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25/09/2017

Só a imagem nos dá existência e nos devolve os sentidos


Boa parte de nós já andou semi nu por aí, ao menos na praia. A maior parte de nos já viu gente seminua na rua, em qualquer verão brasileiro. Mulher e homem com pouca roupa não falta em um país tropical. Faz tempo que casais não usam mais nenhuma roupa no sexo. Estamos acostumados a isso? Sim, desde sempre.  Antes de Cabral, mais, depois paulatinamente fomos retomando esse comportamento. No entanto, de uns tempos para cá, começamos a repensar a questão do nu, mas sempre nos meios de comunicação, nunca na rua. O que ocorreu?

Nossas ruas estão cada vez mais livres. As agressões contra gays e travestis continuam, mas as denúncias e proteção também aumentaram. O beijo gay nas ruas das cidades grandes não causa problema. Mulheres decotadíssimas menos ainda. Os meios de comunicação, claro, também estão mais livres e ousados. Todavia, um falatório sobre imagens reapareceu, e está mais forte. Explicando em poucas palavras: Neymar teve a bela Bruna Marquezine nua na sua frente e ao sabor de deu toque, mas eu garanto que está repassando as fotos dela de Nunca mais será com antes, da TV Globo. Muita gente está. Ao contrário do que algumas mulheres (feministas?) gostam de bradar, não são só adolescentes masturbadores que procuram tais imagens. Muita gente mesmo, inclusive, claro, mulheres – com interesses variados, meramente estéticos inclusive.

Para entender essa situação aparentemente paradoxal e não começarmos a falar em “onda conservadora” – frase que venho escutando desde quando nasci, mesmo em épocas nada conservadoras – precisamos notar dois elementos em nossa sociedade. O primeiro diz respeito à linguagem falada ou escrita, o segundo diz respeito à imagem.

Sobre a linguagem falada ou escrita, há agora, de fato, uma censura conservadora de parte da sociedade – mas muito específica. Falamos palavrão em novela, mas ao mesmo tempo o palavrão, que ganhou a boca laica e até católica, perdeu espaço em muitos lugares graças ao crescimento das igrejas evangélicas, não raro mero aparato. Essas igrejas procuram ampliar o número de fieis de qualquer maneira, e então evocam os códigos morais os mais brandos possíveis, mas com capa superficial mais rígida. Não à toa seus pastores mais famosos estão sempre envolvidos com escândalos financeiros. Em igrejas assim, para que o fiel tenha a sensação de que de fato está no interior de uma religião, ou seja, uma comunidade que cria proibições (essa é sua ideia de religião), é necessário inventar aleatoriamente alguma proibição. Inventa-se pecados, claro, mas em geral aqueles que não criam problemas, os que não afetam os fiéis no que fazem. A questão do pecado, então, se torna uma questão de adaptação semântica. Pode-se ir ao motel com a mulher do outro, mas não é bom falar palavrão em casa, e sempre usar as palavras “Deus” e “Jesus” para tudo etc. É mais ou menos isso.

Sobre a imagem, o assunto é outro. Nada tem a ver com religião popularesca. É que estamos em franca redefinição ontológica há no mínimo trinta anos, e talvez, se seguirmos Heidegger, desde o século de Descartes. Foi Heidegger quem denunciou que o mundo virou “imagem de mundo”, em especial a partir da abertura para a modernidade. Assim, a filosofia teria chegado antes que todos no que vivemos agora, acentuadamente, o fato de tudo só ser se aparecer, tudo conta antes por ser antes representado que apresentado. Heidegger falou da ontologia agregada ao olho humano, um efeito do humanismo. Estamos em baixa com o humanismo, e então vale o olho da máquina para garantir o ser das coisas. O olho da tela, seja ela da TV ou da Internet, diz o que é que vale a pena. É interessante e vivo o que é real, e o real só é real se for virtual. Cópia é papel, o virtual, o que está na tela, não é tomado como cópia. A “época das imagens de mundo” é a época da realidade como telerrealidade, como realidade virtual. Tudo vale se tiver uma perspectiva fixa, um ângulo, uma capacidade de expor a construção, o designer. Ser designer é ser gente. Aliás, nem é a imagem em movimento o importante. Cresceram novamente em número os sites que oferecem mulheres nuas em fotos. A tatuagem é agora reatualizada em partes íntimas. O clareamento anal é moda. Não se trata da moda que põe o corpo no centro, mas da necessidade de que a foto dê sentido à realidade e, nesta, lá vai o corpo junto. Nossos olhos já não focam, pois só focam a partir do foco. A lente nos venceu. Da representação nossa à representação produzida pela máquina caminhamos rápido, e nossa ontologia se transferiu para o recorte visual de tal maneira que só é realmente sexy quem está na foto. Os casais para se excitarem precisam não mais dos corpos reais que possuem, uma vez que a realidade que brilha é a da foto do celular, propositalmente vazada. O nudes é o cartão natalino melhor entre meros conhecidos. Que marido que não pede, hoje, foto da própria mulher nua (e vice versa, logo logo).

Sendo assim, é claro que pode ressurgir a preocupação com certos tipos de imagens, principalmente se forem de fato imagens. Guy Debord havia dito: nossa situação não é da questão “ser versus ter”, como gente como Erich Fromm dizia quando ele escreveu isso. Nossa questão, disse ele, é a do “ser versus (a)parecer”. Ser visto como imagem dá sentido hoje para as coisas, faz elas existirem. A cultura do olho com visada, com foco, é imperiosa. Descartes não sabia que Heidegger, ao falar dele como o homem que forjou o paradigma da representação iria, na verdade, não saber que de fato o paradigma moderno iria se reatualizar no contemporâneo por meio de Bill Gates e Zuckerberg, ainda que o último lute contra isso dentro da máquina que produz isso contra o qual ele luta.

Nossa preocupação é com a foto. A realidade em várias casas de prostituição ou boates na atualidade não sobreviveriam se não tivessem telões. Esses dias fui numa palestra dos eventos do Fronteiras do Pensamento, e me vi olhando para o telão ao invés de olhar para o palestrante, bem minha frente.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 21, 12/2016

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5 Responses “Só a imagem nos dá existência e nos devolve os sentidos”

  1. ivan lázaro
    21/12/2016 at 19:50

    É por causa dos paus e priquitos da Clarice Falcão? Porque só vejo gente falando em “apelação publicitária” e bobagens do tipo! Ela fez isso pra aparecer mesmo! Pra fazer Ser aqueles pintos e bucetas, fazer aparecerem pra serem! As pessoas esqueceram o que tem entre as pernas e precisam de imagens pra fazê-las verem a realidade. Se o senhor permite essa leitura minha do seu texto…

    • 21/12/2016 at 21:35

      Ivan acho que dá para ler o artigo a partir do nível em que ele está.

  2. Ramiro
    21/12/2016 at 19:46

    Dixi

  3. Ramiro
    21/12/2016 at 19:23

    É de ler “O Lado Obscuro de Nossa Alma”, de Elisabeth Roudinesoco? Bem, para colocar a fruta no bolo.

  4. Ramiro
    21/12/2016 at 19:18

    Célebre ao olhar para o telão no Fronteiras do Pensamento. Enquanto o professor tiver gosto por mulher em poses sensuais, vai ser popular entre os que tem ganas de filosofia.

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