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23/10/2017

Sem a Rede Globo nosso país seria mais provinciano e mais ignorante


Entender a mídia hoje em dia não é para qualquer um. Os intelectuais, especialmente os que se educaram nos anos sessenta e setenta, criaram antes preconceito que conceito a respeito da mídia em geral e da TV em específico. Claro, existiram exceções. O escritor alemão Hans Magnus Enzensberger, por volta da segunda metade da década de oitenta, fez um artigo certeiro contra a tese da idiotização das populações pela TV. O texto, de título “O vazio perfeito”, deveria ser mais divulgado. Mas o que quero falar aqui é bem mais simples do que a análise do alemão. Dedico-me a lembrar do papel civilizatório e urbanizador da Rede Globo, mas claro que dentro do quadro nacional e do contexto em que é necessário considerar as outras TVs.

A Rede Globo em seu Jornal Nacional (JN) dedica-se, na maior parte do tempo, à denúncia da corrupção. E isso não é de hoje. Se olharmos o tempo que William Bonner gasta nisso e o compararmos com os outros jornais das outras TVs, numa análise consciente, veremos que a Globo é única emissora que faz um serviço didático e contínuo a esse respeito, e realmente contra todos os partidos. Tanto é verdade que as reclamações contra a Rede Globo saem de todos os lados partidários. De Temer a Lula, de Dilma a Aécio e figuras menores, não há uma edição do JN que não coloque algum cacique político, grande ou pequeno, na berlinda. Aliás, vale lembrar, a Rede Globo é a TV que mais gasta tempo lendo réplicas, cuja leitura é obrigatória por lei.

As novelas da Globo oscilam de qualidade, claro. Ela produz intensamente e, por isso, o que é ruim acaba indo ar. Mas há uma constante na Globo, quanto à sua teledramaturgia: não raro ela acerta, e respeita o estilo de folhetim, originário da novela; então, para todo tema trata das situações de maneira a deixar o público mais conservador sempre irritado. O preconceito contra gays, negros, índios e pobres é tratado de maneira realista. E não perde a chance de exibir os contraditórios. A ação da polícia, nas novelas, raramente é maniqueísta. O vocabulário das novelas da Globo sempre exige de quem vê uma atualização com o que se passa no Brasil. Não há dúvida que é a teledramaturgia, na média, a mais tecnicamente bem feita e a mais progressista entre todas as exibidas na nossa televisão.

Em termos de progressismo científico a Rede Globo também sai na frente. Dedica-se a falar de evolução darwiniana, de astronomia, de probabilidade econômica, de novidades em medicina e outros assuntos técnicos no horário nobre, tanto no Jornal Nacional quanto no Globo Repórter e no Fantástico. É uma ousadia e tanto num país que segura a lanterna da fila de qualidade da educação mundial. É de uma coragem empresarial que só a Globo tem: falar para além do que o público pode entender, arriscando perder os que a financiam com a propaganda. Mas a Globo em geral não cede nesse quesito. Todas as outras TVs cedem. Todas as outras TVs são para um público sem ensino médio, ou até mesmo sem escola alguma. As outras TVs não possuem nenhuma preocupação de puxar o público para uma condição intelectual melhor. Mas na Globo, desde Bony, isso era um imperativo. Tem voltado a ser assim mais recentemente, após um curto namoro – felizmente terminado – com os “gostos das classes emergentes c e d”.

Sem a Globo teríamos as TV brasileira, com todas as transmissoras vendidas ou alugadas (ilegalmente) a grupos religiosos, falando da Terra plana, do pecado de usar mini saia, do espraiamento do comunismo e do demônio, do perigo do domínio de trabalhos de magia negra para todo o lado. Se agregarmos toda a programação das outras TVs, mais de 80% do horário delas é dedicado à ampliação de uma visão mágica do mundo, ou ao cultivo da simples ignorância e preconceito por meio de programas ditos religiosos ou semi-religiosos ou programas de nítido apelo às teses contra os Direitos Humanos e coisas do tipo. A Globo é a única TV que não precisa de programas do tipo daquele do Datena & Cia. As coisas só não são piores em outras emissoras porque há nelas algumas figuras solitárias que, a duras penas, tentam ainda fazer alguma coisa que não ceda à voracidade reacionária dos seus proprietários, ou à mentalidade carcomida destes a respeito de cultura. E isso não melhora em nada na própria TV Cultura, basta ver o seu jornal para constatar isso. Copia notícias e as repassa para comentadores sem formação jornalística falarem abobrinhas e darem opiniões de boteco sobre tudo.

Podem reparar como a direita e a esquerda reclamam da Globo e da liberdade de imprensa. Aprenderam com Vargas, Jânio, Brizola e agora Lula a atacar a Globo como um tipo de Quarto Poder. A patuleia que os segue faz o mesmo, pois segundo essa gente estúpida a Rede Globo tem a missão de transformar todos nós em homossexuais e com isso “destruir a família brasileira”. Juro, há até gente que conseguiu fazer alguma escola média que pensa assim.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 26/08/2017

 

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11 Responses “Sem a Rede Globo nosso país seria mais provinciano e mais ignorante”

  1. Orquidéia
    31/08/2017 at 07:44

    Na novela global das seis [Novo Mundo], da qual sou fã _ ontem os personagens principais da história recente do Brasil disseram em relação à independência iminente o quanto eles “estavam cansados de temer”.
    Sim, “estavam cansados de [Tt] emer.”

    Foi bem engraçado o trocadilho.

  2. Gerson Sabbá
    28/08/2017 at 10:14

    Acho que é a primeira vez que vejo um intelectual ver alguma utilidade na Rede Globo. Uma pena é não ter concorrentes a altura. Eu concordo plenamente você!

    • 28/08/2017 at 10:27

      Gerson! Ser filósofo é ser, antes de tudo, inteligente. Tenho um razoável conhecimento da mídia mundial e sei, também, como funciona uma empresa por dentro. Não participo dessas visões estreitas, que mostram as empresas vivendo de ideologias e não do lucro. A Rede Globo fez uma opção por um setor escolarizado e com dinheiro, um cara mais ou menos liberal que pode comprar o que ela vende direta ou indiretamente: entretenimento, informação e produtos de outras empresas. Ela viu que apostar nas tais classes emergentes, C e D, foi uma bobagem momentânea.

  3. Guilherme Pícolo
    27/08/2017 at 20:40

    Bom! Sem contar que hoje a TV aberta não tem aquele poder de mobilização que tinha há uns 20 anos, e isso se deve, principalmente, à multiplicação / pulverização dos canais de comunicação, que entres prós e contras levou a certa democratização na geração e distribuição de conteúdo e na participação do espectador.

    Fato é que, para quem acompanha as medições ao longo do tempo, sabe que a audiência da TV aberta caiu dramaticamente, com o advento dos canais a cabo (inclusive com acesso a noticiosos de redes estrangeiras – Bloomberg, Fox, CNN, Deutsch Welle, RAI, TVEs, RTP etc.) e novos hábitos propiciados pela Internet (com rádios online, jornais, portais, revistas digitais e blogs / vlogs – de boa e má qualidades); não há como se falar em monopólio da informação…

    Se a ideia de que a Globo executava lavagem cerebral na população já era esdrúxula nos anos 80, hoje ela realmente chega a ser risível… A pluralidades de canais e meios de comunicação não deixaria impune o concorrente que eventualmente investisse no sentido de manipular a informação, e o exporia facilmente ao ridículo, abalando a sua credibilidade e, por tabela, a sua viabilidade comercial (como de fato aconteceu com diversas “reportagens-denúncias” do Fantástico nos últimos anos, levando o programa a amargar derrota para o Pânico e demandar reformulação completa de conteúdo e formato)…

  4. Matheus
    26/08/2017 at 23:50

    Os comentários de buteco no Jornal da Cultura é o fim da picada… Houve tempo em que os comentaristas foram melhores (ainda que muitos fossem de esquerda carcomida) o único que ainda segue e eu apoio é o Médico Saldiva.

    Ele aprendeu na TV e muito, ele dava muito pitaco de buteco, começaram a “xingar muito (ele) no twitter” aí ele começou a falar menos é agora quando fala só fala pra dar a impressão dele sobre algo de uma forma muito prática, sobre as implicações dos acontecimentos no nosso dia a dia. Ele tá se tornando um pragmatista de primeira rsrs. E o melhor ,sem dogmatismo político nenhum, o resto continua lá defendendo bandeira, posando ou vendendo palestra (Cortella, Pondé, Karnal e CIA)

    • 26/08/2017 at 23:55

      Realmente a turminha do Pondé e Karnal é dose. Estão agora ficando ranhetas e cada vez mais incultos, se repetindo em dogmatismos e partidarismos. Parecem adolescentes descobrindo a “pulítica”

    • LMC
      28/08/2017 at 12:58

      Criticam muito o Maluf como
      governador,mas a verdade é
      que a TV Cultura era muito
      melhor que é hoje,sem esse
      Jornal da Cultura que não
      é Jornal.

    • 28/08/2017 at 12:58

      LMC acorda! A TV Cultura praticamente fechou na gestão Maluf-Covas.

    • LMC
      28/08/2017 at 15:50

      O Fantástico de ontem falou
      mais da princesa Diana do
      que da professora agredida
      de SC.O diretor do programa
      deve ser parente do Boçalnaro.
      kkkkkkkkkk

  5. Bruno Zoca Barbosa
    26/08/2017 at 19:13

    Não sei se isso tem muita influência, mas um dos Marinhos é formado em História e Geografia pela PUC.

    • 26/08/2017 at 19:50

      Bruno, sempre tem. Mas o velho Roberto Marinho não era nenhum xucro!

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