:55

    Primeiro,Dilma com seus marqueteiros
    vem e diz um monte de abobrinhas
    sobre Marina.Depois vem Trump
    com a ajuda de Putin e diz lorotas
    sobre Hillary através do Facebook.
    Como dizia o Paulo Francis,
    Waaaaaaal…..

  2. Sergio Fonseca
    22/12/2016 at 14:16

    Paulo, a realidade da espionagem tem revelado outra coisa. O PRISM, um programa de vigilância da NASA era usado para controlar o tráfego da internet, sem ninguém saber. Foi Snowden quem revelou isso ao mundo. A BULL, por exemplo, foi condenada por ter ajudado Kadaf a censurar a internet na Líbia. A microsoft possui um sistema de “portas de fundos” através dos quais o governo americano acessa todas as informações dos clientes da empresa. Alias, o debate jurídico sobre os limites de colaboração entre empresas privadas de sistemas de segurança internacional com governos locais tem sido um tema dominante em muitos tribunais que enxergam nisso a espionagem do século XXI.

    • 22/12/2016 at 15:22

      Sérgio dados empíricos servem pouco para se pensar em filosofia, pensar em filosofia é pensar mesmo, não juntas dados. Além do mais, estou falando de Internet, midia, não espionagem, isso é outra coisa. Volto a dizer, você não está entendendo o que é a Internet. A Internet é o fim da segurança, o fim do espaço privado, o reino da transparência, o ápice do “mundo como imagem” de Heidegger.

    • 22/12/2016 at 15:27

      Não, o mecanismo de internet não é isso. Não é sobre espionagem, é sobre o fim total do espaço público, a total transparência, a ideia de como um Wikileaks torna tudo público e, então, cai no descrédito. Aí os mecanismos de verdade e mentira se refazem para nova confiabilidade etc. Patamares cada vez mais amplos de publicização. Eu falo a partir da filosofia, não da política do século XIX e XX. Eu sei que é difícil, mas você logo pega a coisa. Veja, vou tentar um tratamento de choque: só você ficou sabendo que há uma tentativa de controle de tráfego “sem ninguém” saber feita por governos na INternet. E agora, conseguiu entender?

  3. Sergio Fonseca
    22/12/2016 at 13:56

    Paulo, você supõe uma configuração de poder do tipo que temos hoje. Porem, dentro dos EUA e da Europa, gente inteligente já diz: “a ordem liberal está dissolvendo”. E Merkel se perguntou agora mesmo: “como vamos nos livrar do mal?” Pode o Facebook ser capturado por um “poder central” amanha?

    • 22/12/2016 at 13:59

      Sérgio, acho que você não entendeu como funciona a mecanismo da Internet.
      AS PESSOAS da área de Humanidades ainda não entenderam como Internet funciona. Elas imagina ainda um “1984”. Não conseguem entender que na Internet quando você abre uma porta ela realmente ela não é uma entrada e saída, mas uma dupla entrada. Um entra e o outro entra. Fechar a porta para um é fechar para o outro, ou seja, acabar com a Internet. Mais isso é impossível, ela veio para ficar, como a eletricidade.

  4. Sergio Fonseca
    22/12/2016 at 12:16

    O texto vai muito além do jogo entre mentira e verdade. Se o Face conseguir criar alguma ferramenta eficiente para controlar conteúdos, e “colar” neles: confiável ou não-confiável”, com o tempo o Face incorporará a “politica da verdade”. Zuckerberg ainda possui algo como uma “consciência moral”, amanha quem estará no comando?

    • 22/12/2016 at 13:20

      Sérgio, ele não tem essa pretensão, pode ficar tranquilo. E tanto faz se ele tem ou não consciência moral. Ele está lidando com grupos que vão precisar dar selinho não de “verdade”, mas de “desconfiança”. E então vai testar se isso serve ou não para os empresários, e estes, por sua vez, vão verificar se o público se mantém no facebook ou não. A pergunta não morreu: “quanto de verdade suporta um espírito?” É só saber o quanto e pronto. Empresários não são metafísicos. Eles lidam com essa questão de um modo diferente do de Nietzsche.

  5. Tony Bocão
    22/12/2016 at 08:47

    facebook de força ativa, virou reativa para sobreviver. Tendencia das coisas?

    • 22/12/2016 at 11:50

      Tony toda a mídia é reativa (não reacionária). Ao contrário do que pensam as pessoas educadas em ciências sociais, é a população que dirige a mídia. E no contexto da população, conta também os empresários. Não dá para utilizar um meio de informação, para fazer propaganda, se ele perde a confiabilidade ou a “seriedade”.

  6. denis
    21/12/2016 at 21:15

    Zuckerberg não pode vencer a mentira e ele não esta nem ai pra isso, se tem pessoas idiotas que promovem o ódio a mentira e as porcarias, ele não tem nada a ver com isso, tem mts gente boa que utilizam pra trabalho e para relacionamentos sadios

    • 21/12/2016 at 21:34

      Denis se ele tiver um meio mentiroso e sem credibilidade ele não vende esse meio como veículo sério. É disso que ele vivE. Sem ofensa, quantos anos você tem?

    • denis
      22/12/2016 at 19:59

      37

    • 22/12/2016 at 21:29

      Denis do céu! Tá bom!

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