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20/11/2017

William Waack cai e alivia a Globo


Este artigo é indicado para o público em geral

William Waack é aquele que fazia entrevistas convidando só pessoas de direita para explicar o que é direita e esquerda. O show de pedantismo de seus convidados irritava qualquer um. Mas, mesmo assim, ele reinava sendo mais pedante ainda. À noite, levando adiante o jornal de fim de expediente da Globo, fazia manchetes catastróficas caso o governo acertasse ou errasse. Defendia a democracia liberal ocidental, mas não com a convicção de Obama e sim com o armamento de Bush. Pessoalmente, segundo os colegas de trabalho, era mais que um chato ou pedante, era “intragável”. “Finalmente caiu”, dizem os colegas e até mesmo a direção da Globo.

A reação da direita foi a de silêncio. Fingem que não aconteceu. Claro, fazem como sempre. A reação da esquerda é ridícula. Esquecem o episódio de preconceito racial ou, se falam dele, é antes de tudo para atacar a Globo. Waack é apenas usado para dizer que a “máscara da Globo caiu”. Chegam até a reclamar do fato dele ter sido afastado e não demitido, como se não existisse direitos trabalhistas a pagar e como se não existisse sindicatos para proteger o profissional. Uma parte grande da esquerda não tem uma noção da vida contemporânea e não compreende que o nome “imprensa” não significa mais nada, e que a Rede Globo é uma empresa de jornalismo e entretenimento em uma era pós-fordista. A do consumo de massa por meio da segmentação do mercado, na busca de atingir mais gente exatamente por meio do aumento de número de faixas escalonadamente. A esquerda ainda está sob o pior jargão da Escola de Frankfurt, e só com o jargão: “indústria cultural”. Isso não explica nada da grande mídia de hoje. Pior ainda se tomada ao modo da esquerda, que fala frases de Adorno mas pensando mesmo, no caso da mídia, de algo nada industrial e sim caseiro, algo como “aparelho ideológico de partido clandestino”.

A maior parte das pessoas de esquerda, especialmente no Brasil, até algumas que deveriam por obrigação  profissional não serem estúpidas, no quesito “saber sobre meios de comunicação” não conseguem dizer nada além do que se fala de jargão no primeiro ano de Ciências Sociais. Então, o que vale é a TV como “aparelho ideológico do sistema”. Isso quando não imitam a direita e acreditam que a imprensa “manipula as mentes”, em sentido de alguma teoria conspiratória. Há ainda no Brasil muita gente, com mentalidade próxima da direita ou da esquerda, que pensa a “imprensa” como se ela estivesse nascendo, como se estivesse em sua origem política, a serviço de partidos e ideologias de grupos restritos. Mas a Rede Globo não tem nada a ver com essa origem do jornalismo, dos séculos XVIII e XIX. Ela nasceu já contemporânea, e segue cada vez mais na ponta do que ocorre de mais atual em nossos dias. A doutrina da Rede Globo, única, e daí o seu sucesso, é a doutrina da sobrevivência contemporânea num tipo de concorrência empresarial que mudou de tom.

A Rede Globo colocou de molho Waack do mesmo modo que colocou de molho o ator nada antipático José Mayer. A direção da Globo já disse que não quer infrações da lei, como esta é posta pelo atual modelo mundial de estado de direito: não cabe racismo e não cabe assédio. Ao mesmo tempo, é possível mostrar o passado sem medo, com Falcão cantando “homem é homem e baitola é baitola” no Faustão, mas isso em uma situação adrede preparada. Na proa, está o humor do Zorra a mil léguas do humor do Zorra Total. Tipos como Danilo Gentili & Cia. não interessam à Globo. As novelas da Globo, e isso já faz tempo, têm caminhado pela luta contra o preconceito e pela ampliação de direitos. O programa da Fátima Bernardes também vai por essa via, ainda que às vezes num pieguismo inaudito, e o Jornal Nacional melhor muito na coragem da reportagem de investigação. No caso dos jornalismo propriamente dito, trata-se de um movimento mundial nos países de imprensa não atrelada ao estado: as redes sociais viraram lugar de proliferação de mentira e o público voltou a buscar informações mais verossímeis nos telejornais profissionais. A TV do mundo todo liberal percebeu isso e está aproveitando a onda e se cuidando mais na forma de apresentar as coisas. Por fim, vale para a Globo a lei do Bony (pai): A TV se faz se colocando sempre acima um pouco da média intelectual e moral do país, fora disso, sempre vai perder dinheiro – as pessoas cultas induzem outros ao maior consumo e dão o valor da hora de TV para as companhias que patrocinam programas.

A Rede Globo quer ser a campeã mundial do entretenimento e do jornalismo, junto da grande mídia internacional. Para isso, precisa seguir a vitória do mundo pós-história, a época em que as mudanças são só mudanças do cotidiano, sem grandes quebras de doutrina e modo de vida. Trata-se do mundo em que a concentração de riqueza e, portanto, de patrocínio, está nos lugares em que vinga a democracia liberal, respeito às minorias, defesa da educação, cuidado com crianças e mulheres, defesa ecológica, amor pelos animais, cultivo das articulações entre comunitarismo e individualismo. Tudo isso responde diretamente ao anseio do próprio mercado, com sua sofisticação atual de mercado pós-fordista de massa, segmentado, inclusivo e de cultivo da paz. A “missão civilizadora do capital” (Marx) não pode parar!

Tudo isso, no entanto, na nossa vida contemporânea está posta, para os meios de comunicação, sob uma transformação que é antropológica, que criou o homem, e que se acentua na modernidade: vida leve, ou seja, movimento anti-gravitacional em todos os sentidos (Sloterdijk). Mundo não fascista a norma é contrária ao que foi posto na porta de Auschwitz. Lá estava “o trabalho liberta”. O mundo de hoje é o do trabalho que imita o lúdico e vice versa. O peso da vida precisa ser diminuído. Se há peso, ele tem de ser reintroduzido na leveza, por exemplo estar super preocupado com o que era frívolo, mas agora virou necessidade: nunca deixar de participar de algo que não deixe que a leveza nos leve a subir de mais explodir. Que tal uma academia diária? É um fardo próprio da vida leve. Dentro da vida leve, dois outros elementos sociológicos emergem. Primeiro: o advento da sociedade da pós-moral do dever, ou seja, a ampliação da sociedade da moral do sentimento (Lipovetsky): sai Kant entram os meios de comunicação com grandes shows que na verdade são quermesses para ajuda de pobres, minorias oprimidas e desgraçados do mundo em geral. Segundo: “sociedade da transparência”; sai a ética iluminista do tudo claro, e entra definitivamente a ética já prefigurada na arquitetura do vidro. Tudo tem que ser visto de todos os lados, e até mesmo o nu é ético, pois faz parte desse ideal de transparência, que implica no fim da privacidade e na reconceituação da noção de intimidade, não deixar outra coisa como roupa senão a pele, lugar ainda de tecido, dado que tatuada como se fosse um bordado. Quem não sai da dicotomia “ser versus ter” para entrar para o âmbito do “parecer”, não existe. A ontologia atual é a da leveza (asa Delta é um esporte dessa época, o emagrecimento é regra corporal e, por fim, é o conceito de homem como apêndice do celular e dos jogos que vinga como imagem de rua), do sentimentalismo suave e resolvível por contribuição em bancos, sem esforço, pela própria arrecadação da mídia (Criança Esperança ou algum reality show beneficente é regra no mundo), e, por fim, a vida sob a norma de ter de estar no Facebook, caso contrário paira imediatamente sobre o indivíduo a condição de estar escondendo algo condenável.

A Rede Globo capta esse momento por meio de instrumentos fáceis de averiguação de marketing. Aquilo que eu aprendo na vida das ruas e nos livros citados e nas aulas dadas e pesquisas, a Globo aprende na prática da averiguação dos gostos, por conta do esforço de marketing para conhecer o seu público e poder valorar seu tempo, pois este que é vendido aos patrocinadores. A empresa capitalista Globo precisa saber como que a “missão civilizadora do capital” tem nos dado a chance de fazermos conosco o que essa missão já fez. Assim, a Globo se põe em harmonia com essa missão. O que continua existindo, mas na conta do retrovisor, é migalha (não tanto) para evangélicos de plantão, e a Globo cede isso para o passado, ou seja, para as emissoras que estão aquém de competir nesse seu mercado que gira em torno de um Brasil que se alinha para fora do trabalho escravo de Temer ou da religião dos pastores evangélicos, a religião do Deus mágico e arrecadador. As TVs que podem ter prestígio de fidedignidade e coragem real (e não gritaria anti-Direitos Humanos) se valem de heróis solitários, como um Boechat – um caso único?

William Waack cabe bem num programa de catástrofes dirigido por aquele pessoal que comemora quando o jornal mostra que há maus tratos de animais e quando mostra, orgulhoso, um negro fica preso pelo pescoço, nu, numa praça, esperando linchamento de vingadores. Romper com Direitos Humanos é prato que a Globo quer ver longe. A Globo sabia disso, sobre o horizonte mental de Waack; estava só esperando o tropeço. A queda de Waack dá a chance, para os mais inteligentes, de lerem esse artigo e, a partir das referências, largar mão de ver a TV como quem vê jornalzinho de DCE, cheio de mentiras políticas, como clubinho ideológico.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 09/11/2017

Foto acima: reprodução de tela de TV com Waack recebendo resposta por alfinetar grosseiramente Anita. Episódio da Copa.

 

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19 Responses “William Waack cai e alivia a Globo”

  1. 10/11/2017 at 11:50

    Realmente, professor. Não é só a cara dele que “assusta”, mas suas próprias ideias, também.

  2. 09/11/2017 at 20:57

    Voltando, acabo de passar pela Desciclopédia, a enciclopédia livre de conteúdo, no verbete William Waack. Quase morri de rir! De vez em quando é bom ler a Desciclopédia, para desopilar o fígado! Há quem diga que Michel Temer é “Mordomo do Frankstein”, Renan Calheiros, “Jardineiro do Drácula” e William Waack? Só pode ser “Dentista do Hitler”!kkkkkkkkkkkk.

    • LMC
      10/11/2017 at 11:25

      E o Chico Pinheiro,Isidoro Pamonha?
      É lavador de banheiro do Stalin!
      Hahahahahahahaha.

    • 10/11/2017 at 12:28

      LMC você não sabe o que fala, tá com problema mentais graves. Chico Pinheiro passa longe de qualquer comunhão com ideias comunistas. Tem dó cara, você está doente.

    • LMC
      10/11/2017 at 13:33

      Sim,PG.Ele faz parte daqueles
      jornalistas que acham Lula um
      guerreiro do povo brasileiro(sabe
      lá o que isso quer dizer).

    • 10/11/2017 at 13:54

      LMC informe-se direito sobre jornalistas e sua relação com a Globo.

  3. 09/11/2017 at 20:39

    Paulo, agora há pouco, estive conversando com meu cunhado, que mora na Alemanha. Ele mora em Dresden, capital da Saxônia, onde é tradutor juramentado da prefeitura da cidade. Contei para ele o caso do jornalista global. Ficou abismado, pois ele o conhece pessoalmente, desde 1995, quando Waack era correspondente da tv Globo na Alemanha. Ele esteve na prefeitura de Dresden, percorrendo os arquivos da Biblioteca, quando ambos se encontraram longamente. Ali, Waack disse a meu cunhado que era descendente de alemães. Depois, curioso, meu parente foi fazer uma vasta e profunda pesqusa da família Waack, oriunda do sul da Alemanha, Baviera, mais precisamente, de onde foi se instalar no Brsil, já nos fins do Século XIX. Nada de especial foi descoberto. Contudo, meu esperto cunhado descobriu que a palavra “WAACK” significa, no velho teutão, “susto”! Sim, “susto” KKKKKKKKKKKK. O sobrenome dele bem faz juz com a carinha dele, não é mesmo? Aquela cara de queijo azedo…

    • 09/11/2017 at 23:11

      Isidoro, esse cara fez uma pesquisa sobre Prestes, para dizer que o comunista pagou para entrar na Internacional. Ora, a Internacional era de fato uma organização onde todos os partidos comunistas davam contribuição. O princípio sindical sempre foi esse. As associações patronais sempre fizeram o mesmo. Waak, o susto.

  4. José
    09/11/2017 at 14:44

    O que acha de certas pessoas que falam que leem livros e por isso não veem a Globo? Como a Globo poderia agradar intelectuais e ao mesmo tempo ter uma linguagem de fácil entendimento para o grande público?

    • 09/11/2017 at 15:35

      José a Globo não tem que agradar intelectuais, ela se põe como um TV para um público que fez o ensino médio bem feito. No Brasil de agora, o público da TV aumentou, o ensino decaiu, mas a Globo insiste. Tem de insistir, se ela aposta no público maior, este não dá retorno. Não se paga TV só por público, mas por público que consome o que as empresas querem vender. Você não reparou que há carros caríssimos com propaganda como se fosse propaganda de massa?

    • LMC
      09/11/2017 at 16:18

      Tem tontos de direita achando que a
      Globo virou progressista e esquerdista.
      Não lembram que o Amaral Neto
      passava na Globo há 40 anos atrás.
      kkkkkkkk

    • 09/11/2017 at 17:23

      lmc VOCÊ DISSE BEM, 40 ANOS. Hoje a Globo está progressista porque o mundo no qual ela se desenvolve é do “missão civilizadora do Capital”. Acho que você não entendeu meu texto.

  5. Marcelo Vapuca
    09/11/2017 at 13:48

    Professor Paulo, nem todo mundo entende a ” empresa ” Rede Globo, muitos enxergam ali um ” poder ” que ela não possui e como bem explicou o professor , a empresa ” capta ” o momento, uma pena que muitos estão ” fora ” do momento.

    • LMC
      14/11/2017 at 12:23

      Marcelo,o novo Zorra parece
      humor de DCE e de quem lê
      a Caros Amigos.Pelo jeito,a
      Globo está em dúvida se
      apóia Huck ou Alckmin em 2018.

    • 14/11/2017 at 19:52

      A Globo não tem candidato, LMC. Tá difícil você entender o capitalismo atual.

  6. LMC
    09/11/2017 at 11:25

    E quando a Globo vai mandar
    embora o padre Marcelo Rossi,o
    William Waack de batina,hein?

    • 09/11/2017 at 11:37

      LMC qual lei ele infringiu e qual norma contemporânea ele desobedeceu dentro do que falei?

    • LMC
      10/11/2017 at 11:29

      A Globo não diz os nomes do
      PCC e CV e diz que são facções
      criminosas.Mas ela cita IRA,ETA,
      Estado Islâmico,Al-Qaeda,etc.
      Não são facções criminosas,
      também?Isso lembra aquela
      famosa frase do Médici sobre
      o JN.PQP!!!

    • 10/11/2017 at 12:27

      LMC é incrível que você não saiba distinguir isso.

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