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16/12/2017

A realidade da Folha de S. Paulo é um conceito nada real


Artigo indicado para o público em geral

O que é a realidade? Platão dizia que era o que permanecia, o imutável e, portanto, o mundo das Formas, o mundo da perfeição, matriz do mundo existente. Platão separou muito bem o real do existente. Os empiristas e seus parentes, os positivistas, chamaram o real de “o dado”, o que captamos pelos órgãos sensoriais como “coisas”. Marxistas e pragmatistas, filhos todos de Hegel, chamaram o real de prática ou práxis, ou seja, as relações de todo tipo – cósmicas, sociais, orgânicas etc. A Folha de S. Paulo, seguindo um tal instituto  Ipsos Mori, que pensa em fazer pesquisa mas faz enquete, chamou de realidade aquilo que está nas estatísticas. As “estatísticas oficiais”. (Veja aqui)

Dessa maneira, como os brasileiros foram postos para falarm em porcentagens – que depende de ler as estatísticas – que não batem com a leitura de quem está com as fichas governamentais nas mãos, eles foram declarados como os que, no mundo todo, são os que estão entre os que “menos noção da própria realidade”. E o termo “própria”, aí, é quase um escândalo. Ou seja, sei mais da “realidade” se sou um assíduos leitor de tabelas do IBGE. Juro! É isso!

Há programas do Sílvio Santos ou de outros animadores que trabalham com essa visão espetacular do tal Instituto Ipsos Mori. Um grupo de artistas compete com outro grupo de artistas sobre porcentagens. “Quantos por cento” comem sushi completamente pelados em casa?” E a partir dessa pergunta os grupos colocam no papel o que acham: “0.001%”, “25%”, “a população toda” etc. Ganha o grupo que fica mais próximo da resposta oficial do IBGE, ou, no caso da Folha, do Instituto Mori. Sílvio Santos, com todas as fichas na mão, arbitra o jogo e diz, então, quem está mais próximo da realidade! Platão ficaria ruborizado ao ver que o homem da realidade na mão é Sílvio Santos. Mas qualquer jornalista da Folha também fica ruborizado com isso. O editor mais ainda! Não entendi a razão do jornal em tem endossado tamanha babaquice!

Não é necessário optar por conceitos filosóficos sobre “o que é o real?” para descartar a ideia de que alguém sabe sobre a sua vida a partir de estatísticas. Esse tipo de avaliação faz com que algum bobo alegre, lendo a Folha, comente: “olha como o brasileiro é alienado”. Pessoas que são politizadas à direita e à esquerda, que entendem de Bolsonaro e Lula, hoje em dia (esses doutores das esquinas da Internet e de palestras), adoram a palavra “alienado”. “O brasileiro é alienado” é uma frase equivalente àquela do Capitão Nascimento: “o sistema é foda”. É para ser uma piada, porra! O bolsonarista e o lulista não entenderam!

Sabemos onde vivemos por conta de algo chamado “experiência”, para John Dewey, para algo chamado “vivência”, para Dilthey, para algo chamado de “práxis”, para o marxismo, para algo chamado de “aquilo no qual a linguagem se engancha – talvez”, para gente que leu Wittgenstein ou gira na órbita de escolas da filosofia pós-linguistic turn. Essas noções de “realidade” são as mais próximas da do senso comum do que a do Instituto Mori. Estar na realidade é estar em meio ao que se vive, e a percepção que temos do que vivemos não é a percepção do que não vivemos. Vejamos! Para Temer, o brasileiro vive mais de 200 anos, para as pessoas que trabalham, a média de vida é 60 anos, embora a expectativa de todos nós seja de no mínimo 100 anos. Essa compreensão da nossa práxis, agrupada às nossas expectativas, nos dá “a realidade” a respeito da vida e, portanto de uma situação política atual chamada “reforma da Previdência”. É assim que trabalhamos com a “realidade”.

Se há uma coisa que não nos dá nenhuma realidade são as estatísticas, mesmo se estiverem corretíssimas. Elas nos dão, apenas, uma média sobre uma região a respeito de dados pontuais. Mas nós, de carne e ossos, não vivemos no mundo da matemática, vivemos na rua X no bairro Y onde tem dengue ou não tem dengue, onde tem polícia violenta ou não tem polícia e onde há gente que faz sexo e vive de modo gostoso e há gente só amargurada que cria problema para a vida do outro. Essa vida concreta é sim percebida e essa é a realidade segundo o que nós todos tomamos como realidad! Os filósofos se aproximam mais disso. O instituto Mori não!

Se saber de cor estatística é saber “da realidade”, então diríamos que todas as sociedades primitivas não viviam na realidade! Meu Deus, salve a Folha de S. Paulo das garras dessa insensatez chamado Instituto Mori. A ECA precisa ver isso e tomar mais cuidado com a formação dos jornalistas!

Aí vem um chato e diz: “a formação do jornalista está fora da realidade”.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 06/12/2017

Gravura: figura pato-coelho, de Wittgenstein

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