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16/12/2017

Síndrome de Joana D’Arc versus Anitta


Texto indicado para o público em geral

Cantar é fácil. Jogar futebol, então, nem se fale! E ser ator? Bico! Tudo que se parece jogo, lúdico, parece fácil. Ainda que se reconheça que não é, na hora da avaliação geral, cai para o âmbito do suave e, perigosamente, para o campo da “mulher de vida fácil”. Só o trabalho é difícil e honrado. Trata-se da ideologia do peso, um elemento necessário da nossa noção de real. Está na realidade quem está sob o peso. Peso da gravidade e peso do trabalho. Os que não vivem assim são cigarras, que só cantam e não carregam o peso que as formigas carregam. A ideologia do peso e do sacrifício, embutidas na fórmula moderna do trabalho, ficaram imortalizadas no portão da imortalidade. Para entrar em Auschwitz se passa por baixo de célebres dizeres: “Só o trabalho liberta”.

O fascismo é a negação da vida. Pois a vida é mimo, é plus, é justamente o oposto da sobrevivência. A vida do fascismo é a sobrevivência. É necessário todos os dias o sacrifício. É necessário pagar um preço sabe-se lá por qual razão. Havia um deus que cobrava o sacrifício. Uma vez que ele se recolheu no seu mito, é necessário novo mito, novo super-chefe que cobra, agora, que o sacrifício continue. Hitler conseguiu transformar o esporte em guerra. E o militarismo faz de canções e poesias apelo para a marcha rude. A cena terrível da filmografia que ecoa é sempre aquela do rock utilizado para dar o contexto real dos americanos no Vietnã. Até o que foi feito para alegrar tinha que se por como coadjuvante do que foi feito para matar.

A ideologia do sacrifício se amplia quando o fascismo recobra forças. Nessa hora os museus, as galerias, os teatros, os palcos de TV e os campos esportivos precisam ficar atentos. Tudo que se apresentar como sendo lúdico, sem sacrifício, sem trabalho, sem dor aparente – mesmo que for feito como muito esforço e esmero – irá ganhar olhares desaprovadores. Inclusive o sexo sem procriação entra nessa categoria do divertimento. O mundo não pode se divertir. O “homem do divertimento”, de Pascal, já era em parte condenado por ele mesmo, antes pelo seu cristianismo que, de fato, pela sua filosofia que, enfim, nessa hora mais cedeu à religião.

O mais interessante dessa situação é que em geral são os candidatos ao sacrifício que cobram o sacrifício. É nesse contexto que a professora que morreu queimada e que nunca foi valorizada por ser professora tem, agora, de vencer Anitta num concurso de Mulher do Ano – feito na TV! As vozes do neofascismo desconsideram que o prêmio seja na categoria de Entretenimento. Elas não sabem o que é isso. Conhecem trabalho e sacrifício. Fazem parte dos escravos e, portanto, o que sabem das arenas é que devem entrar ali só para serem devorados por leões.

A síndrome de Joana D’Arc que se abateu na Internet contrapondo a professora queimada e Anita é fruto dessa situação: escravos, trabalhadores e desgraçados da vida cultivam a escravidão, o trabalho e a desgraça. Se não há sacrifício, ou seja, o reino dos Céus para os queimados, que devem ser queimados, como se pode falar em “prêmio”? “Mulher do ano”? Como que alguém pode ser “mulher do ano” cantando ou, pior, mostrando sensualidade e mexendo aquilo que mexe de modo leve, aparentemente sem esforço, que é a bunda? Das partes sexualizadas a bunda é a que nada faz, já que os seios ao menos amamentam. A bunda? Ora, fica sempre ali, desbundante, ou simplesmente … sentada! Vagabunda!

Segundo Sloterdijk, assim eu o leio, poderíamos pensar numa filosofia da história posta pela crescente leveza, crivada por novos patamares de peso. O peso de uma sociedade moderna é o entretenimento. O peso dos que não conseguem adentrar na modernidade – e o fascismo é uma ideologia moderna de recuperação do retrógrado – é o velho peso do sacrifício, o peso pesado. Trata-se do peso do tempo em que não havíamos ainda tentando voar com o mais pesado que o ar.

Não se esqueçam: quando uma cidade quer ser um gueto de expurgados, a primeira coisa que ela deve instituir, são os heróis do fogo. A Rede Globo deve deixar de ser uma empresa de entretenimento para se tornar um grande crematório para as moças do futuro. Professora? Ah vá! Ninguém está querendo aí falar em professora. Quer se falar em churrasco.

As internautas (e os internautas) querem que no domingo à noite o Faustão irradie: olha a filha da dona Cotinha e neta da Dona Maria, é ela, a mulher morta queimada – aplausos!  Acho que isso iria satisfazer essa gente, dentro de suas vidinhas enclausuradas em roupas de baixo bejes, GG, claro.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 30/11/2017

Gravura: Joana D’Arc sendo queimada viva, por François Chifflart, 1901.

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2 Responses “Síndrome de Joana D’Arc versus Anitta”

  1. LMC
    01/12/2017 at 14:03

    Enquanto isso,Marcelo Coelho
    disse na Folha desta semana
    que a nova Miss Universo é
    branquela.Mas só bateram
    no Waack porque ele é da Globo.
    kkkkkkkkkkkkkk

    • 01/12/2017 at 14:32

      LMC, não se preocupe, há chance de aparecer um energúmeno para dizer isso. Sempre tem um!

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